Só mais um fim

lovers“Eu não conseguia ver que aquilo era amor delicado. E me parecia o tédio”, ela leu, e sentiu uma sucessão de pequenos despertares dentro de si. O livro era A Paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, e ela era apenas Luciana, Luciana lendo depois do almoço, os olhos já tristes e cansados caindo de sono. “Mas tudo isso era fino demais para a minha pata humana… Nossas mãos que são grossas e cheias de palavras”, continuou. E então fechou o livro sobre o colo e olhou as próprias mãos.

Aquele era o primeiro sábado sem Carlos nos últimos três anos. Por três anos, ela teve um namorado, palavra que detestava, palavra tão alegre quanto banal: ora, Carlos não era tudo o que Carlos era, mas apenas um namorado. Questões importantes, questões de verdade, afetam as esposas e os maridos, as esposas e os maridos com suas casas, suas contas para pagar e seus filhos, e não ela, apenas Luciana, apenas uma estudante que dividia o apartamento com duas outras estudantes e que apenas tinha um namorado, um namorado que, agora, não existia mais.

Queria que o namoro tivesse sido somente alegre e banal, mas tudo havia sido significativo, sólido e belo. Queria que o término tivesse tido um bom motivo, um desses motivos que abalam as esposas, seus maridos, suas contas e casas. Queria, como queria, que tivesse uma certeza do fim que fosse proporcional à certeza do início: estou namorando, ela havia dito a uma amiga três anos antes, num tom tão alegre, tão banal, um tom adequado aos namoros e às amigas.

Mas a certeza do fim não veio, e ela só foi visitada por um incômodo contínuo, um desconforto, uma inquietação a que não conseguia atribuir um nome. As coisas que têm nome são simples, aparecem nos cargos dos cartões de visitas, na lista de ingredientes de uma torta e em palavras como namoro – namoro dos outros, namoro na boca de esposas atarefadas e maridos impacientes, para quem namorados são muito leves, muito dançantes, aerados. O namoro dela, o namoro dela e de Carlos, havia significado demais, era sólido demais, belo demais. E, no entanto, um dia, começou a se esfarelar. Fingiu-se de coisa rala e frágil, agiu como se já houvesse sido mesmo alegre e banal. Era isso, de fato, que tinha sido?

Para Carlos, tudo ia bem. Mas, para ela, doía, doía cada vez mais e sem que ela soubesse dizer onde doía, como era essa dor e o que tomar para que passasse: como queria saber o que tomar para que passasse! As palavras nunca vieram, o encanto e o bem estar desinteressado nunca voltaram e restaram para Luciana aqueles sentimentos sem nome, os pensamentos ininterruptos e os suspiros noturnos sobre o travesseiro.

Recusava-se a terminar um namoro porque ele havia ficado sem graça – a melhor explicação que havia dado a si mesma, desesperada por explicações, era simplista assim? Queria que o fim viesse com uma frase perfeitamente coerente escrita numa placa enorme, numa placa maior do que todas as placas juntas, disposta numa rua muito bem localizada e muito bem iluminada. Mas o fim nunca veio de lugar algum, muito menos escrito – apenas pulou, num salto baixo e contido, da boca dela em uma tarde de sábado como as outras: e então era isso, aquele seria seu último sábado com Carlos, e aquele seria mais um fim de namoro no amontoado sem importância dos namoros desfeitos.

Luciana pousou as mãos sobre o livro e suspirou, agora de dia, mais um dos suspiros noturnos que a acompanharam por meses. Era cega de delicadeza? Não conseguia ver que sua relação – palavra estéril, palavra que detestava por não conter nada do que ela e Carlos tinham vivido: relação? –, não conseguia ver que sua relação era coisa fina demais, bonita demais: seus olhos ridiculamente humanos eram muito grosseiros para aquela preciosidade miúda. Com seu vocabulário limitado, deu o nome vulgar de tédio ao que era apenas belo, ao que era leve demais para que conseguisse carregar.

Farta de ser apenas gente, e de, pior ainda, ser jovem, e farta de pensar, Luciana acabou dormindo. Sonhou que era um cacto, um cacto desses que se adaptam a qualquer lugar e sobrevivem com o mínimo de qualquer coisa. Acordou com sede, tomou água e pensou em telefonar para Carlos, mas desistiu. Se havia beleza demais naquela relação, ela não conseguiu ver. Se não havia, então vai ver era só isso, só mais uma história que não mereceria o respeito dos seus anos vindouros e nem das esposas e dos maridos, só mais um fim de um namoro banal e alegre.

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