O que resta

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Quando eu era criança, havia, no prédio onde uma tia minha morava, uma mulher que tinha um filho pequeno. Toda vez que eu passava a tarde na minha tia, ouvia, em algum momento, essa mulher gritando pela janela do apartamento dela. Eu olhava pela janela da minha tia e via a mulher agarrada à tela protetora gritando:

– Eu quero morrer! Eu quero morrer!

Às vezes, algum vizinho impaciente ou num mau dia gritava: “Então se mata!”. Silêncio. Alguns segundos depois, a mulher voltava:

– Eu quero morrer!

Eu conhecia o filho dessa mulher, quatro ou cinco anos mais novo do que eu. Eu me lembro dos olhos dele, olhos alertas, nunca brincalhões ou inocentes. Quando a mulher gritava, eu pensava no filho dela. Eu sabia que ele estava no apartamento com a mãe, enquanto o pai trabalhava. Eu pensava se ele ficava brincando ao lado dela na sala, durante os gritos. Se tentava pensar em outra coisa, se ficava olhando.

Um dia, minha tia foi até o apartamento dessa mulher e a convidou para ir à igreja com ela. A mulher resistiu, mas acabou aceitando. Foram minha tia, a mulher e o filho dela. A mulher passou a ir à igreja aos fins de semana. Os gritos foram se espaçando até pararem de vez.

2.
Eu costumo me lembrar dessa mulher quando vejo alguém criticando impiedosamente as religiões.

Quando alguém critica impiedosamente as religiões, quando alegam que tudo não passa de alienação, de conveniência, de fantasia, eu sempre penso, na verdade, no filho dessa mulher.

No indivíduo por trás das teorias e abstrações.

Na fragilidade e na vulnerabilidade humana.

3.
Cada um, à sua maneira, tenta dar sentido à sua existência e à existência em geral. Alguns encontram o sentido no ateísmo. Outros, numa religião. Outros, numa fé não sistematizada. Outros, em outro assunto que não tenha a ver nem com a existência nem com a não existência de Deus.

Para mim, a tolerância religiosa representa um avanço. Quanto mais forte a convicção, maior tende a ser a intolerância. Como ninguém pode garantir o que acontece depois da morte, especulações fazem mais sentido do que convicções, tolerância do que intolerância.

Houve um tempo em que católicos, judeus e protestantes não podiam ser admitidos nas universidades de Oxford e Cambridge, duas das mais notórias universidades de hoje. Houve um tempo em que devotos tinham suas propriedades confiscadas caso não se convertessem. Houve um tempo em que era seguir a religião do imperador ou morrer. Em algumas sociedades, está havendo um tempo – hoje – em que religião está virando sinônimo de ignorância. Mas muitos dos que criticam as religiões, sobretudo o cristianismo, não se lembram disto: talvez a sociedade não esteja preparada para transmitir valores morais sem as religiões como ferramenta. E uma sociedade sem valores morais é inviável.

A vida de um único indivíduo sem valores morais é inviável. Sem valores morais embutidos, mal se consegue conversar. Sem verdades, ainda que transitórias, ainda que superadas pelo tempo, não se tem discurso.

Sem separar a realidade entre errado e certo, ou pelo menos entre adequado ou inadequado, não se fala “não” para uma criança, não se tem nenhum motivo para crer que generosidade é melhor do que egoísmo ou que a não violência é preferível à violência.

A religião não é a única alternativa ao relativismo. Mas ainda é, e deve ser por muito tempo, a maior organizadora da moralidade. E muitos vivem melhor, e têm uma relação mais harmônica com seu entorno, graças a essa organizadora. Como a mulher do prédio da minha tia.

4.
Esses muitos são covardes? Fracos? Eles estão errados?

A mulher do prédio da minha tia já deve ter ouvido o mesmo que a minha tia: essa coisa de Deus é uma fraqueza. É conveniente. É covardia.

Talvez Deus seja tudo isso, mesmo. Talvez não. Talvez acreditar em Deus seja conveniente, mas nem por isso seja um engodo. Pode ser que existam verdades convenientes. Por que não?

Pessoalmente, acho muito estranho dizer a uma pessoa que o modo como ela deu significado à vida é errado. Esquisito dizer a alguém que aquela felicidade não é correta, que aquela alegria não é bem alegria, que aquele conforto é uma fuga. Fé e religião não precisam e nem devem ser sinônimo de ignorância: disso, estou certa. Também não deveriam ser sinônimo de contradição: como pregar o amor movido pela amargura e pelo ódio? O fanatismo, tanto religioso como cético, é uma tentativa potencialmente nociva de simplificar as coisas: também estou certa disso. Mas dizer a alguém que o modo como ele traduz o mundo é errado? Que, digamos, sentir que Deus existe é uma bobagem?

Se as religiões são dogmáticas, o ateísmo pode ser interpretado da mesma forma. O ateísmo, para mim, está mais para uma outra forma de dogmatismo do que para uma explicação que realmente dê conta da complexidade da existência.

Mas e daí? O que fazer a partir disso?

