Adeus, alma gêmea

tumblr_lyp9hktawo1r8wxeyo1_500Duas amigas se encontraram num velório. Na lápide, lia-se: Aqui jaz a alma gêmea.

– Você a conhecia? – a amiga 1 perguntou.
– Não – respondeu a 2. – Quer dizer, pensei que a tivesse conhecido, anos atrás, mas era alarme falso.
– Eu também! Mas continuo procurando por ela.
– Como?! Você não está vendo que ela morreu?
– Sim, sim, mas eu acredito em espírito, fantasma, reencarnação, essa coisa toda.
– Só assim mesmo! Pois eu só suspeitei da existência dela uma única vez, e foi um erro. Agora que ela se foi, nunca mais vou suspeitar de nada. Na verdade, sei como ela se parece, mas nem sei se ela existiu. Vai ver o caixão está vazio. Vai ver isso tudo aqui é uma armação.
– Nossa! Desse jeito, você não vai encontrá-la MESMO.
– E você, vai? Faça-me o favor, caça-fantasmas.

Depois do velório, foram tomar um café. Algumas mesas adiante, viram o ex-namorado da amiga 2.

– Ai, meu Deus, ali está o meu ex.
– Onde? Ah, já vi.
– Não se parece com ela?
– Até que parece, sim. Mas, se você olhar bem, vai ver que o nariz é diferente.
– Pois é… O problema é que, se você olha bem, vai ver que ninguém se parece com ela. Ou melhor, se parecia. Agora, essa história de alma gêmea acabou.
– Pois eu ainda acredito.
– Lá vem você. Chega de se enganar! Acabou!
– Mas como é que vai ser?
– Vai ser ass… Espera, ele olhou pra cá. Ufa, ele não me viu. Vai ser assim: quando você encontrar um cara legal, não vai ficar pensando se ele é ou não o cara. Vai só curtir. Vai ser ótimo.
– Agora é você que está se enganando. O mundo sem alma gêmea não é fácil, querida. Vai ser assim: você conhece um cara. E, quando a coisa começar a dar errado, o que tem 99% de chance de acontecer, sabe como vai ser? Você sabe que o problema não é ele, afinal, não existe pessoa certa para você. Então, você sempre vai achar que o problema é você. Você não tentou o suficiente. Você não se esforçou. Não é ele que é egoísta, é você que é mimada. Não é ele que é preguiçoso, você que é exigente. E não é ele que é grosso, você que é dramática. E aí, você vai fazer como fez a nossa amiga Juliana.

(Juliana era uma mulher normal e com uma imagem razoavelmente saudável de si até conhecer Fábio. Fábio estava sempre de mau humor, raramente estava a fim de fazer sexo, tratava Juliana mal, tratava os amigos de Juliana mal, a família de Juliana, o cachorro de Juliana, enfim, tudo o que se referia a Juliana. Juliana não colocava um fim no relacionamento, convencida de que o problema não era ele, mas ela: ela precisava se focar mais nas qualidades do parceiro do que nos defeitos, porque, ora, todo mundo tem defeitos. Ela precisava entender que os relacionamentos ficam mornos com o tempo, e não só o relacionamento com Fábio. Ela precisava ver que, se ela não amadurecesse, não conseguiria um relacionamento de sucesso nem com Fábio, nem com ninguém, então o mais sensato era não terminar aquele namoro nunca, e sim fazer terapia pelo resto da vida. Enfim, tinha de se adaptar àquele relacionamento, em vez de pular de relacionamento em relacionamento. Um dia, Juliana levou um tapa de Fábio. Então ela fez uma compressa de água fria no rosto, continuou seu namoro com Fábio e mudou de terapeuta, porque a terapeuta antiga terminou com ela.)

– Não sei, não – disse a amiga 2. – Quer dizer, a alma gêmea morreu. Mas os limites estão vivos.
– É, pode ser. Pelo menos, não fui convidada para o velório de nenhum deles. Tem notícias do bom senso?
– Ah, está como sempre esteve, quer dizer, nunca esbanjou saúde, mas…
– Ssssh! Ele está vindo pra cá. Olha para o outro lado.

O ex as cumprimentou. Papo vem, papo vai, ele chamou a ex para tomar uma cerveja um dia desses.

– Olha – a amiga 2 disse, quando ele foi embora. – Vou fazer dar certo dessa vez, você vai ver. Não vou fazer de tudo, como a Juliana. Mas vou fazer a minha parte.
– Como você vai saber qual é a sua parte e quando a sua parte vai ter terminado?
– Sei lá. Mas vou fazer. Tchau-tchau.
– Tchau. Boa sorte.
– Ei, espera.
– Hum.
– O nariz dele. Você prestou atenção? Tem certeza de que não era igual ao nariz dela?

4 comments to “Adeus, alma gêmea”

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  1. Rodrigo Davel - 23 de abril de 2013 at 18:31 Reply

    No início fiquei com um medo do texto cair em pieguices – daquelas tipo ‘autoajudapracurar mazelanomeiodobraço’.
    Mas nasceu um conto gostosinho, divertido e cheio de divagações de autoreflexão do leitor. Adorei!

    Abração!
    Rodrigo Davel

  2. Karla Cunha - 23 de abril de 2013 at 20:22 Reply

    Adorei o texto,
    infelizmente, existem muitas Julianas e futuras Julianas nesse mundo. Uma pena!
    E eu também acredito que a alma gêmea esteja por aí, mas que ela não vai ser a primeira e talvez nem a última que cruze nosso caminho!

    Beijo!

  3. Erick Vinícius - 24 de abril de 2013 at 0:05 Reply

    É divertido ver a realidade contada de uma maneira nova. A reflexão surge melhor do que algo literal.

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