Sempre em busca de pipas

cacadordepipasOutro dia, no metrô, vi um sujeito lendo O caçador de Pipas.

Aquilo que me causou um certo estranhamento. Uma pessoa que lê O caçador de Pipas em 2013 me parece alguém que vai ler O Código Da Vinci na sequência e depois comer pipoca vendo O paciente Inglês.

São livros (e filme) que fizeram muito sucesso na época de lançamento e, depois, quase ninguém falou mais sobre eles. Como tantas outras obras, foram moda por um tempo e, depois, na bifurcação entre 1) virar clássico ou, pelo menos, importante, e 2) ser esquecido, foram para o segundo grupo.

É claro que, na prática, não é bem assim. Sempre vai ter alguém que adia a leitura de Bridget Jones por anos e resolve ler agora. Neste minuto, pode ter alguém vendo O casamento do meu melhor amigo… em DVD. Mesmo assim, aquilo me surpreendeu. O Caçador de Pipas. No metrô. E não 50 Tons de Cinza ou A culpa é das estrelas.

Chegando em casa, peguei meu livro do Khaled Hosseini. Tenho a 141ª edição, de 2005. Lembro direitinho da tarde em que comecei a ler esse livro no café Havana, na rua Bela Cintra – café que, aliás, fechou. O café ainda existia, eu ainda não tinha começado a cursar filosofia, morava num flat, não tinha uma filha, não tinha nem conhecido o pai da minha filha e estava ali, grifando, de cara, a primeira frase de O Caçador de Pipas:

“Eu me tornei o que sou hoje aos doze anos, em um dia nublado e gélido do inverno de 1975”.

Devo ter gostado da frase porque a achei chamativa, instigante, boa para se iniciar um romance – ainda acho, mesmo com esse cheiro de século 19 de começar contando como está o clima lá fora. Devo ter pedido um Havana shake, frapê de doce de leite, antes de continuar lendo, hipnotizada.

Para quem não leu O Caçador de Pipas, o livro fala de Amir, o narrador-protagonista, e Hassan, dois afegãos amigos desde pequenos. Quando criança, Amir presenciou Hassan sofrendo um ato de violência e não fez nada para ajudá-lo. O arrependimento vai perseguir Amir por toda a sua vida, mesmo depois de perder o contato com Hassan, se mudar de país, casar, ter filho. Um dia, ele tenta reparar o passado e melhorar a imagem que tem de si mesmo.

Então, como tantos livros comerciais, de entretenimento, e também como tantos livros eruditos, e como tantas histórias atuais e também antigas, O Caçador de Pipas fala de temas universais, relacionados à condição humana: medo, remorso, amargura. Arrependimento é um bom tema desde que a literatura é literatura, e personagens mitológicos choraram, culpados, antes de Cristo nascer e o cristianismo levar a fama da invenção da culpa.

São temas que sempre interessaram e sempre vão interessar as pessoas, simplesmente porque todo mundo já passou por isso e nós, pessoas, gostamos de ver pessoas que já passaram por emoções que conhecemos bem, mesmo que em graus diferentes, mesmo que em situações, épocas, culturas e contextos diferentes. Game of Thrones e Ilusões Perdidas falam de ambição, vaidade e poder; Fedra, na mitologia grega, viveu a dor de uma paixão proibida, como os personagens de Crepúsculo e de tantas novelas das 9. Relação de amor conturbada? Milhões de obras tem esse como o tema central, de Travessuras da Menina Má, de Mario Vargas Llosa, a qualquer texto arcadista de Tomás Antônio Gonzaga e sua Marília de Dirceu, passando pelo meu, pedindo licença para a autocitação, À Revelia.

O que muda, é claro, é a estética, é a maneira como a história é contada, o estilo, o gênero, o tom, o ritmo, a personalidade, as situações e a vida de cada personagem, a cor dos parágrafos.

Algumas histórias tocam a alma das pessoas. Algumas histórias conseguem ser boas o suficiente para comover milhões de pessoas que podem ser bem diferentes umas das outras: uma é bem prática, e outra costuma ser, ou está agora, sonhadora; uma come mamão com aveia quando acorda e a outra pula o café da manhã. E todas elas, todas elas, choraram lendo O Caçador de Pipas.

A moda pode ter passado, mas O Caçador de Pipas conseguiu comover pessoas do mundo todo, e isso, para mim, é um grande mérito. Não estou falando de vender: estou falando de comover. De tocar.

Pensando bem, ora, é claro que o sujeito no metrô estava lendo O Caçador de Pipas em 2013. Por que não leria?

12 comments to “Sempre em busca de pipas”

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  1. Alana - 25 de abril de 2013 at 17:28 Reply

    Falando nisso, já leste A Culpa é das Estrelas? Se já, o que achou? Virou uma febre e fica difícil avaliar com base na mesma opinião meio rasa da multidão.

    • Liliane Prata - 25 de abril de 2013 at 19:30 Reply

      Não li, duas pessoas já me falaram que é bem legal. Um livro que me agradou demais foi “Um dia”, que virou febre qdo lançado, e me disseram que tem uma pegada parecida.

