O papel do colunista

writers-blockQual é o papel do colunista?

Estou falando sobre o colunista de revista, do jornal, da internet. Mas não do colunista-especialista – o veterinário que escreve no suplemento de bichos, o psicanalista que fala dos traumas, o economista do caderno de economia. Estou falando do colunista que não tem autoridade nenhuma além do fato de ter uma coluna: ele não é melhor do que ninguém, é uma pessoa que escreve, só isso, e, no entanto, está lá discorrendo e palpitando sobre a existência, a morte, a condição humana etc.

Fui colunista da revista Capricho por quase dez anos e, ao longo desse tempo, sempre me fazia essa pergunta. Quer dizer, sempre, não – comecei minha coluna aos 21 anos e, naquela época, eu estava empolgada demais com o trabalho para refletir sobre ele (“Uma página inteira falando sobre eu quiser, mãe!”, eu gritava pela casa no começo).

Mas o tempo foi passando e comecei a me pegar pensando: espera, quem sou eu para falar para essa leitora sobre a vida? Não fui uma adolescente exatamente bem-resolvida e, apesar disso, lá estava eu falando com as leitoras com uma voz de autoridade que começou a me incomodar – que autoridade era essa?

Comecei a me sentir meio mal. Uma fraude que ia ser descoberta a qualquer momento. Lembro de ter ficado uma tarde toda pensando nessa questão do colunista que só escreve e não entende de encanamentos ou processo digestivo mais do que o leitor comum. Naquele dia, pensei na seguinte cena de um filme policial hipotético: um crime está sendo investigado. No local do crime, o delegado vê uma pessoa estranha e pergunta:

– Espera, eu sou o delegado, ele é o investigador, aquele é o perito e aquele é a testemunha que ligou para a polícia… E você, quem é?
– Ah, eu não sou ninguém, sou só o colunista.

Era mais ou menos assim que eu me sentia.

Minha voz dificilmente era autoritária, quem lia minha coluna (tem uma aqui) sabe que eu gostava de mostrar os mil lados de uma situação e tal. Mesmo assim, eu que estava escolhendo os lados, não é? E eu que escrevia uma conclusão sobre aquele apanhado. Era eu, às vezes, que dava, veja bem, alguma dica. Um conselhozinho. Baseado na minha experiência. Que audácia!

Depois de um tempo, porém, acabei decidindo que eu não precisava saber mais do que as leitoras para falar sobre a vida com elas. O colunista que não é especialista, concluí na tarde de uma quarta-feira qualquer, não tem mesmo que saber mais do que ninguém. O colunista que só escreve e mais nada é isso: ele experimenta a vida como todo mundo. E escreve sobre isso.

No início do Contrato Social, Rousseau fala mais ou menos assim: vou falar sobre política. Vão me perguntar se sou príncipe ou legislador para escrever sobre política. Respondo que não. Se eu fosse príncipe ou legislador, eu estaria legislando. Escrevo sobre política porque sou cidadão.

Naquela quarta, concluí que eu escrevia na Capricho sobre a vida porque estava viva. Todo mundo, absolutamente todo mundo que vive tem autoridade para falar sobre a vida. Para compartilhar coisas que aconteceram e dar opiniões baseadas na sua experiência de estar vivo a quem se interessar. Sabe aquela coisa de “Olha, você já viajou para esse lugar, eu não, o que você achou de lá, me conta?”. No caso da vida, todo mundo está no mesmo lugar e pode contar.

Porque todo humano tem autoridade para falar de humanidade. Dentro desse todo humano, alguns têm gosto de colocar essa visão sobre a vida no papel. Gosto e vocação. Os mais observadores, sensíveis ou espantados encontram em escrever sobre a vida um hobby gratificante. Alguns colocam suas visões de um jeito interessante e os outros gostam de ler. Naquela quarta, fiquei muito aliviada por ter resolvido meu mal estar. Eu não era uma colunista autoritária – era apenas uma pessoa escrevendo sobre a vida e meu olhar agradava os leitores. E, convenhamos, ainda tinha a sorte de ser paga para isso!

9 comments to “O papel do colunista”

Você pode deixar um comentário ou Trackback para esse texto.

  1. Mayara - 19 de março de 2013 at 15:54 Reply

    E será sempre assim, os que leem e os que escrevem..

    E principalmente, porque algumas pessoas conseguem traduzir em palavras o que outras sentem e jamais conseguiriam se expressar dessa maneira, com as palavras exatas do tamanho do sentimento. É aquele sentimento de estarmos tomando chá com um amigo/a que sabe exatamente do que estamos falando, sentindo e que nao precisamos falar nada de volta. Você apenas sabe, e isso, conforta <3

  2. Didi - 21 de março de 2013 at 16:35 Reply

    Muito bom texto! Como sempre! Você é uma pessoa que escreve bem e dá prazer a grande parte de seus leitores com o que escreve. Isso, para mim, foi o que te fez ser escolhida como colunista! Não necessariamente avaliaram se sua adolescência foi bem sucedida! Mas, convenhamos, alguns colunistas não são escolhidos por esse critério. Ao meu ver, são só influentes o suficiente para conseguirem um espaço em jornal ou revista. E produzem textos que deixam bem claro que estão ocupando aquele espaço como mera troca de favores…

    • Liliane Prata - 21 de março de 2013 at 18:17 Reply

      Adoro qdo vc vem aqui, Di! Concordo, e favoritismo em qq ocupação existe sempre. No caso dos colunistas, acho que a reação dos leitores é o melhor termômetro para ver se o que ele está escrevendo tem a ver, se faz sentido. Beijão!

  3. Didi - 22 de março de 2013 at 8:49 Reply

    Verdade!!! Um beijo pra você, colunista linda!

  4. Alana - 29 de março de 2013 at 13:37 Reply

    Eu era uma das leitoras da sua coluna na Capricho. Hoje tenho 16 anos. Era a minha parte favorita da revista, sempre deixava pro final mesmo – ser a última página também ajudava – assim ficava com aquele gostinho de sobremesa depois do almoço. Senti saudades e procurei teu blog. É como música. Ás vezes a gente só curte. Porque tua escrita é muito agradável. Mas também ensina. Faz pensar. Quantas conclusões eu tirei contigo! Quanto me acrescentou. Podes não ser um clássico, mas engrandece a mim e a ti, e isso já é suficiente. Não páras de postar que eu sinto falta. E creio que tu também. Lembranças pra família. Bj.

  5. Vivian - 28 de maio de 2013 at 9:19 Reply

    Quando eu era mais nova, tinha sempre uma revista Capricho na bolsa. Nunca fui muito de looks, wish lists e etc. As únicas coisas que me interessavam a ponto de comprar (veja bem, COMPRAR pra uma adolescente significa gastar toda a sua mesada – que, pra mim, era bastante suada! rs) a revista eram as colunas do Antonio Prata e da Liliane Prata. Sim, eu acreditava que vocês eram irmãos, rs.
    Sempre que posso faço uma visitinha no blog, a fim de relembrar os bons e velhos tempos. E quer saber? Em crise existencial colunística ou não, ainda bem que você enfrentou seus demônios e esteve lá, fazendo a minha alegria e de mais inúmeras meninas nesse país 🙂

  6. Juliana - 21 de agosto de 2013 at 1:12 Reply

    Eu era uma das leitoras que amava ler sua coluna na Capricho e dizia que um dia também teria minha própria coluna na revista. Quem sabe, um dia..

Deixe uma resposta para Mayara Cancelar resposta

Your email address will not be published.