A redoma dos livros

129676,ONão faz muito tempo, li um artigo em que um intelectual duvidava que uma pessoa que lê 50 Tons de Cinza ou Comer Rezar Amar também lê Kafka.

Nem lembro se era Kafka, talvez fosse um autor brasileiro, talvez Graciliano Ramos. O ponto é o velho debate entre entretenimento e alta cultura, indústria cultural e arte, o que é comercial e o que é denso e tal.

Antes de ler esse artigo, eu pensava que essa discussão já estivesse meio velha e que qualquer pessoa que vê Simpsons ou Homeland sabe que a cultura pop pode ter muita qualidade, posicionamento crítico etc, assim como muitas produções ditas alternativas são simplesmente ruins, como o francês Medos privados em lugares públicos (bem fraquinho, na minha opinião).

Então, fazer sucesso comercialmente não me parece um bom critério para avaliar a qualidade de algum produto cultural. Além disso, mesmo que uma obra seja, a princípio, de puro entretenimento, ninguém está proibido de se debruçar intelectualmente sobre ela e tirar conclusões inteligentes – a todo momento, vemos algum intelectual analisando Batman.

Mas, quando aparece algum artigo como esse, vejo que, quando o assunto é livro, a discussão alta cultura/entretenimento ainda persiste. Por quê?

Meus palpites:

quem separa os livros em mundos distintos ou faz isso porque lê pouco, e aí, quando lê, quer uma coisa que tenha prestígio e tal,

ou então cresceu influenciado pelo problema da redoma, que é comum nas escolas e todo mundo conhece: livros são importantes, devem ser respeitados, são coisa séria, vamos ler Machado de Assis, Machado de Assis, Machado de Assis. Então, a menos que você esteja em processo de alfabetização, livros não podem ser coloridos, não podem ter leitura fácil, não podem ser despretensiosos ou engraçadinhos. Ler vários tipos de livro é impossível, já que só existem dois tipos de livro, os certos e os errados, e entretenimento de qualidade não existe.

Para mim, a redoma é um desserviço a um país que precisa de leitores. Tratar o livro como um objeto precioso e exigente, cheio de regras e frescuras, não ajuda em nada. Que os brasileiros leiam cada vez mais, e leiam o que estiverem a fim, de preferência muitos tipos de livro. E que riam com as videocassetadas do Faustão e também assistam a filmes “alternativos” incríveis como A Casa de Alice e Linha de Passe. Que se abram para a liberdade de encontrar exemplares bons e ruins em qualquer gênero. Como diria Voltaire, afora o gênero tedioso, todos os gêneros são bons.

Em tempo: já li 50 Tons de Cinza e também alguns livros do Kafka. Detestei O Código Da Vinci, que li quando estava na moda e acho que nem consegui terminar. Adorei o livro Comer Rezar Amar. Li Vidas Secas, um dos meus romances preferidos, pelo menos três vezes. E, claro, Machado de Assis é ótimo.

5 comments to “A redoma dos livros”

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  1. Carolina Estrella - 10 de junho de 2013 at 13:47 Reply

    Oi, Liliane,

    Adorei o post! Realmente os professores estão cada vez mais impossíveis! Isso tudo vem da Academia Brasileira que determina os livros bons e todos querem seguir. Na minha pós de Literatura e Língua Portuguesa ouvi uma professora de 20 poucos anos dizer que Paulo Coelho e Crepúsculo eram muito medíocres e que não ia passar isso para seus alunos se tornarem leitores medíocres!
    Isso me deixou tão chocada que parei a aula para explicar a ela que quem era medíocre era ela que não tinha capacidade para tirar as “conclusões inteligentes” desses livros.
    E sempre quando vou palestrar nas escolas, ouço alunos suspirarem de alegria quando eu falo que leitura n precisa ser obrigatória e que eles podem ler Harry Potter em paz sem se preocupar se estão errados ou corretos.

    Beijos,

    Carol*

  2. Marcio Caparica - 10 de junho de 2013 at 21:12 Reply

    Superboa a sua leitura sobre leitura. Me cansa esse povo que acha que Paulo Coelho é lixo simplesmente porque vende milhões. Essa opinião de que se o povão gosta automaticamente seja o que for não presta me enche de preguiça. E parece que não é só aqui: aparentemente a inteligentsia do Chile abomina Isabel Allende porque ela faz tanto sucesso…

  3. Marina - 11 de junho de 2013 at 0:40 Reply

    Liliane, acompanho seu trabalho desde os tempos da Capricho e há algum tempo não passava aqui no blog, mas quando vi o tweet sobre esse texto, vim correndo.
    Ótima reflexão sobre essa coisa idiota que é separar os livros. Já fui criticada por ler livros “do tipo adolescente”, ” populares”, “best sellers” como se isso anulasse os outros “livros ótimos para se dizer que leu”, que já havia lido.
    Acho essa separação extremamente boba, cada um lê o que quer.

  4. Bruna de Paula - 11 de junho de 2013 at 23:53 Reply

    Sinto que sempre estou em processo de alfabetização, porque por mais que eu leia não consigo deixar de amar os “livros coloridos, os de leitura fácil, despretensiosos e engraçadinhos”. Mas também gosto de Machado, Kafka e afins. Livro bom, para mim, é aquele que eu leio até o fim.

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