O que todos querem

happy-old-man-nepalO velhinho era o da música de Raul. O velhinho tinha nascido dez mil anos atrás. Diferentemente da música, porém, ele tinha uma certidão de nascimento, num pergaminho de bezerro dado como legítimo por arqueólogos ligados a uma importante universidade: aquela tinta tinha pelo menos dez mil anos de idade, aquele pergaminho tinha pelo menos dez mil anos de idade, sim, aquele velhinho havia nascido dez mil anos atrás.

Por isso, era natural que o velhinho virasse notícia, assim como era natural que, quando ele anunciou que tinha um grande aviso a fazer à humanidade, uma multidão se juntasse ao redor dele. Foi o que aconteceu.

O evento foi largamente coberto pela imprensa internacional e teve mais transmissões do que Copa do Mundo. Ninguém sabia ao certo o que o velhinho tinha para avisar, e todos esperavam com grande ansiedade. Alguns, antes mesmo de o velhinho abrir a boca, já decidiram sua futura posição: seriam céticos. Afinal, só porque alguém tinha nascido dez mil anos antes, não significava que esse alguém soubesse tudo – o velhinho poderia ter passado esse tempo mais interessado em comer doce do que em ler ou refletir. Outros já tinham decidido: iam passar o resto da vida vivendo de acordo com as orientações do velhinho – embora nem soubessem se era isso que o velhinho daria, orientações.

Finalmente, o velhinho, de frente ao microfone no palco montado em um estádio, avisou o que ia avisar:

– Eu vim falar para vocês o que eu percebi, nestes dez mil anos, que todo mundo quer. Tem uma coisa que toda pessoa, toda pessoa mesmo, quer, e, se isso não é a solução para todos os males atuais, até porque nada é a solução para todos os males atuais, pelo menos é uma bela ajuda, e é disso que eu vim falar.

Silêncio. Olhares interessados e ansiosos. Políticos e intelectuais desconfiados. Fanáticos religiosos ameaçados. O velhinho pigarreou e continuou:

– Toda pessoa quer ser amada.

Decepção geral. Então era isso o que ele tinha para falar? Que falta de criatividade, alguém que tinha nascido oito milênios antes de Cristo plagiá-lo. O velhinho queria se dar bem fundando uma igreja, estava na cara, pensaram alguns. Um grupo de psicanalistas virou os olhos – toda pessoa quer ser amada, qual era a grande novidade? A multidão de dispersou, mas as câmeras continuavam ligadas, assim como o microfone, e então o velhinho continuou:

– Escutem. Absorvam isso de verdade. O que quero dizer é que, no fundo, todos querem ser amados. A criança que pede para a mãe olhar sua cambalhota quer ser amada. A menina que posta fotos no Instagram quer ser amada. A criança que bate na outra está ansiosa para ser amada. Práticas sexuais estranhas: a pessoa que precisa fazer fezes na outra para sentir prazer, não façam cara de nojo, prestem atenção, ela quer desesperadamente ser amada, ela quer ser aceita em todas as suas partes, quer ser abraçada em toda a sua sujeira. O michê que sai com cinco sujeitos por noite quer ser amado. O estuprador precisa desesperadamente ser aceito, ser respeitado, mostrar sua força, porque quer ser amado. O menino quer fazer o gol para ser admirado. O sujeito que comprou uma Ferrari e paga uma garrafa de Champanhe importado para a mesa também. A mulher de vestido curto. A mulher que quer chamar atenção pela inteligência. O erudito que fala coisas eruditas. O cara que faz piada o tempo todo. O aluno que quer ser o melhor da classe. O aluno que faz pouco do menino de óculos. O menino de óculos. O hipocondríaco que vai para o hospital para chamar a atenção, para ser amado. O filósofo que chama atenção pelas suas ideias interessantes. O outro filósofo que chama a atenção por sua agressividade. Ser amado. Ter valor aos olhos do outro: todos nós queremos ser valorizados. Eu. Você. Todos nós desejamos profundamente ser acolhidos pelo outro, ser admirados, respeitados, ouvidos. Percebidos. Precisamos disso. Todos nós somos assim, desde crianças. Uns mais, uns menos: todos nós passamos a vida carregando conosco essa necessidade inata de ser amado. De querer que as mães olhem nossas cambalhotas. Todos nós queremos importar para os outros. Precisamos sentir que importamos. Todos nós. Por isso, se querem dar alguma coisa material para outra pessoa, deem, mas deem antes isto: amor. Deem ouvidos. Deem interesse. Voz. Olhar. Cuidem assim das suas crianças: elas precisam se sentir amadas, assim como você precisa. A criança que cresce sem amor vai precisar de mais amor do que todos nós já precisamos, e o amor de que todos nós precisamos já é muito. Se vocês querem pessoas mais ou menos equilibradas e uma sociedade um pouco menos caótica, então verifiquem a distribuição de algo tão fundamental como saneamento básico: amor.

Dito isso, o velhinho se retirou. Cansadas e ainda desapontadas, as pessoas foram indo embora. Religiosos saíram rindo, intelectuais saíram rindo. Quanta bobagem. Muitos pensaram: que obviedade. Uma sensação de perda de tempo tomou conta da maioria.

Aos poucos, o estádio foi ficando vazio. Antes de fechar o portão, o guarda foi conferir se não havia ninguém no gramado. De longe, ele avistou:

No centro do estádio, uma criança fazendo uma apresentação de cambalhotas para a mãe.

2 comments to “O que todos querem”

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  1. Liz - 16 de julho de 2013 at 8:32 Reply

    Sooo true! Excelente texto, Liliane! Parabéns! 🙂

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