O último recurso

imagesVocê brigou com um amigo de longa data, a promoção esperada não veio, o amor eterno acabou: seja qual for a situação, se você quer saber se está realmente mal, é só reparar se, para se sentir um pouco antes do fim da linha, recorreu ao que eu chamo de “o último recurso”.

O último recurso nada mais é do que comparar sua própria adversidade com adversidades piores. É dizer a si mesmo: “Isso não é nada, veja, tem tanta gente passando fome”. Variações: “E daí que o dinheiro/o resultado/o encontro não veio? Você tem saúde.” Ou ainda: “Calma, sei que você levou um fora, mas veja quanta coisa boa você tem, você pode andar/enxergar/ouvir”.

Ninguém duvida de que andar, enxergar e ouvir sejam de muita utilidade. E todo mundo é capaz de pegar o jornal, constatar que tem muita barbaridade por aí e se sentir idiota por se estressar com coisas menores, provavelmente até uma vítima de barbaridade no passado faz isso no café da manhã dela: “Putz, perdi minha família inteira no navio e agora estou aqui dando um murro na parede porque o sinal da conexão caiu”.

Mas ninguém duvida, também, de que os problemas dos outros não mudam em nada o fato de você estar há quarenta minutos preso no trânsito ou de estar com o coração partido ou de já ter passado das dez da noite e seu chefe só ter mandado agora o material que você precisa ler para a reunião na manhã seguinte.

Último recurso: definitivamente, temos de estar na pior para lançarmos mão dele.

Estamos tristes, ou estressados, ou ansiosos. Nada mais está adiantando para recuperarmos nosso bem estar, então o jeito é imaginar problemas piores – “e se eu não enxergasse? Hein?”. Ou então enfiar o olho na fechadura do problema dos outros – estou convencida de que os programas policiais sobrevivem graças ao último recurso.

Parar de olhar para o nosso umbigo e mirar no umbigo alheio: isso não é relativismo, é desespero, mesmo.

O último recurso nada mais é do que um pensamento intrometido situado entre o otimismo e a mesquinhez. Um autoengodo de quinta categoria. Um prêmio de consolação mequetrefe que a gente se dá quando nada mais nos consola. O último recurso é a medalha de participação da nossa infância: sim, você está com sua medalha reluzente no pescoço… Assim como os outros 20 colegas que nadaram.

Se os problemas fossem intercambiáveis… Não são. São pessoais e intransferíveis.

Se eu pudesse enxergar a beleza de uma folha caindo em vez de me estressar com a ligação caindo depois que aguardei 25 minutos no atendimento no telemarketing… Não posso.

Sabemos de tudo isso, mas continuamos adotando o último recurso sempre que precisamos. É coisa antiga. Saída fácil, automática, uma mistura irresistível de esperança com preguiça.

Eu gostaria de aposentar de vez o último recurso, que, no fim das contas, não é recurso para nada: só faz com que eu sinta culpa. Talvez eu devesse investir mais no meu bem-estar do que no último recurso. Talvez eu devesse deixar para valorizar as coisas boas que eu tenho nos momentos em que estou, de fato, bem.

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  1. tatiane - 1 de junho de 2013 at 21:40 Reply

    Amei, me faz pensar na minha vida. não adianta nos estressarmos tanto: a vida e bela e curta.

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