Fugitivos

images (1)Ela se chamava Renata, eu acho. Era uma garota oriental, de uns vinte e cinco, vinte e seis anos, estatura mediana, semblante sério, de quem parece estar sempre fazendo alguma conta. Todo dia, usava a mesma roupa para trabalhar: calça jeans, camiseta e tênis. Se fazia frio, vestia um casaco por cima, desses acolchoados. O cabelo estava sempre solto, nunca havia maquiagem nenhuma naquele rosto monocórdio e isso era tudo o que eu sabia dela. 

Eu só a conhecia de vista e todos sabem como é conhecer pessoas de vista – em algumas, a gente costuma prestar atenção, observá-las vira uma espécie de passatempo secreto, e no meu balaio particular desses alguns havia Renata. Saí da editora onde eu a conhecia de vista, passei anos sem voltar lá e, quando voltei, vi Renata toda maquiada, vestindo uma roupa chamativa, colorida. O semblante continuava impassível, mas, agora, ela andava sobre um salto 10 (só uso sapato baixo há um bom tempo e divido os saltos entre os inexistentes e os de número 10). Minha vontade era ir até ela e falar:

– Renata, como você está diferente!

Mas não falei nada. Primeiro, porque só conhecia Renata de vista, e a vista podia não ser recíproca. Mas, principalmente, porque, mesmo se já tivéssemos trocado algumas palavras, sei que a mudança constrange muitos de nós.

Passamos os nossos dias assistindo, lendo, falando, ouvindo, lembrando, nos dando conta. Tudo é transformador, mais para uns, menos para outros, mas parece que niguém quer ser descoberto.

Às vezes as transformações são drásticas e banais, como a centimetragem do salto, e às vezes são tudo, menos banais – um novo olhar, um novo jeito de ver as coisas, que pode ou não alterar nossos sapatos. Sabemos que todo mundo está vendo, mas, se alguém menciona o fato, desconversamos: dizemos que sempre tivemos o hábito de ver filmes iranianos, quando queríamos dizer: “sabe o que é, gosto mais de mim do jeito que sou agora”.

Mudamos, sabemos que mudamos, que conquistamos até mesmo algum orgulho do nosso ser atual, mas isso não basta: temos vergonha de nem sempre termos sido do jeito que somos hoje – e não queremos ser desmascarados.

Aqui dentro, parece que sempre tem um síndico ranzinza que não admite mudanças, um refém eternamente aprisionado na nossa versão anterior. Lá fora, os reféns alheios adoram lembrar a amiga independente que ela já foi carente, avisam o pai realizado que ele não queria criança por perto e se regozijam dizendo ao ex-executivo que agora leva uma vida simples no interior: “Rá, eu te conheci quando você nem sabia a diferença entre rúcula e agrião”.

É como se dissessem: “Não tente me enganar, eu sei quem você é”.

Claro, os que gostam de desmascarar os outros também fogem dos seus próprios vídeos passados, desmentem declarações que fizeram, convictos, anos atrás, e são aterrorizados não tanto por penteados antigos, mas por suas velhas opiniões, ideias e jeitos de ser.

É estranho. Não só passamos a vida querendo mudar algumas coisas em nós, como insistimos para que os outros à nossa volta também mudem. Criticamos, em voz alta ou em silêncio, nossos pais, maridos e mulheres, vizinhos e chefes – apenas por serem quem são. Mas, se eles mudam, estão fritos.

Queremos que as experiências nos mudem, mas que ninguém descubra. Sabemos que não somos estáticos, que a nossa personalidade está em contínua formação, mas não podemos nos deixar atropelar por nosso dinamismo: ele é incontrolável demais e, como todos sabem, somos bobos o suficiente para querer controlar tudo.

2 comments to “Fugitivos”

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  1. Jéssica - 12 de agosto de 2013 at 15:49 Reply

    Muuuito bom! Me identifiquei bastante com o fato de acabar querendo encobrir minhas mudanças, infelizmente mais por eu me importar com a reação das pessoas, do que simplesmente com o que eu penso.

  2. Thaís Ancelmé - 17 de agosto de 2013 at 22:06 Reply

    Perfeito!

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