Ansiedade, escrita e Muriel

13-cant-wait-longerOu se é ansioso, ou se é escritor. Se você é as duas coisas, você vai sofrer. Um dia, tomei a decisão de ser o que eu sempre quis ser, escritora. Mas eu sempre fui ansiosa. Então sofro, fazer o quê.

Lembro de quando escrevi um livro, mandei para algumas editoras e recebi minha primeira dezena de NÃOS.

Não foi exatamente agradável e decidi escrever outro livro só depois de ter publicado aquele. Mais nãos foram vindo e percebi que, se eu não deixasse de ser tão imediatista, poderia ficar anos sem escrever outro livro. Então escrevi outros livros ao longo de cinco anos sem me preocupar (muito) em publicá-los. Um deles, “À Revelia”, acabou sendo publicado no fim de 2011, outros dois sairão este ano e o primeiro livro, aquele da dezena de nãos, continua lá, ou melhor, aqui, esperando.

Uma vez, esse livro da dezena de nãos (o título é um pouco melhor que isso) quase foi publicado por uma grande editora, uma das cinco maiores do Brasil. Em vez de uma recusa, recebi um “Vejamos”. Mas não chegamos a um acordo sobre dois pontos desse livro. Então, desisti de mostrá-lo e aproveitei que estava a sós com ele para revisá-lo à exaustão – foram três ou quatro meses escrevendo, e cinco anos reescrevendo. Com certeza reli esse livro umas cem vezes.

Cem vezes.

Eu queria dizer que isso significa que controlei minha ansiedade, mas talvez só signifique que reler obsessivamente um texto seja coisa de gente ansiosa.

reunião

Semana passada, fui a uma reunião na editora Planeta sobre o meu novo livro, um juvenil que vai sair agora em maio.

Quando eu estava revisando “À Revelia”, tive a ideia desse juvenil. Eu estava fazendo duas aulas de antropologia e foi de lá que saiu a ideia – uma garota que vai parar num mundo completamente diferente do dela e se choca ao perceber que tem muito a aprender quando o assunto é lidar com o diferente, o outro.

Eu não queria escrever esse livro de jeito nenhum, porque já tinha planejado qual livro iria escrever depois de “À revelia” – um livro adulto, que tinha a ver com o período que eu estava vivendo, com um tema que me interessava muito (esse livro também sai este ano, também pela Planeta).

MAS o livro juvenil começou a ficar na minha cabeça. O. Tempo. Inteiro.

Sei o quão afetado pode (e vai) soar isso, mas o livro realmente queria ser escrito.

Escrevi uma estrutura da história (enorme), que eu chamo de escaleta, para ver se eu sossegava. Mas não sosseguei: de repente, eu estava morrendo de vontade de escrever aquele livro, e também duas continuações daquela história, que acabou ficando enorme. Uma trilogia.

Foi aí que escrevi “O Novo Mundo de Muriel”.

Isso foi no segundo semestre de 2009. A primeira revisão que fiz em Muriel foi no início de 2010. Agora, três anos depois, ele vai ser publicado.

Estávamos todos muito animados nessa reunião. Eu estava animada e emocionada: é sempre emocionante ver uma história que ficou tanto tempo comigo, sendo revisada tantas vezes, deixando de ser um arquivo em Word no meu computador e virando um livro – e com uma capa linda, que logo mostro aqui. Gosto demais de Muriel e espero o lançamento dele com… ansiedade, como não poderia deixar de ser.

7 comments to “Ansiedade, escrita e Muriel”

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  1. Marcio Caparica - 26 de março de 2013 at 14:15 Reply

    Depois preciso te contar as teorias sobre criação de seres e livros que um outro autor que eu adoro, chamado Grant Morrison, escreveu. Por enquanto, só fico aqui ansioso pra ver o livro novo, e feliz que o meu livro (que ainda precisa ser revisado) não precisa se jogar da ponte ainda por ansiedade. 🙂

  2. Ana Vieira - 26 de março de 2013 at 17:39 Reply

    Parabéns Lili! Fiquei ansiosa por ler essa história, até porque o tema bate com coisas que estou pensando muito nesses últimos tempos. Achei legal a parte que você falou que o livro “queria ser escrito” que a Elizabeth Gilbert trata desse assunto numa palestra dela no TEDx (aqui ó: http://www.ted.com/talks/view/lang/pt-br//id/453), além de tratar de ansiedade e outros estigmas de escritores… 🙂

  3. Didi - 26 de março de 2013 at 20:43 Reply

    Lili, quero todos os seus livros! Estou ansiosa também! Como faço? Eu pago custos de correio. Podemos conversar por e-mail para detalhar! beijo

  4. Isa Maiolino - 27 de março de 2013 at 16:09 Reply

    Lili, amei este post!!!!!! Nossa, ele devia ser lido por todas as pessoas que sonham em escrever um livro! É uma lição de ansiedade, persistência e enorme talento! Adorei a fotinho também! Beijão.

  5. Vanessa Correia - 8 de abril de 2013 at 12:35 Reply

    Adorei o texto, talvez um dia o desepero e ansiedade também me abandonem parcialmente e eu pare de sofrer tanto por antecipação rsrs
    P.S.: achei que só eu era atormentada com histórias que pedem para ser escritas, estou escrevendo um livro agora e as ideias para um próximo volume não param de me atormentar rs

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