Feminismo para não feministas

Muitos associam feminismo a agressividade ou simplesmente chatice.

Lembro de uma amiga que, quando me visitava, sempre ficava de olho na divisão das tarefas domésticas aqui de casa. Eu e meu marido nunca tivemos uma conversa a respeito, a divisão de tarefas sempre foi bem natural – mas, quando ela vinha, eu torcia para que fosse ele a estar de avental, e não eu. Porque se ele estava varrendo a cozinha, situação comum aqui em casa, ufa!, estava tudo certo. Mas se eu estava tranquilamente fazendo o café e ele vendo TV, situação também comum aqui em casa, tanto eu como ele levávamos um olhar de reprovação.

Então ok, talvez a agressividade ou chatice existam, sim, mas penso que não só entre feministas exaltadas: existem também entre vegetarianos indignados, esquerdistas convictos, neoliberais irredutíveis, fanáticos religiosos, ateus nervosos. A agressividade e a chatice são parte do radicalismo, não do feminismo. E, no caso específico do feminismo, o machismo na nossa sociedade é algo tão, mas tão escancarado que às vezes, por mais que eu busque o equilíbrio… Cada vez mais acho difícil não ser radical.

Também tem aqueles que acham feminismo uma bobagem e que o dia internacional da mulher é algo meio ultrapassado e sem sentido. Por isso coloquei esse título neste post, “Feminismo para não feministas” – porque talvez muitos que pensam assim até sejam feministas, só não saíram do armário porque não pararam para pensar no que o feminismo representa e tal.

Quem vê uma turma de faculdade repleta de alunas não lembra que a universidade existiu no Brasil por muitos anos sem que mulheres pudessem frequentá-la.

Quem vê atrizes nas páginas das revistas não para pra pensar que na Grécia Antiga, assim como séculos depois, na Inglaterra do século 17, os papéis femininos eram interpretados por homens, da mesma forma que atores brancos se pintavam nos EUA para dar vida a personagens negros. Escritoras como a inglesa Mary Ann Evans já assinaram com nome de homem para terem seus textos publicados.

Na minha opinião, é comum (e muito!) faltar um pouco de perspectiva histórica. Porque, sei lá, se uma mulher trabalha como atriz ou fez faculdade sem encontrar problemas na hora da inscrição… Como ela pode se dizer não feminista?

(Sobre isso de mulher não poder representar papéis femininos, recomendo demais o filme “A Bela do Palco”, com a Claire Danes).

Muitos se esquecem de fatos como: até muito pouco tempo atrás, as mulheres não podiam votar no Brasil. No império romano, mulheres, assim como os escravos, não eram consideradas cidadãs. As primeiras universidades do mundo foram abertas sem que as mulheres pudessem frequentá-las. Uma inglesa ficou famosa por se vestir de homem para assistir às aulas. No Brasil, a primeira faculdade abriu as portas em 1808, com a vinda da família real – mas foi só no fim do século 19, com um decreto assinado por dom Pedro II, que as mulheres foram autorizadas a ingressar na faculdade.

Mulher: um ser considerado inferior por muitos milênios, assim como o negro, o escravo, a criança, o deficiente. Como eles, somos minoria – não numérica, mas política.

Não feministas: o feminismo pode ser entendido de uma maneira ampla – feminista é um bom nome para aquele homem ou mulher que se importa com a condição da mulher na sociedade, no que tange aos direitos civis e também aos costumes. Dentro desses que se importam, tem quem ache que uma mulher não deve, digamos, posar nua, tem quem ache que posar nua é direito da mulher, tem terceira onda, quarta onda e o escambau. Há diferentes vozes dentro desse feminismo, mas o dissenso faz parte de qualquer movimento político.

Toda mulher, todo mundo que tem uma filha, uma mãe, uma irmã, todo homem que ama uma mulher: para mim, esses deveriam ser feministas automaticamente. Ficar discursando a respeito ou dedicar cada fração de minuto a se irritar com caaaada (são muitos) episódio de machismo da nossa sociedade vai do temperamento de cada um.

