A mãe, o nugget e Barcelona

Eu estava grávida de três ou quatro meses e tinha um aniversário de criança para ir. Filho de uma ex-chefe do meu marido. Nunca gostei muito de aniversário em bufê infantil, mas, com dois ou três meses de gravidez, eu estava empolgadíssima com tudo o que se referia a crianças – claro que, depois que a minha filha nasceu, voltei a ser uma pessoa que não gosta muito de aniversário em bufê infantil, mas enfim. Cheguei, comi, tomei refrigerante etc, sempre me focando nas crianças brincando e evitando me impressionar com aquelas fazendo birra/brigando/vomitando. Então comecei a conversar com a mãe que é o tema deste post. Esposa de um ex-colega de trabalho do meu marido.

Minha filha já tem quase dois anos e acho que sempre vou me lembrar dessa mãe.

A mãe – Um primeiro momento

Somos apresentadas e tento puxar assunto. É difícil manter uma conversa, porque ela nunca olha nos meus olhos e não presta atenção em nenhuma frase, mas logo descubro o porquê – ela está atenta à filha de um ano e pouco, que corre pra lá e pra cá e se recusa a ser puxada pelo pai para perto deles. Reparo também que há um nugget em uma mão dessa mãe.

Olhos dispersos, nugget na mão, quando a filha finalmente é trazida pelo pai. Estou no meio de uma frase, mas isso não é problema para a mãe, que imediatamente se abaixa e tenta enfiar um nugget na garganta da filha. A menina esperneia, quer correr, não quer nugget (já murcho e frio, era compreensível). Os dois ou três minutos seguintes se passam dessa forma: a menina corre, o pai não sabe o que fazer, a mãe sai correndo atrás da menina, a menina se enfia debaixo de algum brinquedo, reafirmando sua vontade de correr/brincar, a mãe se agacha, tenta abrir À FORÇA a boca da menina e enfiar o bendito nugget lá dentro, a menina se vira, a mãe se vira também.

Não fiquei observando como a saga acabou. Fui fazer outra coisa, provavelmente comer, e só conseguia pensar: “Na boa, por que é tão importante comer esse nugget?”

A mãe – Um segundo momento

Meses se passam, minha filha já nasceu, não há nuggets no nosso freezer. Um dia, meu marido chega em casa comentando:

– Não sei se você se lembra, mas sabe a fulana, mulher do M, você conheceu no aniversário do filho da F…

A mãe dos nuggets. É claro que eu me lembrava.

– O que tem ela?
– Acabou de se mudar para Barcelona, vai fazer um curso de um ano.
– E a filha?
– Ficou com o pai aqui.

Fiz as contas rapidamente. A filhinha dela devia estar com quase dois anos, então ela ia perder o quê, as primeiras frases, os primeiros atrevimentos engraçadinhos, centenas de cantorias, a carinha de bebê indo embora e a de criança chegando. Ia ficar um ano sem colocar a filha para dormir, contar historinha, cobri-la à noite ou ver a carinha dela numa loja de brinquedos.

Eu não quero ser sentimental, só quero ater para o fato de que essa mãe é a MESMA MÃE DO NUGGET.

Fiquei o resto do dia com aquela história na cabeça. À noite, colocando minha bebê para dormir, pensei: eu ainda não descobri que tipo de mãe vou ser. Mas com certeza vai ser algo situado entre os nuggets e Barcelona.

2 comments to “A mãe, o nugget e Barcelona”

Você pode deixar um comentário ou Trackback para esse texto.

  1. Luiza - 16 de março de 2013 at 17:48 Reply

    Não entendi o porquê de você achar que o episódio do nugget caracterizava a mãe do nugget como uma boa mãe, não achei um comportamento da categoria “ir a Barcelona”, mas também não tão distante a ponto de me chocar.

    • Liliane Prata - 16 de março de 2013 at 17:59 Reply

      Não boa mãe, mas uma mãe exageradamente preocupada, na minha opinião. Passar uma semana ou duas longe da minha filha de dois anos, tudo bem, mas um ano eu não conseguiria.

Deixe uma resposta para Liliane Prata Cancelar resposta

Your email address will not be published.