A vida enfiada

kshsiehbExiste uma vida que se enfia nos cantos da mesmice. Uma vida por trás da vida.

Mesmice é uma palavra bonita. Mas, se a vida pode ser entendida como renovação (e penso que pode, que deve, que a renovação é (uma das) essências da vida – basta pensar na planta e no bebê que crescem, nas estações, em nascer e no morrer), então não poderia haver nada mais oposto à vida do que a mesmice. Mas há. O oposto da vida não é a mesmice. A mesmice não é oposto de nada, posto que abriga – a mesmice abriga a vida.

Às vezes, penso no mundo em camadas. Há a camada do visível, do material, o inquestionável. O chão. Um móvel. Móveis pertencem ao grupo das certezas do mundo, móveis fazem parte das coisas que a vida tem como certas: eu vejo a mesa, você vê a mesa, mesmo o cego sabe – há uma mesa ali.

Incrustada nas quinas da mesa, pregada discretamente debaixo do tampo de madeira, ali está o que a mesmice abriga: a camada de vida que aparece quando o visível some, o volume é abaixado, a luz diminui, a delicadeza consegue passar.

A camada de vida que nos toma em meio à rotina, que surpreende irrompendo do comum: todos passam por isso. Estávamos vivendo nas coisas, presos aos móveis, quando um fio grosso de vida nos toca, nos enrola, e aí nos damos conta: estamos vivos.

Tudo é capaz de nos tragar para esse esconderijo de onde a vida emana. Um mergulho no mar profundo ou numa piscina azulejada de quintal. Uma montanha imponente, uma pétala murcha jogada na calçada suja, um olhar, ou mesmo um nada, um espaço, um abismo. À nossa volta, estão todos passando, tudo continua, mas agora fomos tragados, fomos levados: fomos completamente preenchidos pela sensação de estar aqui.

A vida enfiada não exige esforço, não se prende em raciocínios, não pode aparecer de novo ao tocar de um sino. Apenas surge e depois se vai. Emerge de um canto da mesa e volta a se esconder sob o tampo – a luz é acesa, sobem as vozes.

Mas o rastro fica. Porque, naquele momento tão curto, fomos lembrados do que sempre nos escapa: há vida por trás da vida. Então sentimos alívio, e nos reconciliamos, ainda que brevemente, com a existência. Escondida, mas nunca por muito tempo: existe vida ali.

3 comments to “A vida enfiada”

Você pode deixar um comentário ou Trackback para esse texto.

  1. Thaís Ancelmé - 29 de abril de 2013 at 20:00 Reply

    Te acompanho desde a adolescência, ainda na Capricho. Eu não tenho muitas palavras pra dizer, às vezes é melhor ser bem direta, no caso: muito obrigada! Eu adoro tudo o que escreve. Muito sucesso sempre!

  2. Marcio Caparica - 30 de abril de 2013 at 9:43 Reply

    Achei esse texto TÃO lindo. <3

Deixar comentário

Your email address will not be published.