Ateus, religiosos, pessoas que apenas têm fé, pessoas que se esquivam do debate: estamos todos nós apenas tentando, com a mesma fragilidade, dar alguma forma ao caos. Tentando, com desespero semelhante, com necessidade urgente e gritante, tentando impor alguma ordem ao nosso exterior.

Porque somos humanos e gostamos de dar forma ao caos. E por isso inventamos as religiões, e também o ateísmo.

Ninguém sabe como é. Restam as especulações. Resta, acima de tudo, o humano.

5.
Sem Deus, abre-se um vão entre nós e os valores morais. Para que ser bom, se nada fundamenta o bom? Sem uma instância transcendente organizando a vida mundana, o que resta? Independentemente da crença de cada um, resta o humano. A fé no humano. É nessa fé que, não importa a crença, todos podemos nos unir e nos concentrar. Na importância do ser humano. Na importância da vida. Na vida em sociedade.

12 comments to “O que resta”

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  1. Ana Caroline - 20 de abril de 2013 at 18:58 Reply

    Liliane,
    Seu texto está fantástico. É incrível como nos últimos anos aumentou essa ‘briga” entre cristãos e ateus, sempre acreditei que tudo é uma questão de fé. Independente de qualquer coisa, o ser humano ele vive pela fé, seja na fé em Deus ou em qualquer outra coisa.
    Você escreveu exatamente tudo o que acredito.
    Beijo!

  2. André Machado - 20 de abril de 2013 at 23:36 Reply

    Também gostei muito da sua abordagem e quero lhe propor uma reflexão sobre o seguinte: o que interfere na minha vida que o fulano seja cristão ou muçulmano? Que seja homossexual ou heterossexual? Que o regime civil entre homos seja igual ao dos héteros? Que ande de moto em vez de carro? Que prefira pagode à música clássica? Em suma, tudo aquilo que não repercute em mim, não tenho legitimidade para criticar, censurar, combater…

  3. SARA - 21 de abril de 2013 at 9:32 Reply

    REALMENTE A INTOLERÂNCIA E A FALTA DE AMOR TEM LEVADO AS PESSOAS A GUERRA.

  4. Liliane - 21 de abril de 2013 at 10:23 Reply

    Achei seu texto interessante, mas acho que há uma confusão. A fé das pessoas não está intolerante. Alguns segmentos cristãos estão se fundamentalizando e isso cria uma resistencia. Acho inevitável que isso aconteça quando vemos líderes religiosos perseguindo e incitando perseguição e danação daqueles que não seguem sua fé e seu deus. É ai que está a intolerancia: no discurso de líderes religiosos, não na resistencia de quem a eles se opõem. Acho importante que as pessoas tenham suas crenças, sua fé, sejam em duendes, em deuses, nas leis da natureza ou nas leis da física. O que é importante que todos sejam livres para tê-las e exprimi-las ou não. O que me amedronta é o discurso intolerante que vejo partindo de líderes religiosos. Acho também temerosa a idéia que a moralidade de uma sociedade esteja plantada em divindades. Por que quem não professa fé em uma divindade vai ser visto como imoral, que é o que acontece com os ateus atualmente. Para mim a teocentralidade de nossa cultura é o que nos empaca enquanto humanidade.

    • Liliane Prata - 21 de abril de 2013 at 14:19 Reply

      De fato: embora não tenha focado nisso nesse texto, tb acho a intolerância de alguns líderes religiosos, o discurso fanático e o fundamentalismo lamentáveis e perigosos.

  5. Jussara Moreira - 21 de abril de 2013 at 17:06 Reply

    Pra mim a palavra RESPEITO define muito bem o texto, se é para ajudar como a “tia do prédio”, tudo certo, mas se é para ditar como deve ser, não dá! Ultimamente as placas das igrejas estão sendo feitas com as fotos dos “discípulos” (viveram com Jesus? Ou são os novos deuses?). É um assunto “pra mais de metro” e é bom refletirmos um pouco que seja sobre o mesmo, e na minha opinião sempre, sempre, sempre com RESPEITO.

  6. Vanessa Correia - 25 de abril de 2013 at 10:15 Reply

    Esse é um assunto um tanto delicado mas você conseguiu falar sobre ele de uma maneira incrível. Creio que o maior problema é essa intolerância e as generalizações. Quem é cristão querer julgar os que não creem no seus Deus como errados e os que não creem do outro lado, querendo aceitação ao mesmo tempo em que provocam uma espécie de cristofobia. É como diz uma frase de “O Mundo de Sofia” que eu acho muito interessante: “É mais importante tolerar a crença do outro do que ficar perguntando porque nem todo mundo acredita na mesma coisa.”.

  7. Alessandra - 26 de abril de 2013 at 15:14 Reply

    Lili, muito bom! Você é inteligente e escreve de um modo muito sedutor.
    Sobre o tema, recomendo-lhe o livro que estou lendo: Em que crêem os que não crêem?, do Umberto Eco.
    Felicidades e sucesso, Alê.

  8. Ana Paula - 4 de maio de 2013 at 0:43 Reply

    Lendo seu texto fiquei curiosa… você tem religião, Liliane?

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