O fim da história

fim-próximo-3Outro dia, uma amiga veio aqui em casa, começamos a conversar sobre literatura e acabei, meio a contragosto, emprestando um livro para ela (sim, sou essa pessoa chata que não gosta de emprestar livros. Ninguém devolve! Sei disso porque estou cheia de livro dos outros aqui em casa).

Depois que emprestei, fiquei curiosa para saber o que ela tinha achado. Ela não costuma ler muito, mas eu tinha certeza que, desse livro, ela ia gostar. Depois de meses enrolando, ela finalmente começou a ler. Daí, um dia, ela entra no chat do Facebook e fala: “terminei o livro”. Pergunto: “E aí, e aí?” E ela responde: “ah, não gostei do final”.

Sério. “Não gostei do final”: isso é tudo o que ela tinha a dizer? Suspirei e perguntei o que ela achou, então, das outras 290 páginas, já que não tinha curtido as últimas 10. “Ah, sei lá, achei que a história ia acabar indo para outro lado”, ela respondeu. De novo, focada no final. Desisti e não comentei mais sobre o livro (a não ser para cobrar a devolução). E fiquei pensando: quantas vezes a gente não dá muito mais valor ao final das coisas do que à história toda?

Nem é só com livro/filmes. Tem gente que tem um namoro perfeito, que durou três anos felizes, sem nenhuma discussão. Ok, isso não existe. Mas, enfim, o namoro foi lindo a maior parte do tempo e teve um final péssimo – digamos, o cara se apaixonou por uma menina e ambos fugiram para o Caribe. Por que essa parte tem que apagar os três anos inteiros, como se eles não tivessem valido a pena?

Tenho uma amiga que ama detonar o ex porque ele a largou de repente (embora não tenha fugido para o Caribe com ninguém). Hoje, ela já está feliz com outra pessoa, mas, se você pergunta sobre aquele namoro, ela já vai respondendo que foi uma história sofrida, que quase morreu e tal. Ou seja, os momentos em que os dois tomavam sorvete, os passeios, a harmonia, tudo sumiu, e ficou só um cara sem coração e um fim sofrido. Pior, ficou aquela sensação de “não deu certo”. Aliás, se tem uma coisa que sempre detestei nos meus fins de namoro é quando alguém me perguntava: “Ah, mas por que não deu certo?”. Só porque acabou, não deu certo? Para mim, passar um tempão feliz com alguém é, sim, dar certo com essa pessoa, vai.

Uma vez, um amigo meu, superneurótico com dieta, ficou tão encanado com o tanto que tinha comido numa festa que foi embora para casa de cara fechada, depois de uma noite bem divertida. Também tenho uma amiga que, no último dia de uma viagem de um mês, quebrou um dedo, e ficou tão mal-humorada que nem gosta de se lembrar da viagem. Sério, foram tantos dias ótimos, mas ela só se foca no último. Já me peguei fazendo isso também: encanando com a parte chata de uma conversa que, pela noite inteira, foi tão agradável; recordando justamente a hora da festa que não foi legal. Por quê? Por quê?

Pode ser hábito, pessimismo, memória ruim. Sei lá. Só sei que eu, até o fechamento desta edição, não faço a menor ideia se existe vida depois da morte. Sem querer ser mórbida nem nada, se não existir, a gente vai ter que se contentar com um final bem sem graça para nossa trajetória: puf, sumimos da Terra. E aí, a vida valeu menos a pena por causa disso? Não acho. Prefiro me focar nas 290 páginas que  aproveitei.

* Esta crônica saiu na revista Capricho na época em que eu era colunista de lá

3 comments to “O fim da história”

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  1. Júlia - 6 de abril de 2013 at 18:38 Reply

    Adorei. Lia seus textos na Capricho e adorava, era minha parte favorita. =D

  2. Luana Furtado - 10 de abril de 2013 at 15:53 Reply

    É bem isso mesmo, cada vez percebo mais as pessoas pensando dessa forma. Acho que eu mesma, em alguns momentos, já pensei assim. Com fim de namoro é o mais comum, muita gente me questiona “nossa, não sei como você ainda consegue falar com o seu ex”, mas eu penso assim como você escreveu, passamos muitos bons momentos juntos e ele ainda é uma pessoa divertida. Não é porque o namoro acabou que preciso ter raiva dele e esquecer todo o resto que passamos. Ok, esse fim não foi tão simples assim, mas por pior que possa parecer pra quem está de fora, eu sou a principal envolvida e eu não enxergo a coisa assim, então é isso que importa.

  3. Marcela Cabrera - 27 de abril de 2013 at 9:24 Reply

    Quando cheguei na parte em que você fala que não gosta de emprestar livros pensei: “epa, já conheço esse texto”. Sua coluna na Capricho era o que eu mais gostava na revista, fiquei chateada quando você publicou o texto de despedida. “Achei” seu blog bem por acaso e passei a noite lendo. E, adivinhe, eu ainda não deixei de amar seus textos e concordar com tudo. Você acabou de ganhar (ou melhor, reencontrar) mais uma leitora 🙂

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