A delícia de ler o que quiser

Balthus (1908-2001) Katia lisantNa última quarta eu estive em Orlândia (SP), e na próxima quinta estarei em Atibaia (SP), dando palestras a convite do projeto Caminhos da Leitura. Meu tema: liberdade na literatura – a delícia de ler e escrever sem se preocupar com gêneros literários.

Tem uma frase do filósofo Voltaire que adoro: “Afora o gênero tedioso, todos os gêneros são bons”. É bem esse o espírito da minha palestra.

Gosto de ler de tudo – Kafka, Antônio Cândido, 50 Tons de Cinza, Freakonomics e o evangelho de Marcos podem conviver pacificamente entre minhas leituras do mês. E escrevo textos bem diferentes uns dos outros – o juvenil e o adulto que sairão este ano não se distinguem apenas pela faixa etária destinada, mas pelo estilo de narrativa. Já tive dificuldade em aceitar isso, até decidir que esse é um problema muito mais dos editores do que meu (“Mas como, esse livro que você quer publicar é completamente diferente do último”, “Pois é, curtiu?”).

Então, se carrego alguma coisa próxima a uma bandeira é isto: a liberdade de se ler o que quiser sem grandes dramas.

Por muito tempo, acreditei que o que importava para mim, como leitora, era uma boa história. Podia ser uma boa história e não ter grandes reflexões/críticas/análises por trás – exemplos: qualquer chick lit ou romance da Agatha Christie. Podia ser uma boa história e ter grandes reflexões/críticas/análises por trás – exemplos: “Grandes esperanças”, Charles Dickens, “Madame Bovary”, Flaubert.

Mas depois de pensar sobre livros que eu tinha gostado e que não tinham nem sequer algo que podia ser chamado de trama (Exemplos: “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “A Paixão segundo G.H.”), cheguei à conclusão de que nem a história importava, o que eu gosto é de livro bom, livro que prende, livro que envolve – pela leveza, pela graça, pela inteligência, pelos personagens envolventes, enfim, por qualquer coisa.

Não que valha tudo: qualquer gênero tem livro bom e livro ruim (em termos de padrões de qualidade minimamente objetivos e também em termos de gosto pessoal). E, bem, ler um livro ruim às vezes pode ser bom.

Além disso, mesmo que você pegue um livro levíssimo, que os amantes (exclusivos) da alta literatura considerem não leve, mas oco – por exemplo, qualquer coisa com a Becky Bloom… Se você pega esse livro, que, definitivamente, não é um convite à reflexão… Surpresa: você pode refletir sobre o consumismo, a vaidade, a futilidade, etc. Você pode ler as loucuras as Becky Bloom da mesma forma que leria sobre um psicopata fazendo coisas de psicopata – “Não aprovo, não sou assim, mas olha que interessante ler alguém assim”. Se você é curioso e refletir faz parte do seu temperamento, não precisa ter medo, nada vai emburrecer você – e você pode rir um pouco, e quem sabe isso possa, sei lá, te fazer bem.

Bom, então acredito nisso, na liberdade de ler o que quiser. Mas acho uma pena, uma pena mesmo, ler sempre o mesmo tipo de coisa.

Primeiro porque o mundo é muito vasto, dinâmico e variado. Uma maternidade pode ficar a poucas quadras de um velório. Num mesmo bairro, pode estar tendo um desfile de moda e pessoas morrendo no setor oncológico de um hospital. A vida é copo meio cheio e meio vazio, é superfície e profundidade, simplicidade e complicação, leveza, dureza – tudo junto.

Segundo porque fanáticos culturais são como fanáticos religiosos – é difícil conversar com eles.

Não vou me estender sobre o fanatismo cultural, porque já falei dele aqui.

Uma observação: estou falando de ficção, mas também vale para não ficção: filósofos que só leem filosofia, cientistas sociais que só leem ciências sociais e, o que é pior, só textos dentro das abordagens com as quais concordam.

