Ser mãe

#Faz dois anos e três meses que sou mãe e, neste tempo, muita gente já me perguntou algo na linha “E aí? Como é ser mãe?”. São amigas que estão pensando em ter filho, gente que me conhecia antes e não me imaginava sendo mãe, amigos que têm filho e querem falar sobre isso e até mesmo leitores deste blog que não me conhecem pessoalmente, mas me acompanham pelos meus textos (alguns há anos, o que me emociona).

É claro que a experiência de cada mãe é individual e o que a pessoa está me perguntando, na verdade, é como é ser mãe para mim. O que eu acho de ser mãe. Como é, para mim, isso de ter um filho. Apesar de saber disso, e consequentemente dessa liberdade de dar a resposta que eu quiser, eu nunca ficava muito satisfeita com as minhas respostas. Via que elas variavam de acordo com o dia: se fiquei com a minha Valentina o dia todo e mal tive tempo para tomar banho, é uma resposta, se ela está na escola e não a vejo há horas, é outra, se ela está com febre e estamos na sala de espera do pronto-socorro, outra. Eu sentia que existia algo que permanecia e que eu não conseguia agarrar.

Há algo que permanece na experiência da maternidade, algo que vai além dos dias e das circunstâncias. Algo que vai além do discurso, como tudo que arrebata. Um algo conhecido por mim e por todas as mães, ou, pelo menos, por todas que se deixaram arrebatar. Um algo inacessível que é muito sentido por mim – eu, que me sinto sempre tão dividida entre o lado prático e o não palpável da vida, que tenho um lado muito pragmático e também um lado do susto. É esse meu lado do susto que está nesse algo, eu sinto.

Num dos primeiros dias com a Valentina em casa, estava tudo normal, a gigantesca experiência do parto e do pós-parto devidamente acomodada nas tarefas do dia, quando a olhei deitada no moisés e senti meu corpo se desintegrando num contexto enorme e estranho, que eu não conseguia apreender. Minha mãe estava do meu lado, vendo TV comigo, eu estava com uma xícara de café, a Valentina dormindo no moisés – estava tudo no lugar, mas, ao mesmo tempo, tudo caótico, como se naquele instante eu estivesse me dando conta, e sem conseguir dar conta, de tudo que estava acontecendo. Cafés, sofás, televisões, bebê no berço, os biscoitos deixados pelas visitas, as flores: tudo organizado, burocratizado, mas o que eu sentia era estrondoso, era uma falta de fôlego tão arrebatadora, uma dificuldade tão grande de organizar a grandiosidade daquela experiência dentro de mim que comecei a chorar, e não havia abraço da minha mãe ou ligação do meu marido que me acalmasse.

Numa tarde, quando a Valentina tinha uns cinco meses, amassei uma banana e dei para ela. Meu marido chegou pouco depois de ela ter comido, então deixei os dois na sala e fui tomar banho, e na sequência saí para dar uma volta. Na rua, percebi que eu estava zonza de fome, e então pensei: “Por que estou com tanta fome? Acabei de comer uma banana”. Mas não era eu que tinha comido. Era a Valentina.

Em mais de uma ocasião, acordei no meio da noite procurando minha chupeta na cama. Fiquei apalpando o colchão, apalpando, até acordar o suficiente para entender: ela usava chupeta, não eu. Mais de uma vez, procurei no meu guarda-roupa um certo vestidinho vermelho, uma determinada camisetinha que, depois eu via, não era grande, não era minha – era pequenina, era dela.

Toda vez que algo assim acontecia, eu me sentia louca. Até que percebi: não era loucura. Era apenas o algo que faltava, e falta, nas minhas respostas sobre a maternidade. O algo que eu procurava – já não procuro mais – inutilmente incluir em cada resposta sobre como é ser mãe. Porque há algo que escapa, e sempre vai escapar do discurso. O susto da maternidade. A sensação de se sentir pequeno nadando no mar, caminhando por uma trilha, de se encontrar nos olhos de alguém ou simplesmente se sentir vivo, se sentir atropelado pela existência por alguns segundos.

Imagine-se caminhando com um amigo por uma floresta. Você está encantado com o que há à sua volta – árvores, pássaros cantando, cheiro de terra. Então, você comenta com seu amigo: “Que lindo”. E, ao mesmo tempo, lá no fundo, você se decepciona: pois você sabe que o que está dentro de você, o que você sente andando naquela floresta, é muito maior do que o que a sua fala – “que lindo” – pode abarcar. Nosso interior, às vezes, é vasto demais para ser contido por sentenças, argumentos, adjetivos e explicações.

Como diria Rilke, a maior parte dos sentimentos habita um terreno onde palavra alguma jamais pisou.

liliane-prata_recorte

10 comments to “Ser mãe”

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  1. Adriane - 28 de junho de 2013 at 17:11 Reply

    Faz bastante tempo que acompanho o seu blog, me lembro de quando você dizia que não tinha vontade de ser mãe.Parei de acompanhar o blog por algum tempo e quando voltei, qual não foi a minha surpresa ao ver que você tinha uma filha de 1 ano. Eu nunca imaginei você sendo mãe e acho que é por isso que as pessoas tanto te perguntam como é ser mãe. A primeira coisa que pensei ao saber que você era mãe foi: Como será que ela se sente? O que a fez mudar de ideia?
    É engraçado isso, até porque eu com 28 anos, não tenho vontade de ter filhos, mesmo gostando muito de crianças não me vejo sendo mãe. Mas sinto curiosidade em saber como uma mulher se sente sendo mãe.

  2. Isa Maiolino - 28 de junho de 2013 at 17:12 Reply

    Nossa Lili, que texto lindo, delicado e sincero! Uma declaração de amor à sua Valentina e ao mesmo tempo, uma coragem de se colocar na posição de alguém frágil e muito forte ao mesmo tempo – porque no fundo, todo mundo sente tudo meio misturado. Há quem saia declarando por aí somente o que “pega bem”, ou por medo de julgamento, ou por ser aquele tipo superficial que não mergulha fundo nos grandes acontecimentos da vida. Muito sábia a frase que alguns sentimentos habitam um terreno onde palavra alguma jamais pisou. Sempre penso nisso quando estou viajando, e tiro foto de um lugar incrível. A foto, em muitas vezes, deixa tudo tão sem cor, sem vida!

  3. Jéssica Macedo - 28 de junho de 2013 at 17:15 Reply

    Liliane, uma amiga me recomendou seu texto porque eu já havia tentado por em palavras como é ser mãe. Achei lindo e me identifiquei com tua fala: “nosso interior, às vezes, é vasto demais para ser contido por sentenças…”

  4. Bianca - 28 de junho de 2013 at 20:45 Reply

    Oi Liliane, tudo bem? Acompanho seu trabalho há muito tempo. Lia seus textos na Capricho e seu blog há uns 8 anos, você trocou de blog e eu fiquei algum tempo sem ler, e agora te encontrei de novo. Muito bonito esse texto sobre a maternidade. Parabéns!
    Beijos

  5. Didi - 28 de junho de 2013 at 21:10 Reply

    Que lindo! _ Digo eu, ao ler um texto que fala sobre ser mãe, me sinto andando em uma floresta imensamente incrível.

  6. Luiza Voll - 11 de julho de 2013 at 23:04 Reply

    Me emocionei tanto com o seu texto Lili! Obrigada por compartilhar!! Beijo e saudades!

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