Esse negócio de tolerância

ZF5NnFow3pjkawnK6e4d Você precisa ser mais tolerante – ela disse, num tom casual, como quem comenta sobre o tempo lá fora enquanto passa manteiga na torrada. De fato, ela estava passando manteiga numa torrada enquanto ele bebia café e lia o caderno de esportes. Lá fora, fazia sol.
Tolerante? ele ergueu as sobrancelhas.
É, você é muito crítico com ela, não aceita que ela seja diferente de você, assim fica difícil.

Ela deu uma mordida na torrada sem pretensões de espichar o assunto, era só um comentário, nem via tanta gravidade na maneira como ele lidava com a irmã mais nova dele. Mas ele largou o jornal e olhou para ela, muito sério. Tolerante?

Escuta, eu não sou tolerante nem pretendo ser, isso tem que ficar claro.
Hã?
Esse negócio de tolerância, aliás, está acabando com o mundo. A igreja católica…
Ai, meu Deus, entendi, é mais uma das suas teorias da conspiração. Veja, eu só quis dizer que a sua irmã…
… a igreja católica vem com esse papo de tolerância religiosa enquanto os evangélicos e os muçulmanos vão dominando tudo com seus discursos de intolerância. A tolerância, isso precisa ficar claro, a tolerância é uma fraqueza!
Não acredito, essa é a pessoa com quem me casei, uma pessoa para quem a tolerância é uma fraqueza ela riu. Me passa o requeijão?
Vocês, bonzinhos, precisam parar com esse papo de que a tolerância é uma virtude.
 “Vocês, bonzinhos”? Eu não sou boazinha. Eu sou má, vem cá, depois do café eu te mostro….
Você compactua com esse discurso bonzinho de que a tolerância é uma coisa boa, vou te dizer uma coisa, foi só porque a Inglaterra e a França adotaram uma política de tolerância que Hitler conseguiu fazer o estrago que fez!
Hitler? Amor, pelo amor de Deus, tá um tempo lindo lá fora, hoje é sábado, Hitler?
Você viu no que deu a política de apaziguamento? Você quer coisa mais sem sentido que o Acordo de Munique? Quando os ingleses e os franceses finalmente decidiram fazer alguma coisa, Hitler já tinha anexado a Áustria, já tinha invadido a Polônia. Vocês, tolerantes, não podem ficar assistindo as pessoas cometerem as maiores atrocidades enquanto ficam aí fazendo cara de idiotas.
Espera, você tá me chamando de idiota?
Os tolerantes ficam aí tolerando e os intolerantes fazem a festa, ou melhor, fazem o inferno, porque é isso o que o mundo virou, um inferno! O sistema penitenciário do Brasil é tolerante com a bandidagem e é essa merda. Você que é toda tolerante, o que você acha de a gente passar a tolerar os pedófilos? Hein? Você acha que o estupro deve ser tolerado?

Ela olhou a torrada desolada, nua, à espera do requeijão. Olhou o tempo lá fora e suspirou. Tinham mesmo que falar de estupro no café da manhã? Odiava aquelas discussões repentinas que não solucionavam nenhum dos problemas mundiais, apenas acabavam com seu café da manhã. Em todo caso, suspirou e disse:

Bem, qual é a solução, então? Transformar o mundo numa guerra entre intolerantes? Os Estados Unidos adotam essa tática contra o terrorismo e você pode ver que não está funcionando.
Como assim?
Ué, tem um discurso de intolerância dos dois lados! Os americanos adotam um ponto de vista inflexível, porque é o ponto de vista que eles consideram o correto, e o outro lado faz exatamente a mesma coisa. Assim, o conflito não termina nunca: se as verdades são absolutas, não há concessões.
Outra palavra que detesto, concessões.
Mas amor, tolerar é fazer concessões! Tolerar não é uma coisa agradável. Já viu a cara que o papa faz quando fala que aceita os homossexuais? Aquele que tolera sofre. Aquele que tolera diz: veja, eu não gosto do seu jeito de fazer as coisas, eu vejo o meu jeito de fazer as coisas como o melhor, mas tolero o seu jeito…
Ou seja, acho seu jeito imbecil…
– … tolero o seu jeito e aceito conviver com você, desde que dentro de certos limites… Acordos, concessões…
Detesto a palavra “concessão”.
Ai, tá, que saco, usa outra palavra então. Mas é isso. É com acordo que vai se resolver o conflito entre Israel e Palestina, por exemplo, com tolerância, o que significa…
Que tolerância que nada! Sou a favor de Israel!
Gente, mas não é disso que eu tô falando, você pode ser a favor de quem você quiser, mas um conflito desse tipo só se resolve com os dois lados saindo machucados, com os dois lados tendo que ceder em alguns aspectos, em vez de cada lado tentar  impor a sua verdade unilateral, como fazem os americanos e os árabes… A intolerância só traz mais guerra.
Ué, e você acredita num mundo sem guerra? Pff!
Acredito num mundo com menos guerras… Num mundo com mais tolerância.
Querida, acorda. A tolerância só funciona se TODO MUNDO for tolerante. Se uns forem e outros não, os que não forem vão destruir os que forem. Como aconteceu…
–  … com Hitler, já sei, já sei! Mas não acho que a Inglaterra estava tolerando, ela estava deixando, estava concordando! Tolerar é diferente de  concordar.
Ah, assim, substituindo as palavras, fica fácil discutir.
Bom, no final das contas, deu certo, não deu?
O quê?
Deu tempo, digo. Hitler não conseguiu dominar a Europa e foi detido antes de acabar com mais milhares de vidas. Deu tempo de os tolerantes acordarem.
Ahá! Você admite que os tolerantes são uns idiotas sonolentos.
Ai, por que você precisa falar assim? Só tô dizendo que acho que o caminho é mesmo pela tolerância, mas tolerar não é fechar os olhos, os tolerantes têm que ficar de olhos abertos.
Eu não acho que o caminho é pela tolerância porra nenhuma. Tem que defender o que você acredita e eliminar quem está no seu caminho.
Meu Deus, você acabou de definir o fanatismo, eliminar quem pensa diferente de você é a essência do fanatismo. Sou pela convivência com a diferença! A diferença machuca, a diferença assusta, mas sempre vai existir. Porque as identidades vão continuar existindo, cada um faz parte de um grupo, de uma família, cada um defende ponto de vista e sempre vai ser assim…
… Com o papa olhando para os gays com cara de “você não devia ser assim”, você diz? Você que é toda amiguinha dos gays e tudo mais, isso é bom, você diz?
– Não sei se é bom, mas é possível, admiro a tolerância do papa em relação aos homossexuais, ele não tem que amar a homossexualidade, tem que tolerar, assim como os gays precisam tolerar o discurso religioso em vez de jogar pedra. Os muçulmanos nunca vão comprar o discurso ocidental como sendo superior ao deles, as mulheres de biquíni vão continuar tendo pena das de burca, mas, para conviver num mesmo mundo, é preciso que a gente se tolere, em vez de tentar convencer o outro. Só assim para ter uma certa paz. A tolerância é sofrida, mas é o caminho!
Amém, irmã!
Ah, vai se ferrar.
Opa, que intolerante, você!
Eu aceito essas discussões com você, apesar de acabarem com meu café, mas nem por isso vou passar a manhã inteira discutindo, agora já deu. Viu, isso é ser tolerante. Agora vou correr no parque, vamos?
Nem a pau! Boa corrida pra você.

 

 

4 comments to “Esse negócio de tolerância”

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  1. Kris Arruda - 5 de agosto de 2013 at 14:56 Reply

    Putz. Fiquei meio triste agora.

  2. Gabrielle Muniz - 5 de agosto de 2013 at 17:53 Reply

    Adorável, esse discurso não poderia ser mais verdadeiro! E ainda cavucou na história, o que me deixa mais feliz!
    Liliane, como que eu te digo que esse texto atingiu o ponto que ele queria desde o começo? Bem, quando discuto com meu namorado sobre esses assuntos, digamos, tensos, tenho que lidar com a parte dele que é muito teimosa. Mas talvez eu seja pra ele também, certo? É, taí algo bem verdadeiro. Temos mesmo é que ter… tolerância. É a base mais forte de um mundo digno.

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