  2. Amanda de Almeida - 25 de abril de 2013 at 18:15 Reply

    Oi, Lili! É sempre um prazer ler seus textos, refletir junto com você…
    Fiquei pensando, aqui, nos meus tempos de escola, quando a gente era obrigado a ler livros “chatos”. Acho que a obrigatoriedade de se ler alguma coisa tira muito do prazer que ela pode nos dar. Por outro lado, entendo a justificativa de muitos que, se não for obrigatório, ninguém lê. Enfim, é um assunto que rende. Mas, fato é que, já adulta, eu reli alguns livros que não gostei na época de escola/vestibular e me apaixonei.
    Isso porque acredito que a literatura é como a vida: a nossa percepção muda de acordo com a nossa vivência, as experiências, o repertório que adquirimos. Então, apesar de os temas serem universais, a leitura que fazemos deles muda de acordo com a fase da nossa vida.
    É por isso que eu gosto tanto de reler alguns livros. Porque, independentemente do quanto a gente conhece aquela história, com ela a gente sempre pode conhecer um pouco mais de nós mesmos.
    E você mostra isso super bem no seu texto. Em 2005 você era uma Lili. Em 2013, é outra. Quem sabe não foi o caso do sujeito, tentando entrar o contato com quem ele era em 2005? Daria um belo conto.
    Beijo grande.

    • Liliane Prata - 25 de abril de 2013 at 19:28 Reply

      Vc me deu uma ótima ideia de post: reler os livros obrigatórios da escola. Sempre fico feliz com suas visitas por aqui 🙂 Beijos

  3. Nina - 26 de abril de 2013 at 6:37 Reply

    Sempre tive um pouco de birra com best-sellers e hoje, trabalhando em livraria, esse desconforto passou um pouco. Porque vivemos em um país onde as pessoas não possuem o hábito da leitura – embora agora, de uns tempos para cá, o brasileiro tenha lido mais. Me pergunto se a quantidade significa qualidade. Óbvio que não. Mas, para um adulto, sugiro mesmo os mais vendidos até que se pegue o gancho de uma literatura mais profunda, que lhe acrescente algo, para além de uma boa distração.
    Eu nunca li “O Caçador de Pipas”, mas li, por exemplo, “A Menina que Roubava Livros” e tenho essa sensação de que, enquanto best-seller, a obra me acrescentou algo. E olha que li esse livro muito depois do estouro que ele se tornou.
    Abraços.

  4. JOSÉ GERALDO DELPRETE - 27 de abril de 2013 at 10:01 Reply

    Ainda mais que os conflitos vividos naquela época, continuam infelizmente bem atuais, e O caçador de pipas reflete bem isto.

  5. Ana Caroline - 27 de abril de 2013 at 12:57 Reply

    Oi Lili!!

    Mais uma vez amei seu post, e amo O Caçador de Pipas, que para mim, é considerado um clássico. Acho que é uma leitura obrigatória para todo mundo, os ensinamentos nele contido devem ser levados para vida toda. Sempre que leio esse livro ou vejo o filme, aprendo algo novo. Não se isso acontece com os outros leitores.

    Beijos, querida!

  6. ADEMIRO - 28 de abril de 2013 at 13:42 Reply

    Eu li em 2012! Me emocionei. Chorei. Gostei tanto do livro que, ao saber que também havia o filme. Corri para ver. Me emocionei de novo, embora para o filme tivessem cortado algumas partes da história. Até hoje me deparo pensando: quantos Amir e Hassan há naquele País ou em tantos lugares nesse mundão de Deus?

  7. Nataly - 28 de abril de 2013 at 22:39 Reply

    Li esse livro faz uns seis anos, lembro que na época me emocionou muito, achei bem sublime, comprei ele só para que daqui um tempo reler, ver qual o sentimento que vou sentir ao saborear as páginas novamente.

    Um livro que você citou e que é um dos meus prediletos, é “Travessuras da menina má”, antes de conseguir termina-lo, lembro que tentei ler um bocado de vezes, quando cheguei ao fim, só conseguia pensar: PORQUE EU DEMOREI TANTO PRA ENGRENAR A LEITURA MESMO?!

    Adorei o texto, como sempre.

    ps: “A culpa é das estrelas”, apesar de ter virado febre, diferente de 50 tons, é um livro lindo!

  8. Gerson Alan - 5 de maio de 2013 at 13:50 Reply

    seu trabalho é muito bom! Parabéns! Vá Além! desejo-lhe uma excelente semana! Tudo de bom! Abraços! @gersonallan

  9. Leonardo Born - 11 de maio de 2013 at 22:55 Reply

    “Por você eu faria isso mil vezes Amir Jan “. Esta frase dita pelo personagem Hassan foi uma das quais mais me marcou no livro. Não só uma linda história, mas com uma maneira única e meórável de ser contada. Aliás, chorei no metrô lendo este livro. Mas não foi agora em 2013. (rsrs) . Um abraço, Liliane, e parabéns pelo seu novo livro, o comprarei sem dúvidas.

  10. Célio - 14 de outubro de 2015 at 13:17 Reply

    Pôxa… então estou perdido… rsrsrs … tenho um monte de leituras atrasadas para fazer, inclusive a do seu blog, pois estou chegando agora e gostaria de ver tudo que rolou.

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