O colecionador de moedas

Running-Sand-1Terminou de ler o jornal, levantou-se e foi para o quarto.

Era só fazer isso, levantar-se e continuar preenchendo o dia com ações como ir para o quarto, e tomar banho, e se vestir para ir ao trabalho, mas, em cima do criado-mudo, ele viu o envelope com a moeda dentro, o envelope ainda fechado, o envelope que agora não era mais envelope, era uma afronta gigantesca e opressiva a quem ele era e quem deveria ser.

Pois ele aparentemente colecionava moedas. Nunca havia gostado muito do nome numismata, e aquela coleção de moedas divididas por países era pequena, talvez nem pudesse ser considerada uma coleção, ele já tinha chegado a pensar, mas talvez fosse sim uma coleção de moedas, ele pensou agora, talvez ele fosse sim um numismata, e ver aquele envelope fechado com uma moeda dentro, a mais nova moeda da sua coleção, o insultou.

Ele não podia ser um colecionador de moedas, ele não queria ser um colecionador de moedas, aquele envelope opressivo ficaria para sempre fechado em cima do criado-mudo: era tarde demais para abri-lo.

Como ele poderia abrir aquele envelope, ou apenas: como ele poderia estar ali, diante daquele envelope, com tanto horror manchando cada canto da existência? Como ele poderia simplesmente abrir o envelope logo após aquela massa indigesta de dor e injustiça ter descido com força pela sua garganta junto com o café?

Ou se vive em um mundo torto em todos os níveis ou se vive em um mundo ordenado com moedas separadas por países, ele decidiu, ele que não podia mais continuar fingindo que tinha duas pátrias, ele que precisava decidir em qual universo habitava.

Tomou banho sentindo todo o peso da metafísica em suas costas – por que, por que, por quê?  Na hora de se enxugar: para quê? Na hora de se vestir: silêncio.

Sentado na cama, olhou de novo o envelope fechado. Estava diferente, o envelope. Ou melhor, não era mais envelope, também não era opressão, era o quê, o que era aquilo que ele via agora? Compensação. O envelope era compensação.

Cada uma de suas moedas, sua coleção inteira, e também o futebol, sim, também o futebol, e as gargalhadas por bobagens, cada gargalhada imbecil em frente a um vídeo estupidamente engraçado, e também a pornografia, por que não?, a pornografia, e o último filme que tinha visto no cinema, e os bolinhos de bacalhau no bar, e todo o bar, e todos os bares e também a apresentação de dança contemporânea – sim, ela também, a apresentação de dança contemporânea a que tinha assistido dois fins de semana antes: tudo era uma compensação, um presente triste, um contrapeso, um par de asas vacilante e temporário, mas um par de asas, um respirador: sozinho, ele não poderia, não conseguiria, não continuaria.

Ele olhou o envelope com gratidão. Alívio. Ele olhou o envelope com quase amor.

Então ele abriu o envelope e guardou cuidadosamente a moeda dentro da pasta onde ficava sua coleção, e então ele escovou os dentes e saiu.

 

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