Sobre as manifestações

usp_paulistaToda generalização requer uma abstração. Se você fala “uma árvore”, “o ser humano” ou “os sorveteiros”, não está falando dessa árvore, desse ser humano ou desse sorveteiro em particular: está colocando todos no mesmo saco. Alguns vão ficar de fora, claro, mas, se você fez a generalização, geralmente é porque no saco cabe um bocado de exemplos particulares da generalização que você fez.

Até aí, nada de novo.

Bom. A gente ouve muita gente, brasileira ou não, falar do brasileiro (assim como do norte-americano, do francês). E no saco de definições para o brasileiro, encontramos, dentre outras coisas, que não são politizados e aceitam tudo o que os políticos fazem. Algo frequente que tenho ouvido nos últimos dias, com as manifestações que estão tomando conta do país, é que o brasileiro “acordou”. Ou seja, a gente estava dormindo.

Sempre desconfiei destas definições do parágrafo anterior. Penso que o brasileiro, esse brasileiro geral do saco, reclama pra caramba do país. A coisa que mais vejo desde criança é taxista, professor, enfermeiro, advogado, pintor de parede, escritor, ator, vizinho, tia, tio – todo mundo reclamando dos políticos. Tanto que, para um brasileiro desse do saco, falar que “político não presta” é quase um pleonasmo – faz parte do político brasileiro não prestar.

Por que nesse saco de definições do brasileiro entra o jeitinho, entra o futebol e o carnaval, mas não entra essa insatisfação perene com a política? Para mim, odiar a política nacional é algo típico do brasileiro. Assim como o derrotismo, a falta de convicção de que, por exemplo, a corrupção vai acabar, a educação vai melhorar. Uma vez, li as impressões que um francês que morou aqui por um tempo teve do Brasil. Entre as impressões, estava: o brasileiro acha que os problemas do Brasil são insolúveis. E a gente acha, mesmo. Não devia ter “otimismo” no saco dos brasileiros. O que mais vejo é: mal uma CPI começa, a gente fala que vai dar em pizza, mal um presidente é eleito, a gente fala que tudo vai continuar a mesma merda etc.

Só reclamar não muda nada. Só ter uma postura pessimista não muda nada. Mas, na boa, penso que uma população tão reclamona e até meio sombria estava LONGE de estar tirando um cochilo. O brasileiro não estava dormindo, estava engolindo: qualquer brasileiro do saco sabe disso. Não é que não se interessava por política: é que se sentia, e se sente, impotente. Brasileiro sabe o que é isso, está lá no saco: sensação forte de impotência, gosto enorme de injustiça.

E aí as manifestações começaram. Motivo inicial: passe livre. Só que a coisa foi tomando a proporção que tomou, ou melhor, que tem tomado, e aí todo mundo ficou assustado, procurando entender: espera, começamos por causa do passe livre. E agora? Por que estão tendo essas manifestações? O que os manifestantes querem? Basta ler os cartazes de uma das manifestações para ver que as causas são as mais variadas: transporte, sim, mas também educação, saúde, segurança. O que une tudo isso?

Para mim, o inimigo não é um partido específico, é a não representatividade. O grito entalado na garganta passa por isso, as reclamações de tantos anos passam por isso: por um governo que, do PT ou do PSDB, não nos representa.

18jun2013---imagem-publicada-no-perfil-protestorj-mostra-cartaz-usado-durante-a-manifestacao-no-rio-de-janeiro-1371572924096_300x200Os cidadãos não têm que saber a solução. Os políticos que me desculpem pela grosseria, mas eles são pagos para isso. Mas os cidadãos, qualquer um deles, sabem bem os problemas. Nem precisa ser “politizado” para saber quais são os problemas. Basta ter reclamado e ouvido reclamação de brasileiro a vida toda. Basta ser esse brasileiro típico que reclama do Brasil, que reclama sempre, reclama muito. Até uma criança sabe quais são os problemas básicos do Brasil. Em uma linha, o The Economist  resumiu bem: pagamos mais imposto do que qualquer país desenvolvido (36% do PIB) e temos de volta um serviço público lamentável.

E isso é não representar. Numa democracia representativa, é assim que funciona: o povo é representado pelos políticos. Que, em sua grande maioria, no Brasil, só se interessam por cargos, são corruptos e perpetuam problemas que até uma criança de 10 anos sabe que temos.

Tem quem não acredite em representatividade. Que cada um só pode representar seus próprios interesses, sendo político ou não. Concordo até certo ponto: representatividade ideal não existe, mas é inegável que a vontade popular pode ser melhor ou pior representada: basta dar uma espiada no que acontece mundo afora, em casos piores e melhores do que o nosso.

O brasileiro típico não tem esperança. Falta esperança nesse saco onde colocamos os brasileiros. Dizem que o brasileiro é otimista, mas acho que só diz isso quem não olhou direito. Dentro do saco, se debatendo, estão os brasileiros que acham que tudo vai continuar uma merda.

Talvez alguma esperança esteja soprando dentro do saco. Talvez o brasileiro típico esteja ganhando alguma esperança. Eu, pessoalmente, não acredito que a raiva seja o que move manifestações, por mais que a raiva exista. Só se manifesta, só vai para a rua se manifestar de verdade quem espera que, com isso, com as pessoas indo para a rua, as coisas vão mudar. Vão melhorar.

Talvez essa seja a novidade dentro do saco.

Sei lá por que começou. Por causa da inflação. Por causa da inspiração de outros movimentos jovens pelo mundo – jovens também insatisfeitos com a não representatividade. E sei lá onde vai dar. Mas é inegável que algo novo está acontecendo. Não acordamos, ninguém estava dormindo – mas estamos fazendo uma coisa nova, na esperança de coisas mais novas ainda.

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