As coisas que não querem ser resolvidas

Caspar_David_Friedrich_-_Woman_before_the_Rising_Sun_(Woman_before_the_Setting_Sun)_-_WGA08253Tem um buraco entre a gente e as coisas do mundo, pode reparar. E a gente tenta cobrir esse buraco o tempo todo com ciência, religião, astrologia, filosofia, runas, o que for. O que importa é preencher o vão entre nós e as coisas: não suportamos a falta de respostas, dificilmente temos humildade para aceitar que não sabemos algo, que as respostas atuais são insuficientes e as vindouras talvez nunca venham. Queremos pensar. Resolver. Descobrir. De preferência, agora.

O que pode ser bom, claro, que o digam a conexão sem fio e o smartphone – como viver sem as maravilhas pensadas pela Apple, ou melhor, pela raça humana? O problema é que, bem, parece que certas coisas não querem ser pensadas. Nem resolvidas. Nem descobertas. Outras até querem – mas não imediatamente. Precisam de tempo.

Como mulher-contemporânea-eficiente-que-sou, costumo encarar cada problema como um desafio. Gosto de resolver: estou triste com meu emprego? Procuro outro. Minha filha vai entrar na escola? Pesquiso trinta opções antes de escolher uma. A carteira de motorista está para vencer? É para já, vou ao Detran (ok, confesso que para esse último item estou procrastinando). Como diria Lilia Cabral, acredito em destino, mas interfiro bastante.

Justamente porque me empenho em resolver o que pode ser resolvido, para mim é muito difícil lidar com o insolúvel. E acredito que seja difícil para muita gente. Porque é tão duro, o insolúvel. Tão inflexível. É um mistério.

Veja as discussões sobre Deus, por exemplo. Muitos já tentaram, mas ninguém conseguiu provar de maneira irrefutável sua existência. O problema é que, como Kant escreveu na Crítica da Razão Pura, também não conseguimos provar que Deus não existe. E nisso se vão séculos de discussão entre devotos e ateus. Mas a gente para de discutir? Não. Suportamos o buraco entre nós e o mistério da existência? Não, é claro que não.

Se a humanidade não tolera o buraco entre ela e sua própria existência, eu também não tolero o abismo entre nós duas, minha tristeza e eu. Se me abato por um motivo possível de ser resolvido, me movo. Mas, se sou obrigada a ficar parada, estaciono em uma posição incômoda. Desconfortável.

E esse desconforto é tudo o que temos em algumas ocasiões. Seja porque nossa tristeza é insolúvel, seja porque a solução envolve a pausa. O passar do tempo.

Finais não costumam ter solução. A morte é o mais assustador deles: não podemos trazer uma pessoa de volta, não podemos nem mesmo entender o que se passou com ela – se está em algum lugar, se virou nada. Alguém se foi e ficou nossa impotência, nosso assombro.

Nossos erros, nossos arrependimentos mais doídos: os dias se passam e eles continuam lá atrás, imóveis, intocáveis. Podemos nos esforçar para aceitá-los, mas isso é tudo – não conseguimos ir ao encontro deles e apagá-los.

E quando um relacionamento termina e temos que fazer o luto de uma pessoa viva: podemos fazer tanta coisa, mas acelerar o tempo, não podemos. Queremos correr, mas nossos movimentos avançam em câmera lenta.

Muitas vezes, caio na tentação de revirar tanto um sentimento ruim que ele fica torto, amarrotado: já nem reconheço mais o que estou sentindo. Revejo aquela discussão em ângulos diferentes, mudo seu final. Decido não pensar mais no assunto, mas, pouco depois, lá está minha mente trabalhando em mais produções inéditas inspiradas no mesmo fato real.

Quando tanto raciocínio dá em algum lugar, é ótimo. É produtivo – um termo tão valorizado hoje. Buscar soluções: esse caminho, conhecemos bem. Se há algo a ser feito, que assim seja. Mas e se não há?

Aí somos nós e o buraco. Nosso terror diante do abismo.

Pensar, pensar, pensar: não é todo mundo que faz isso, claro. Só os humanos.

Einstein bem que tinha avisado – “Penso 99 vezes e nada descubro, paro de pensar e a verdade me é revelada”. Paulinho da Viola também: “A vida não é uma equação, não tem que ser resolvida”. Mas a gente pensa 199 vezes, se for preciso. E mesmo quem não gosta de matemática pode ficar tentado a equacionar a vida.

Doença da pós-modernidade? Característica inerente à condição humana? Consequência da conjunção Urano-Saturno? Proximidade do fim do mundo? Efeito de muito sódio na alimentação?

Não sei. Só sei que, mesmo empenhada em cobrir o buraco que há entre mim, minhas dúvidas sem resposta, vazios existenciais e tristezas insolúveis, vivo me pegando cansada. Exausta: de procurar explicações que até aparecem, mas mudam de uma hora para outra, de racionalizar situações até o limite, alterar mentalmente o curso dos eventos e pensar, pensar, pensar. Quero que o desconhecido se revele e que cada consequência tenha uma causa única e determinada – é pedir muito?

É. Claro que é. Às vezes, é preciso parar. Fazer silêncio. E lavar o rosto, caminhar, tomar um pouco de sol. Um pouco de sol: às vezes, é só isso que temos para os nossos abismos. Não tapa os buracos. Mas ilumina.

* Essa minha crônica saiu na edição 27 da revista LOLA

 

8 comments to “As coisas que não querem ser resolvidas”

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  1. Jéssyka Prata - 15 de abril de 2013 at 11:58 Reply

    Como sempre, arrasando!

  2. Clara - 15 de abril de 2013 at 14:41 Reply

    Que texto lindo, Liliane.

  3. Simone Rocha - 24 de junho de 2013 at 23:13 Reply

    As vezes existe um momento certo, quase perfeito para lermos um texto…neste momento seu texto calou fundo pra mim…abrir uma revista de dezembro de 2012 em junho de 2013 não foi por acaso, foi perfeito e lindo! Obrigada!

  4. marilene - 12 de fevereiro de 2014 at 22:07 Reply

    Olá Liliane, vc leu a minha alma, minha vida e registrou tudo no papel, sem me conhecer. Incrível!!!! Parabéns pelo lindo texto. Obrigada e um abraço.

  5. Mi Pessoa - 27 de abril de 2014 at 12:06 Reply

    É muito bom ler a tradução de pensamentos e sentimentos que carregamos em nós! Obrigada por esse texto esclarecedor e saber que não estamos sós na jornada!

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