A luta pelo feminismo, na verdade, nada mais é do que uma luta pelo fim do patriarcado – e o modelo patriarcal não complica só a vida das mulheres, mas a dos homens também. Se sentir obrigado a ser o provedor, ser bem-sucedido e ainda ser hábil para trocar o pneu, que eu saiba, não faz de ninguém vítima de violência, mas deve encher o saco. Não faz duas semanas que, voltando do parque do Ibirapuera, eu e meu irmão ouvimos uma mulher gritando a seguinte frase para um homem, aparentemente o marido dela: “como assim não sabe o caminho, você é o homem, você tem que saber!”. A cara de humilhação que o sujeito fez foi memorável. “Eu não tenho que saber só porque sou o homem!”, acho que ele queria ter dito.

Mas, só para frisar: os homems também sofrem com os reflexos do sistema patriarcal, mas o feminismo é das mulheres. Eles sofrem, elas morrem, apanham, ganham menos, sofrem abusos físicos e psicológicos.

O importante nesta data, para mim, é lembrar que feminismo não é bobagem.

Um excelente oito de março para todos e todas as feministas.

8 comments to “Feminismo para não feministas”

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  1. Mari - 8 de março de 2013 at 15:49 Reply

    Texto perfeito! Precisamos ganhar tantas lutas ainda… A começar pelas mulheres machistas como a do seu exemplo.
    Beijos

  2. Ana Paula - 8 de março de 2013 at 19:12 Reply

    “Na minha opinião, é comum (e muito!) faltar um pouco de perspectiva histórica. Porque, sei lá, se uma mulher trabalha como atriz ou fez faculdade sem encontrar problemas na hora da inscrição… Como ela pode se dizer não feminista?”

    Exatamente.. Às vezes presencio mulheres dizendo “Sou mulher e não devo nada ao feminismo!” e só consigo pensar: “Cara… espero que ela caia na real…”

    Também achei bacana você mencionar a ideia de “feminismos”, no plural. Vejo bastante gente mal informada (e com bastante má vontade, também) que só espera a oportunidade de ver uma feminista dando uma opinião absurda pra tentar desqualificar todo o movimento. Vai tentar explicar que não é bem assim…

    E ótima maneira de encerrar o texto, falando sobre como o patriarcado também é ruim para os homens (esqueceu de mencionar que homens não podem chorar! haha), de maneira bem simplificada.

    Adorei o texto, Liliane! Como sempre :} Te leio desde o seu blog pessoal no UOL e das colunas na Capricho, estava sentindo falta dos seus posts. Beijos!

    • Liliane Prata - 8 de março de 2013 at 19:21 Reply

      Isso de os homens não poderem chorar é realmente terrível! Ter que ser forte o tempo todo deve ser msm massacrante. Concordo com vc, tem mta má vontade. Gente dando opinião absurda tem em qq área, em qq assunto. Volte sempre, Ana Paula!

  3. Jussara Moreira - 17 de março de 2013 at 10:07 Reply

    Belo texto para o nosso dia! Se não fosse a luta de muitas mulheres corajosas, não estaríamos discutindo este assunto, esse blog não seria assinado por uma mulher ou simplesmente não existiria. Sou feminista assumida e pra mim homem = mulher mesmos direitos mesmas TAREFAS, desde que entrem em acordo tudo bem!
    Que bom ver este blog tão rico de assuntos bons!
    Abraços!
    Jussara Moreira (do prédio, lembra de mim?)

  4. Alana - 29 de março de 2013 at 14:13 Reply

    Só acho sem noção da parte da galera achar que as mulheres são as únicas prejudicadas no quesito salário, por exemplo. É necessário lutar pelos direitos humanos, e é preciso que isso fique claro. Cadê a consciência? O que dizer da mulher negra que exerce a mesma função e tem a mesma formação que a branca e ganha muito menos que esta? E o negro, o deficiente e bla bla bla? O que tem de gente comprometendo e tirando a credibilidade do movimento e das causas feministas só por causa do modismo…

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