Extra! Extra! O grande circo bizarro

O apresentador entra no picadeiro. A plateia com os olhos vidrados. É a terceira atração desta noite no tradicional Circo Bizarro. Uma mais impactante do que a outra. O apresentador arma um sorriso e anuncia:

– Agora, com vocês, a incrível mulher-objeto!

Aplausos. Entra a mulher-objeto, de biquíni, desfilando. O apresentador vai narrando:

– São 90 centímetros de busto. 66 centímetros de cintura. 95 centímetros de quadril. 95 centímetros de quadril!

Mais aplausos. A plateia delira. A mulher-objeto dá uma volta e para no centro do picadeiro, de frente para o apresentador.

– Obrigado, mulher-objeto! Mais uma apresentação impressionante. Por favor, dê mais uma voltinha. Isso, assim, obrigado! Ela não é demais, pessoal? Ela é demais.

Nesta noite, a mulher-objeto está séria. O apresentador se vê obrigado a fazer essa observação antes de anunciar o número de dança da mulher-objeto:

– Mulher-objeto, o pessoal da plateia quer saber. Onde está o seu sorriso esta noite?

A mulher-objeto continua séria.

– Pessoal, ela não quer sorrir esta noite! Vamos pedir para a mulher-objeto sorrir?

A plateia inteira começa a gritar em coro: “SorriA!”, “SorriA!”, “SorriA!”

– Hoje, não vou sorrir.

Plateia: “Ooooooh”.

– Essa foi minha última apresentação neste circo.

Plateia: “Ooooooh”. O apresentador olha para os lados. Aquilo não estava no roteiro. Tudo bem. Respire fundo. Improvise. E, principalmente: sorria.

– Mas o que é isso, mulher-objeto! Hoje foi sua última apresentação neste circo? O que você quer dizer com isso?
– Isto: que hoje é minha última apresentação aqui.
– Mas o que está acontecendo?
– Minha assessora depois vai entrar em detalhes. Com licença.

A mulher-objeto se vira para ir embora. A plateia pede: “FicA! FicA!”. O apresentador localiza a assessora da mulher-objeto na primeira fileira. A assessora sobe no picadeiro. Aplausos. O apresentador sorri.

– Assessora, você pode explicar essa situação, por favor?
– A minha cliente não aceita mais ser apresentada como “mulher-objeto”.
– Mas como ela quer ser apresentada, me diga?

A assessora olha para a mulher-objeto. A mulher-objeto se aproxima do microfone.

– Mulher poderosa.
– Mulher poderosa? Isso não faz sentido nenhum.
– Mulher… Qual é o oposto de objeto?

Sopros da plateia. A mulher-objeto volta a falar no microfone:

– Mulher-agente. Mulher-sujeito. Mulher-ação.
– Esses nomes não são nada comerciais – diz o apresentador. – Ou seja, são terríveis.
– Não importa, não quero mais saber de “mulher-objeto”. É machista me chamar assim.

Alguém da plateia grita: “Machista é você se apresentar assim!”. Risos. O espectador que gritou é afastado. O apresentador se dirige à assessora:

– Mas ela não é objeto, mesmo?
– Objeto por quê?
– Ué, ela é objeto do desejo masculino.
– E daí? Você tem seu circo, seu poder, seu dinheiro. É objeto de desejo de várias mulheres e nem por isso é chamado de homem-objeto.

Silêncio na plateia. O apresentador se lembra do circo rival, que não tem um apresentador, mas uma apresentadora. Lá, há o número do homem-objeto, que dirige uma Ferrari pelo picadeiro. É um sucesso. A assessora continua.

– Quando a minha cliente passa, os homens viram o pescoço. Isso é poder.

O traficante invade o picadeiro. Ele não quer mais fazer parte do tradicional grupo de dança “Os marginalizados”. Quer apresentar seu número sozinho e ser apresentado como “homem-poderoso.” Confusão. O traficante sai do palco. A assessora volta a falar. A intelectual grita da plateia:

– Espera, o que é isso? Ela quer ser chamada de superpoderosa? Superpoderosa sou eu, que uso meu cérebro, não meus peitos.

Aplausos. A mulher-objeto pega o microfone:

– Eu uso meus peitos, e daí, por que o seu poder é melhor do que o meu?

Aplausos. A intelectual se exaspera.

– Porque é, ué! O cérebro é superior aos peitos!
– Quem disse?

Confusão. Do fundo da plateia, a gostosa com cérebro está tentando falar, mas é ignorada. Mais confusão.

– Vamos com calma, pessoal! – o apresentador pede, aflito e sorridente. – Essa não é uma polêmica interessante? Qual superpoder vale mais? O do cérebro ou o dos peitos? Quem acha que é o do cérebro, bata palmas. Agora, quem acha que é o dos peitos. Hum… Quem venceu? O que você acha, mulher-objeto?
– Sei lá.
– Sabe lá! A mulher-objeto é tão espontânea. Enquanto ela pensa, vamos chamar a nossa próxima atração. Quem sabe eles podem nos ajudar neste debate? Com vocês, os pós-modernos.

Entram os pós-modernos fazendo seu número: girar em círculos. Nos bastidores, os céticos ensaiam seu número: furar balões. Num canto, a mulher-objeto, a assessora e o apresentador conversam sobre um aumento de cachê. A plateia observa os giros no palco sem se lembrar mais da atração anterior. A intelectual, irritada, pensa em ir embora, mas continua assistindo.

6 comments to “Extra! Extra! O grande circo bizarro”

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  1. Marcia Carini - 25 de novembro de 2012 at 18:08 Reply

    Muito bom, Lili! Imaginei a apresentação silenciosa dos niilistas. E também a Mulher-Marx-Barbada… Beijocas

  2. Didi - 25 de novembro de 2012 at 20:50 Reply

    e a mulher do fundo da platéia… tomara que ela tenha um blog!

  3. Mariana - 27 de dezembro de 2012 at 15:36 Reply

    Oi Lili! Outro dia tava folheando minhas Caprichos antigas e deu uma saudade dos seus textos, eram sempre ótimos, minha parte preferida da revista hehe. Beijos e nunca pare de escrever, você é ótima!

  4. Telles - 5 de fevereiro de 2013 at 11:05 Reply

    Interessante como vc fala sobre os valores da sociedade.

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