O lembrete da morte

ME_94-640x199“Um dia vamos morrer”, sempre tem alguém disposto a nos lembrar. A deixa varia, o tom também – “Um dia vamos morrer” funciona tanto num tom mais dramático como num mais formal, meramente informativo, como o do atendente que apenas narra o próximo passo – aqui está seu tíquete, vou transferir sua ligação, um dia vamos morrer.

“Um dia vamos morrer”, alguém sempre nos lembra, um amigo num mau dia, um filme não muito animado, um quase acidente ou simplesmente um banho mais longo. Um dia, não estaremos mais aqui, morreremos todos, e o mundo, bem, vai ter que se virar sem os nossos pontos de vista, nossas opiniões sobre tudo e nossos comentários espirituosos. “Um dia vamos morrer”: opa, é mesmo. E de repente, mais uma vez, nós, que estávamos vivendo impunemente, nos lembramos  daquilo que esquecemos com muito mais frequência do que o lugar onde estacionamos o carro.

Porque evitamos pensar nisso, claro. Um pacto coletivo de esquecimento nos une, até que o maldito amigo, o filme, o quase acidente, o banho, até que alguém ou alguma coisa vem estragar aquele viral idiota que estávamos vendo tão felizes, tão sem incomodar ninguém. “Um dia vamos morrer”: sim, eu sei, eu só queria terminar meu cappuccino em paz.

“Um dia vamos morrer”: o lembrete macabro pode servir para tirar o sentido de tudo o que estávamos fazendo. Pensamos numa vaca na fila de um abatedouro: para quê? Nos solidarizamos com o prisioneiro no corredor da morte de uma penitenciária norte-americana: estamos todos no mesmo barco, meu caro. Perdemos a vontade de sair. De estudar. Faz sentido: um dia, vamos morrer.

“Um dia vamos morrer”: o lembrete festivo pode nos lembrar de que devemos aproveitar o momento. Nesse caso, “um dia vamos morrer” merece uma exclamação: “Um dia vamos morrer! Mais uma rodada de tequila!” Temos que viver cada dia como se fosse o último porque, bem, pode ser, mesmo. Precisamos aproveitar a vida. Faz sentido: um dia, vamos morrer.

E o pior é que a gente nem sabe direito o que é isso, morrer. A gente só sabe que vai. Mas o que é? Está mais para Paulo Coelho ou Richard Dawkins? Para onde vamos, o que acontece, ganhamos asas, viramos pó? Muito se especula, nada se sabe, a não ser que não importa se temos dentista marcado, casa de praia alugada ou reunião na terça: um dia, vamos morrer. Acabou para sempre. Ou recomeçou: vai saber.

“Um dia vamos morrer”: tem sempre alguém ou alguma situação para nos lembrar disso. Ainda bem que tem sempre alguém ou uma situação para nos fazer esquecer de novo. E lá estamos nós vivendo normalmente, felizes com a gracinha do nosso filho ou de saco cheio de esperar na fila do banco. Porque, você já deve ter reparado, a vida é meio estranha. “Um dia vamos morrer”: como conviver com essa certeza? Como absorver esse fato? Digo, absorver de verdade?

Podemos furar o pacto do esquecimento quantas vezes forem que continuaremos sem entender direito essa história de morte. Mas o que é que tem, não entendemos direito a vida também e cá estamos.

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