O patrão e a empregada

Preciso ficar amigo da minha empregada doméstica, ele decidiu, tenso, depois de ler uma reportagem numa revista semanal. Essa questão já o atormentava havia meses. Os tempos eram outros. Agora, pegava mal ter uma empregada e não ser amigo dela. Aliás, pegava mal ter uma empregada – o certo era ter uma funcionária. Uma ajudante. Uma secretária!

Mas, primeiro, ele precisava contratar a tal secretária. Estava decidido a ser amigo dela, mas, por enquanto, não havia “ela”. Só ele, um apartamento de dois quartos, um monte de culpa e uma pilha de louça para lavar.

Pensou bem e decidiu contratar um homem. Contratar uma mulher, nos tempos atuais, podia pegar mal. Por que é mulher que tem que lavar, passar e faxinar? Um homem poderia muito bem realizar essas tarefas. Um homem que não fosse ele, é claro – ele passava o dia no escritório, o que podia fazer? “Você mesmo pode lavar, passar e faxinar nas horas de folga”, uma voz sussurrou em seu ouvido. “É o certo!”, a voz insista. Não, não! Ele já detestava passar oito horas no escritório, ainda tinha que cuidar da casa nas horas restantes? Estava decidido: iria contratar uma empregada. Quer dizer, uma secretária. Ou melhor, um secretário.

Passou semanas procurando. Não achou. No fim, acabou contratando uma senhora chamada Teresa.

Quando chegou do escritório e viu a casa toda brilhando, ele sentiu uma alegria imensa. Teresa não era empregada nem funcionária: era uma santa! Mas espera. Teresa não podia ser santa. Tinha que ser sua amiga. Amiga! Havia se esquecido disso.

Então, quando almoçava em casa, ele decidiu chamar Teresa para comer na mesa da sala com ele. Que alívio! Um patrão vivendo de acordo com seu tempo. Ou melhor, um chefe vivendo de acordo com o seu tempo. Ou melhor, um empregador? Depois ele decidia. Por hora, queria se concentrar nos laços de amizade com aquela senhora/secretária/santa/amiga.

– Teresa, por que você está comendo sozinha na mesa da cozinha, é para eu me sentir culpado? Vem comer na sala comigo, por favor.
– Imagina, pode deixar, estou bem aqui na cozinha…
– Mas eu estou mal! Vem comer comigo, por favor.

Teresa ficou olhando o patrão/empregador/chefe. No fim, os dois se sentaram à mesa da sala.

Mudos.

– Fala da sua vida, Teresa.
– Tenho nada pra falar, não.

E assim os dias se seguiram. Quando almoçava no trabalho, ele fazia o de sempre: dava um jeito de comer sozinho. Não fazia o tipo extrovertido. Tinha poucos amigos e sempre detestou almoçar com algum colega quem não tivesse afinidade. Pesadelo comer sem assunto, um olhando para a cara do outro, constrangido ao tentar enfiar na boca um pedaço mal dimensionado de alface. Comer sozinho é tão bom. Tão tranquilo.

Mas em casa ele não podia, é claro. Em casa, tinha que almoçar com Teresa.

– Teresa, almoça aqui na sala comig…
– Já sei, já sei – e Teresa aparecia na sala de má vontade, prato na mão.

Ele ficou muito desapontado quando soube que, na semana anterior, tinha sido aniversário da filha de Teresa.

– Teve festa? Nem me chamou! – ele protestou.
– Mas vocês nem se conhecem…
– E o que é que tem? Desde quando é preciso conhecer pra ser convidado? Ou ter assunto para almoçar junto?

Teresa suspirou. Da próxima vez, teria que chamá-lo. Ou inventar uma desculpa. Qual?

– Outra coisa – ele disse. – Já vi você usando o banheiro da área de serviço. Não fico confortável com isso. Por que você não pode usar o lavabo, aqui no corredor?
– Ué, mas…
– Aqui em casa não tem essa separação, Teresa! Nem entre mais no banheiro da área de serviço. Vou fechar aquele banheiro. Quero muito que você use o mesmo banheiro que eu, faço questão.
– Tá bom…

Numa quinta-feira à noite, quando chegou do trabalho, ele viu Teresa sentada no sofá, a cara fechada.

– Teresa? Ainda não foi embora?
– Estou pedindo as contas, seu Paulo.
– Como assim? Você quer ir embora? Mas por quê?

Teresa tinha decidido não falar nada, mas virou os olhos e acabou falando.

– Você é muito carente, seu Paulo.

Ele suspirou. Realmente, era isso que estava parecendo. Carência. Ela incomodada, ele perturbado: aquela situação não estava boa para ninguém. Mas não era motivo para que ela fosse embora! Ele ia mudar as coisas.

– Teresa, fique. Vou mudar, você vai ver.
– Sei não…
– Me dá mais uma chance.

Ela deu. No dia seguinte, quando chegou para almoçar, ele entrou em casa decidido a fazer as coisas de um jeito diferente.

– Teresa, fala a verdade pra mim. Você prefere almoçar comigo ou sozinha?
– Sozinha, seu Paulo.
– Eu também prefiro almoçar sozinho. Ótimo. E o banheiro, qual você prefere usar?
– Pode ser o meu, mesmo. Ou o do corredor, tanto faz.
– Então estamos combinados. Cada um almoça sozinho, você usa o banheiro que estiver mais perto.
– Tá bom.

Teresa sorriu, ele sorriu. Ele se sentou na mesa da sala. Teresa o serviu e voltou para a cozinha. Ele olhou seu prato e não conseguiu comer. Entrou na cozinha, Teresa estava almoçando.

– O que é, seu Paulo?
– Você. Vá almoçar na sala. Por favor!
– Mas, seu Paulo, a gente acabou de combinar que…
– Não estou me sentindo bem, não aguento. A gente quer comer sozinho? A gente come. Mas não posso saber que você está comendo aqui na cozinha! Vai almoçar na sala, por favor.

E foi a partir daí que ele começou a almoçar sozinho na mesa da cozinha.

 

2 comments to “O patrão e a empregada”

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  1. Marcela - 9 de setembro de 2012 at 15:19 Reply

    Sempre me divirto com seus textos: são uma deliciosa reflexão sobre essa nossa tão confusa sociedade. Esse não foi diferente. Muito bom! Amei!!

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