Claro, cada um lê o que quiser. E faz muito sentido abrigar as leituras em um terreno conhecido – o que faz com que as pessoas, de modo geral, leiam sempre o mesmo tipo de coisa: autores que escrevem parecido ou sobre os mesmos temas. Mas, para mim, ler sempre a mesma coisa, com as mesmas abordagens, é ficar comodamente preso na zona de conforto, é limitar uma das características mais legais da literatura: seu caráter transformador.

7 comments to “A delícia de ler o que quiser”

Você pode deixar um comentário ou Trackback para esse texto.

  1. Renan Mendes - 29 de março de 2013 at 23:23 Reply

    Que as pessoas desprendam-se da mesmice e abram-se a novas experiências, nem que sejam apenas novos gêneros (rs) literários. Amém.

    Fazia tempo que não voltava aqui. Ainda bem que voltei.

  2. Didi - 1 de abril de 2013 at 12:47 Reply

    Adorei este texto! Deve ser porque ele encontra eco dentro do que penso. Hehe! Mas, de fato, essa rotulagem é irritante. E por que temos medo do que não nos interessa? Por exemplo, fui, uma vez, no Axé Brasil de BH. Eu não curto muito esse tipo de música ou evento, mas como ganhei o convite, decidi fazer uma experiência antropológica e observar o que se passava por lá. Tive boas surpresas! Mas concluí que evitarei porque também tive a chata impressão de que, em razão da bebida, o povo estava sempre querendo brigar. Mas, enfim, façamos os nossos estudos antropológicos com tudo: Axé Brasil, Becky Bloom… e também com o finíssimo Voltaire!

    • Liliane Prata - 1 de abril de 2013 at 14:04 Reply

      É isso aí, Di, ampliar minhas experiências antropológicas é um dos meus lemas! Lembrei de qdo fui a um show sertanejo pelo mesmo motivo (ganhei o convite). Continuo sem gostar muito do gênero, mas foi uma noite ótima.

  3. Luana Furtado - 1 de abril de 2013 at 17:30 Reply

    Como sempre, falou tudo e muito bem falado! Por essas e por outras é que você é uma das minhas escritoras favoritas! =)

  4. clara richardson - 1 de abril de 2013 at 22:19 Reply

    Excelente ideia.

  5. Carolina Estrella - 2 de abril de 2013 at 12:15 Reply

    Oi, Liliane

    Excelente, texto! Você expressou tudo o que eu tenho vontade de falar em algumas palestras que vou de acadêmicos radicais que criticam tanto alguns livros da moda. Concordo com você sobre a liberdade literária. O leitor completo é aquele que lê de tudo sem preconceitos. Claro, sempre tem um gênero que lemos mais, porém encarar vampiros sangrentos quando se é apaixonado por romances femininos é um desafio e tanto. Nós temos que nos desafiar de vez em quando, porque é nesses momentos que aprendemos mais.

    Também sou escritora e estou no mesmo dilema que você. Escrevo livros juvenis, mas do nada uma ideia de livro adulto surgiu e foi escrito.

    Beijos,

    Acompanho seu trabalho desde adolescente! É um prazer conhecer seu espaço na internet 🙂

  6. Isa Maiolino - 16 de abril de 2013 at 14:33 Reply

    Lili, eu tava muitos atrasada nos seus posts, AMEI TODOS! Esse daqui é a sua bandeira, nossa, muito bem escrito (pra variar)… Esse parágrafo é o melhor, me deu vontade de imprimir e colar aqui no meu computador pra lembrar disso sempre, amei: “Primeiro porque o mundo é muito vasto, dinâmico e variado. Uma maternidade pode ficar a poucas quadras de um velório. Num mesmo bairro, pode estar tendo um desfile de moda e pessoas morrendo no setor oncológico de um hospital. A vida é copo meio cheio e meio vazio, é superfície e profundidade, simplicidade e complicação, leveza, dureza – tudo junto.”

    Ainda bem que o mundo é vasto, né?!!!! E ainda bem que o copo tem duas partes e a gente tem a livre escolha de decidir por qual lado sofrer ou curtir…

Deixe uma resposta para Luana Furtado Cancelar resposta

Your email address will not be published.