Batman X Bergman ou Duelos que não fazem sentido

PRÓLOGO

Não sei você, mas eu, às vezes, tenho a impressão de que somos todos muito parecidos.

Todos nós levamos os dias sofrendo, nos divertindo, sonhando com algumas coisas, nos preocupando com outras. Todos nós gostamos de estar entre pessoas queridas, ter dinheiro suficiente para uma vida confortável, rir, comer nosso prato preferido e não estar gripado.

O comercial de tintura para cabelo diz que cada um de nós é único, mas dificilmente você vai ouvir alguém dizendo que bacana mesmo é ficar doente na cama de um hospital, sem dinheiro e sozinho.

(Digo “dificilmente” em vez de “nunca” porque, bem, tem de tudo neste mundo, sou humano e nada me é estranho, como diria Terêncio, aquele orador romano, se não me falha a Wikipedia memória.)

Os prazeres podem ser diferentes. Os desejos também. Mas só superficialmente. No fundo, todo mundo prefere se sentir bem a se sentir mal. Todo mundo tem medos, desejos, ambições, ressentimentos, dúvidas.

Ah, sim, e uma alimentação saudável beneficia qualquer um, sem distinção. Assim como dormir bem e fazer exercícios físicos. Você pode até não gostar da ideia, mas parece que todo mundo se sente melhor se fizer essas coisas. Todo mundo tem um fígado, um coração. Os nossos órgãos gostam dessas coisas.

Mas aí vêm os livros, os filmes e as músicas.

E as pessoas que gostam de rock se transformam em inimigas dos fãs de sertanejo, quem lê Guimarães Rosa está proibido de pegar um livro do Paulo Coelho e ou se gosta de Lars von Trier ou se vê “E aí, comeu?”

Não sei você, mas eu, às vezes, tenho a impressão de que somos todos muito diferentes.

Fim do prólogo. Início do post propriamente dito.

Já disse aqui como tenho um problema com as patrulhas em geral. Fulano é vegetariano, mas isso não basta, tem que implicar com a coxinha que o amigo está comendo. Não basta ser, tem que converter – até ao ateísmo, se for o caso. Eu não vejo novela, você não pode ver novela, eu fiz parto normal, seu parto tem que ser normal etc. Alias, quando eu estava grávida, fiquei impressionada quando uma vizinha, de quem eu nem sabia o nome, me disse no elevador: “E aí, preparada para o parto normal? Porque vai ser normal, pelo amor de Deus, né?!” Acabou que foi normal mesmo, mas ali, no elevador, quando eu não sabia como seria meu parto e nem quem era aquela vizinha, só consegui olhar para a cara dela e falar: “Hã?”

Quer levantar bandeira, levanta, mas não pode ser uma bandeirinha de papel, bonitinha – tem que ser a pesadona, com mastro e tudo?

Quando falamos de cultura, parece que o simples fato de gostar de alguma coisa vira deixa para um duelo. Observo que, para muitas pessoas, não basta gostar de um tipo de filme, tem que defender esse tipo de filme e criticar ferozmente os outros tipos. A divisão entre filmes de entretenimento/filmes de arte é clássica. Já li entrevista de diretor de filmes comerciais detonando os filmes de arte, já vi quem gosta de filme de arte rindo das “bobagens” de Hollywood.

Já vi gente discutindo sobre filmes com um verdadeiro ÓDIO nos olhos. Tweets exasperados contra determinado gênero literário.

Para mim, essas rivalidades entre tipos de filme/música/livro são criadas sem a menor necessidade. Afinal, qual é o problema da diversidade?

Eu realmente não entendo por que nós, seres complexos e tal, precisamos nos encaixar em, digamos, modelos binários de consumo cultural.

Quer dizer, entender eu até acho que entendo – separar as coisas em grupo A e grupo B simplifica os rótulos, organiza a multidão em grupos, facilita as conversas, os julgamentos, a vida. Mas qual é o problema de consumir um pouco de TUDO?

Vejamos se você concorda com os seguintes pontos:

Uma mesma pessoa pode ver Batman e Bergman

Né? Sem que isso configure uma contradição. Muita gente ou mesmo a própria indústria cultural pode separar os consumidores em nichos, mas o fato é que a mesma pessoa que almoçou salada ontem pode estar a fim de uma lasanha agora, por que não? Só personagens de história em quadrinhos assistem sempre ao mesmo tipo de coisa. E usam sempre a mesma roupa.

Quem só ouve/assiste/lê o mesmo tipo de coisa é limitado

Estou usando a palavra “limitado” no sentido mais puro dela, não de burro/estúpido, ok? É limitado simplesmente porque se limita a ver/assistir/ler algumas coisas num mundo em que existem muitas outras. É difícil conversar sobre fé com um fanático religioso, assim como não é nada fácil falar sobre cultura com um, digamos, fanático cultural – o sujeito que só ouve sertanejo, a menina que só leu chick lit na vida, o adolescente que só lê livro adolescente, o intelectual que só vê filme “sério” e o outro que só vê blockbuster. Sério. Você já leu tudo do Nicholas Sparks, legal, mas não tem a menor curiosidade em ler Ernest Hemingway? E você conhece a fundo a obra de Paul Valéry, mas se recusa a dar uma risada numa comédia blockbuster? Nesse último caso, lembrando: você pode refletir vendo Bergman, mas também pode refletir vendo uma sitcom. Para as pessoas mais reflexivas, até ver alguém fantasiado de frango na Paulista gera reflexão.

