Raio-X

deep_breathing_paintingTem gente que lê a alma da gente. Pode reparar: tem gente que, depois de olhar alguém por alguns instantes, de conversar por alguns minutos, saca esse alguém. Invade seu dentro e fica à vontade.

A maioria de nós não se deixa tomar pelo outro. Pelo menos não de cara. A maioria de nós precisa encaixar o outro em uma série de molduras. Nacionalidade, classe social, gênero, cor da pele, orientação sexual, profissão, idade.

A maioria de nós, quando vê um indivíduo, precisa enfiá-lo num todo antes. Que roupa veste, como fala, que modos tem, que opiniões emite. Essa roupa me dá esse indivíduo, esse jeito de falar me dá esse indivíduo, esse modo me dá esse indivíduo, essa opinião me dá esse indivíduo. A maioria de nós não vê um indivíduo, vê isso e aquilo desse indivíduo. A maioria de nós não vê um indivíduo, vê o indivíduo.

A maioria de nós se surpreende quando a primeira vista se mostra errada depois de um tempo: ah, ele se veste assim, mas é assado. Ah, certo, ela disse aquilo, mas ela não é só aquilo. Ah, ele é dessa classe social, mas é assim. Ela ouve essa música, mas é assado.

A maioria de nós até muda o juízo que fez de alguém, mas com dificuldade. A maioria de nós não gosta de rotular ninguém, mas rotula.

As pessoas que leem a alma da gente são generosas. Elas têm a generosidade de nos libertar das manifestações externas. São gentis – têm a gentileza de não nos definir a partir de uma frase, de um sapato, de um curso, um amigo, uma opinião apressada. Têm o tato de perceber que a gente muda com o tempo: que o nosso passado não é uma prisão, mas um trampolim. As pessoas que leem a alma da gente são pacientes – têm paciência de explorar o nosso dentro em vez de reproduzir o dentro que elas julgam ter visto.

Porque a maioria de nós, a maioria mesmo, não quer ver o outro em sua complexidade. A maioria de nós não tem tempo para invadir o outro, nem tempo nem interesse. A maioria de nós prefere o comodismo de tachar o outro, ajustá-lo às nossas lentes. Todo mundo vê o mundo com lentes. Mas a lente das pessoas que leem a alma da gente é finíssima, é translúcida, é de outro material. Essas pessoas não estão interessadas pelo poder – elas não querem se apoderar do outro, querem abrir alas para o outro.

As pessoas que leem a alma da gente não têm sede de poder, elas têm sede de gente. Não estão interessadas em competir, estão interessadas pela vida. São pessoas raras. Mas existem.

11 comments to “Raio-X”

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  1. Cristiane - 21 de março de 2013 at 17:10 Reply

    Que lindo texto, Liliane. É incrível observar isso que você relatou…afinal, é a realidade de muitos, inclusive a minha. Tento não colocar as pessoas em “caixas” e ignorar aquilo que todos dizem alertar para determinada personalidade, padrão… acho que o que sentimos é muito mais importante do que aquilo que vemos.

  2. Ana Paula Lou - 21 de março de 2013 at 19:55 Reply

    Assustadoramente lindo!

  3. Marcella - 21 de março de 2013 at 19:58 Reply

    Liliane, que bom te ver sempre produzindo! Eu te acompanhei por pouco tempo na Capricho, depois te acompanhei no seu blog por algum período e a última vez que li algo seu, você tinha dito que estava grávida. Acho que faz um tempinho, não? rs. Bem, só pra te dizer que você é super talentosa e te admiro também por ser alguém que está procurando sempre melhorar como pessoa. Acho que faz parte dessa nossa busca como ser humano.
    E obrigada porque por mais tempo que eu passe sem ler algo seu, quando digito no google “Liliane Prata” sempre encontro seu blog para me reconfortar. Beijooo

  4. Ana Vieira - 24 de março de 2013 at 15:33 Reply

    É tão difícil encontrar pessoas assim hoje em dia, mais difícil ainda é ser assim. Todas as qualidades que você citou e que essas pessoas possuem, são coisas que eu venho trabalhando em mim a muito tempo, a gente está muito intoxicado pelo mundo, que fica colando rótulos na nossa testa, é engraçado que a gente tenta ser diferente tão desesperadamente e acaba não vendo esse diferente por aí.
    Obrigada pelo texto Lili, foi inspirador! (:

  5. Marcia Soares - 25 de março de 2013 at 14:22 Reply

    Fantástico. E o mais interessante é que conheço uma pessoa exatamente assim. Parabéns pelo texto.

  6. Isa Maiolino - 27 de março de 2013 at 16:12 Reply

    Amo gente que tem sede de gente! 🙂

  7. Júlia - 6 de abril de 2013 at 18:40 Reply

    Amei o texto.

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