A distração de Pedro

Chamava-se Pedro.

Seu corpo era forte, sempre havia sido. Nunca foi criança, nasceu um adulto pequeno, olhos que nunca sorriam, rosto que envelhecia num corpo que esticava e continuava o mesmo. Morava numa cidade pequena, interior de Minas. Sempre levou tudo muito a sério. Os pais, a escola, os deveres de casa, depois o trabalho, a família, e também as ideias, os desejos, o futuro, e também a vida – nada estava ali para brincadeira.

Gostava de sua imagem no espelho.

Nunca foi homem de cuidar da aparência, a barba feita com navalha e sem espuma, cabelo lavado com sabão, pele áspera como os olhos e a voz. Só via seu reflexo por descuido, mas que orgulho tinha daquele reflexo olhado de canto – nele estava um homem. Um homem forte. Um homem oposto a mulher, a bicho e a menino – um homem completo, que se opunha a tudo, não se parecia com nada e era o dono do mundo.

Era um homem que mandava.

Mandava nos na mulher, nos filhos, nos empregados e em si mesmo, principalmente em si mesmo, porque em seus próprios domínios não podia ser nada que não fosse senhor. Era assim que vivia, era assim que se via e que as coisas precisavam ser – ele segurando bem segurado qualquer pessoa que tentasse discordar lá fora e qualquer pensamento que tentasse voar lá dentro.

Tinha ideias duras.

A respeito da mulher, dos filhos, dos empregados, da fazenda, dos bois, do prefeito, do vento, da chuva, da infância, da morte, do tempo, da dor. Ideias tão duras que talvez não pudessem ser chamadas de ideias, mas molduras, molduras invisíveis nas quais ele enfiava à força as coisas que via. Os pensamentos conviviam espremidos, tortos, sufocados. O reflexo no espelho continuava intocado, visto de canto, mas visto como sempre.

E então a esposa morreu. Os filhos casaram e se mudaram. Os pais morreram, os irmãos brigaram. Pedro ficou sozinho.

Os olhos de Pedro continuaram áridos. Lágrimas só nublariam o espelho à sua frente, água só empenaria suas molduras interiores e era melhor seguir com a mesma cabeça sobre o mesmo corpo, o mesmo domínio sobre os mesmos órgãos, o mesmo espírito, os mesmos pensamentos. Era Pedro. Não podia deixar de ser Pedro. E se quisesse? Não queria. E, de qualquer forma, não podia. Não saberia.

Um dia, Pedro se distraiu.

Foi durante um filme. Pedro não via filmes. Os filmes só passavam na frente dele, desimportantes naquela tela longínqua. Mas, nesse dia, ele viu. Entrou no filme e o filme entrou nele. Fundiram-se numa coisa só. E Pedro chorou.

Depois daquele filme, Pedro nunca mais foi o mesmo.

12 comments to “A distração de Pedro”

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  1. Isabella Maiolino - 3 de outubro de 2012 at 15:53 Reply

    Nossa, Lili, foi um dos meus artigos prediletos dos últimos posts! Eu quase chorei! Parece um personagem de filme, ou de livro, um aguém que eu conheço, ou um alguém que eu nunca quero me tornar, sei lá. Foi fundo. Parabéns.

  2. T.K. Pereira - 3 de outubro de 2012 at 17:07 Reply

    Texto instigante. Gostei muito. Gostaria de saber que filme mexeu tanto com Pedro.

    Abraço,
    T.K. Pereira
    http://escribaencapuzado.wordpress.com/
    https://www.facebook.com/escribaencapuzado

  3. Gabe - 3 de outubro de 2012 at 20:36 Reply

    Seus textos me encantam! Quero que o que eu escrevo cause um encanto assim em alguém!

  4. Alice - 4 de outubro de 2012 at 14:25 Reply

    Interessantissimo, Lili. Bacana saber que voce ainda escreve! 🙂

  5. Mical - 3 de novembro de 2012 at 19:38 Reply

    Alguns sorrisos ao longo do texto e no final a reflexão para o dia todo. Muito bom!
    Sempre aqui agora

  6. cristiano - 15 de novembro de 2012 at 14:36 Reply

    Profundo! Um texto curto com uma imensa mensagem.

  7. Telles - 5 de fevereiro de 2013 at 11:23 Reply

    Entendi pq Pedro, ou seja, pedra, mas até as pedras são furadas pelas águas. Lili vc parece gosta e de bater muito nessa teclea do machismo? Ou estou enganado? E o que é melhor para um escritor escrever em 1º pessoa ou em terceira? Para mim acho que em ficção é melhor em 3º.

    • Lili - 5 de fevereiro de 2013 at 11:35 Reply

      Agora meus debates internos já até mudaram de temática, mas não tenho escrito aqui para o blog… Quanto ao foco narrativo, quase todos os meus livros preferidos são em terceira pessoa, mas gosto de escrever em primeira também, depende de como quero contar a história.

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