Depois de trinta anos

nicholasscarpinatophotography13-640x640Ele entrou na livraria correndo.

Nunca havia entrado naquela livraria, fazia anos que não entrava em livraria nenhuma, mas não chegou a fazer essa constatação. Apenas enfiou sem muita certeza o guarda-chuva molhado no balde de alumínio à sua direita – “será que não é uma lixeira?”, chegou a pensar – e secou na própria roupa a sacola que carregava. Em seguida, meio sem jeito, perguntou ao funcionário do caixa se ali tinha onde tomar um café. Tinha.

Tomou o café olhando para os lados. Não costumava olhar para os lados enquanto tomava café. Sempre havia enfiado o café com pressa na garganta, como se estivesse cumprindo mais uma obrigação, e então se levantava e então acabou, vamos à próxima tarefa. Mas aquele era um dia diferente, fazia anos que não entrava em livraria nenhuma, e talvez tenha sido por isso que o café passeou em sua boca enquanto ele olhava para os lados.

Uma garota folheando um livro. Uma senhora folheando um livro. Um casal vasculhando as estantes. Ali, naquele mundo estranho à sua volta, todos lhe pareceram absortos. Ele não chegou a pensar nesse adjetivo, absorto – ele só observava aquela pequena multidão interessada em livros. Aquela pequena multidão que parecia ter ouvido algum sinal anunciando um intervalo.

Ele pensou no último livro que havia lido. O café acabou e ele não conseguiu se lembrar. Pediu mais um café, como quem pede mais uma chance. E, de repente, Dom Casmurro: é isso, “Dom Casmurro”, aquele livro contado por um defunto… Não, não: Memórias… Brás Cubas… “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, é isso. Ele sorriu, orgulhoso de sua boa memória, para logo depois ficar sério: mal se lembrava da história, tinha lido aquele livro na escola e isso fazia o quê, trinta anos.

Nesses trinta anos, ele interrompeu os estudos, saiu do interior, trabalhou em uma oficina mecânica, casou, conseguiu abrir sua própria oficina, construiu sua casa, teve três filhos, viu seu negócio mudar de uma garagem que mal comportava três carros para um grande galpão, ganhou dois netos, pregou na parede o diploma de duas filhas, viu sua mulher adoecer, viu sua mulher ficar boa.

Nesses trinta anos, ele sempre esteve preso às coisas, como se as coisas fossem muito pesadas, como se fossem machucá-lo e ele não pudesse se distrair nem por um instante. A vida era uma linha reta que ligava a casa ao trabalho: não havia cantos, becos nem curvas. O mundo era o cotidiano, não existiam portas, janelas ou saídas de emergência. Não havia tempo para divagações, não podia correr o risco de se perder em parágrafos. Viveu sem piscar, sem vacilar, sempre com metas claras, passos rápidos e cafés enfiados na garganta.

Até que ele foi parar ali, se escondendo da chuva forte, e tinha se escondido da chuva forte apenas para não molhar as peças que trazia na sacola: uma pausa com motivo, como todas as pausas deveriam ser.

Então ele olhou para fora: a chuva tinha parado. Então ele olhou mais uma vez a multidão absorta ao seu redor: adeus. Então ele se levantou e pagou a conta.

Ele não saberia explicar por que, depois de esticar as mãos para pegar seu guarda-chuva úmido, desistiu, voltou para dentro da livraria e perguntou a um funcionário se tinha o livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Tinha. Ele passou pelo caixa, satisfeito, e foi embora com o livro dentro da sacola, balançando entre as peças.

* Esse meu conto foi publicado na última edição da revista SuperPedido

4 comments to “Depois de trinta anos”

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  1. Jade - 15 de março de 2013 at 15:44 Reply

    Muito bom! Adoro seus textos, que bom que você voltou a escrever com mais frequência.

  2. Giulia - 21 de março de 2013 at 21:57 Reply

    Que bom que vc voltou a escrever. Esse texto me lembrou do meu pai (que até lê bastante, mas às vezes surpreende por ser um mecânico super introspectivo e de repente desatar a nos contar a história da volta ao mundo em 80 dias). To com saudade dele 😛

  3. Silvia - 28 de março de 2013 at 21:52 Reply

    Muito bom o conto, parabéns pelo texto

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