Competições patéticas

images– Dez horas? Isso para mim é descanso. Eu trabalho treze, catorze, quinze horas por dia – eu o ouvi dizendo para um amigo nosso.

Estávamos num jantar, eu, meu marido e dois outros casais. E esse cara que trabalhava até quinze horas por dia passava, pelo jeito, as nove horas restantes se vangloriando para quem trabalhava menos.

– E quando eu tive apendicite? Lembra, amor? – ele continou para o amor dele, no caso, uma amiga minha. – Eu tinha uma reunião importante e não queria deixar de ir. Fui aguentando a dor, aguentando. Quando cheguei no hospital, estava com o apêndice quase necrosado! Ne-cro-sa-do! – ele frisou, com brilho nos olhos.

Voltei do jantar achando o workaholic sem apêndice patético. Então lembrei de uma conhecida cujos olhos brilharam com intensidade semelhante quando ela relatava a dor das contrações do trabalho de parto.

– Não, não, você não tá entendendo, a dor que eu senti foi horrorosa! Eu virava de um lado, virava de outro, caía sentada no chão, me arrependia de ter engravidado! Aaaaaahhh! – Só faltou completar: “que delícia”.

Eu sempre reparo nessas discussões pela maior desgraça – a maior dor, a vida mais difícil, o sacrifício mais sacrificado. Todo mundo costuma ser meio competitivo, alguns mais, outros menos, mas alguns conseguem ir além e querem ganhar até mesmo quando o prêmio não tem nada de prazeroso. Já vi uma mulher, juro, comentando com a amiga que o seu divórcio tinha sido mais triste:

– Sim, seu ex te trocou por uma menina mais nova, eu sei. Mas e o meu, que me trocou não só por uma menina mais nova, mas que era minha amiga, hein? E que saiu de casa bem no dia do meu aniversário? HEIN?

Às vezes me pergunto o que querem essas pessoas que lutam pela maior desgraça: querem atenção? Querem se sentir especiais? Ou são masoquistas? Ou só conseguem valorizar o que têm porque sabem o quanto lutaram para chegar até lá? Será que acham que privilégios são para os fracos, que só o sofrimento eleva e dá sentido à nossa existência, e que tem que ter vindo lááá de baixo e sofrido o pããão que o diabo amassou para poder desfrutar depois, senão não vale?

Sei lá por que essas pessoas fazem isso. Aliás, sei lá por que estou chamando essas pessoas de “essas pessoas”. Vai ver todo mundo fica competindo desgraça em instantes de carência ou naqueles dias banais em que, na falta de um grande acontecimento, qualquer medalha serve: pode ser até a de unha mais encravada. Aliás, para que trabalhar quinze horas por dia ou ter um divórcio terrível para ganhar o troféu-desgraça? Pois eu mesma, anteontem, estava conversando com a minha prima, que se dizia extremamente míope com seus três graus, e então vim com esta:

– Você tem três graus e acha muito? Rá! Eu tenho seis e meio!

Que sina patética, essa nossa: uma simples miopia pode ser motivo para um ser humano se vangloriar. E até dar ideia para uma crônica.

9 comments to “Competições patéticas”

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  1. Luciana Fuoco - 24 de julho de 2013 at 15:42 Reply

    Lili, e a minha sogra que tem 14 graus de miopia? Isso mesmo 14!!! Hahaha…adorei a crônica. Saudade de ti. Beijo grande 😛

  2. Anya - 24 de julho de 2013 at 18:32 Reply

    “Essas pessoas” querem ser amadas. Todos nós queremos
    🙂

  3. Nina - 24 de julho de 2013 at 19:24 Reply

    Eu tenho pena que quem vive para trabalhar e não trabalha para viver.
    Se vangloriam de quê? De viver menos? De viver – literalmente – mal. Sob excessos e carregando um mundo nas costas – todo um universo capitalista que, não vai demorar, poderá descartá-lo?
    Como são tolinhas essas pessoas, Lili.
    Abraços.

  4. Emanuel Campos - 24 de julho de 2013 at 20:40 Reply

    Você acha isso de competições ruins, você não sabe o que aconteceu comigo… hehehehe. Excelente texto.

  5. Ingrid - 26 de julho de 2013 at 16:44 Reply

    No fim, todos temos uma ferida a ser tocada.

  6. Renan Mendes - 27 de julho de 2013 at 21:20 Reply

    Ah, essas pessoas que existem na vida de todo mundo. Eu gosto das tuas crônicas porque eu sempre consigo relacionar com alguém/algo da minha vida. Não deveria ficar muito feliz nesse caso, mas… 😀

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