Mas essa questão do limite é interessante. Não entendo como alguém pode se limitar por opção. Se você cresceu num vilarejo em que toda música que podia ouvir era o coro da pequena igreja, faz sentido. Mas num mundo com tanta opção, meu Deus!

Você pode não gostar de um gênero, mas pode gostar de um livro/filme/música dentro desse gênero

Eu não gosto de filme de super-herói. Se bem que adorei os três do Homem-Aranha. Não gosto de romance policial. Mas Agosto é um romance policial, certo? E tem um da Agatha Christie que curti. Da mesma forma que podemos não ser fãs de uma determinada pessoa, mas nem por isso precisamos discordar de tudo o que ela diz, podemos não gostar de ópera, mas nos emocionar com uma específica, não podemos? Assim como podemos detestar ouvir Michel Teló quando estamos em casa tomando um vinho e refletindo sobre as angústias da nossa existência, mas podemos gostar de ouvir o mesmo Michel Teló se estamos numa balada.

Você não precisa transformar o entretenimento em arte

Se, para se sentir bem depois de ver Batman, você analisa Batman profundamente, tirando conclusões sobre a condição humana, fazendo paralelos com textos da mitologia grega e refletindo sobre o significado de valores como o bem e o mal nos dias de hoje, saiba que ok, você pode fazer isso se quiser, mas não precisa. Se quiser, você pode só ver Batman e comer pipoca.

Você não precisa ter vergonha do que lê/ouve/assiste

Já vi gente que ENCAPA livro de auto-ajuda para não ser visto lendo auto-ajuda no metrô. Acho isso um pouco triste. Aliás, se o seu medo é ser julgado pelas pessoas (desconhecidas) à sua volta, pense o seguinte: ler auto-ajuda pode ser considerado cafona. Mas uma pessoa que não te conhece, que te viu num determinado dia, numa determinada ocasião, lendo um livro, e SOMENTE A PARTIR DISSO julga você, só pode ser muito limitada. No pior sentido da palavra.

Observação: eu não chego a encapar livro, mas tenho uma certa vergonha de ser vista lendo algumas coisas. Prefiro quando o pessoal do metrô me vê lendo Balzac, fazer o quê? Então vou acrescentar aqui o seguinte ponto:

Se você tem vergonha de ler/ouvir/assistir alguma coisa, faça-o na sua casa

Porque ter vergonha de desconhecidos pode ser triste, mas ter vergonha de si mesmo e deixar de ler/ouvir/assistir coisas que você curte na privacidade do seu lar… É pior do que triste, eu sei, mas que palavra eu ponho? É desesperador? É patético? É doença? É por aí.

4 comments to “Batman X Bergman ou Duelos que não fazem sentido”

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  1. Luana Furtado - 3 de agosto de 2012 at 15:25 Reply

    Adorei o texto… muito bem colocada a sua ideia, Lili!

    Eu também acredito que não há problema nenhum em uma pessoa ler/ouvir/assistir qualquer coisa, desde a mais “cult” até a mais comercial… meu avô dizia que “conhecimento não ocupa espaço”… e, por mais inútil que alguma coisa possa ser, você consumi-la não vai apagar da sua cultura tudo o que você considera bom, pelo contrário, estar informado e conhecer bem todo tipo de filme/livro/música/entre outras coisas gera mais conteúdo, mais poder de crítica, mais conhecimento e, obviamente, mais evolução como ser humano. Você gostar ou não daquilo é outra história. Eu posso ouvir Michel Teló e não gostar ou ler Balzac e não gostar também. Realmente não é isso que me define como pessoa, mas acredito que o fato de estar aberta a ouvir e ler esses dois tipos tão distintos é que mostra quem realmente eu sou.

    A vida está aí pra ser vivida, vivê-la de todas as maneiras possíveis não deveria tornar a pessoa um rótulo.

    Enfim… beijo!!!

    • Lili - 5 de agosto de 2012 at 10:05 Reply

      “Realmente não é isso que me define como pessoa, mas acredito que o fato de estar aberta a ouvir e ler esses dois tipos tão distintos é que mostra quem realmente eu sou.” – me encaixo bem nessa sua frase. Obrigada pelo comentário, Luana!

  2. Didi - 8 de novembro de 2012 at 16:14 Reply

    Ah, Lili!!! Como sempre, uma palavra oportuna, uma conclusão interessante! Algo que a gente sente e você expressa.
    É isso, aí! E daí que eu escuto “Vamu pulá” antes de estudar francês?! Ah, eu não queria que a Sandy separasse do Junior…

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