Seis conclusões sobre o periguetismo (Ou: divagações livres sobre as periguetes)

Quando eu era adolescente, tinha uma vizinha chamada Fabrícia. O maior pesadelo dos meus pais naquela época era que eu ficasse amiga da Fabrícia. Mas esse era um caminho natural – tínhamos a mesma idade, o irmão dela tinha a mesma idade que o meu. Convivemos por alguns anos, o tempo em que fomos vizinhas, e meus pais nunca relaxaram. Vira e mexe, discutíamos por causa dessa amizade. Sabe como é. Fabrícia era uma periguete.

Na época, claro, ninguém usava essa palavra. Diziam que ela tinha “fama no bairro”. Um vizinho um pouco mais, digamos, incisivo, se referia a ela com o clássico “piranha”. O caso é que aos 15, 16 anos, Fabrícia pegava geral. O número de homens impressionava ainda mais que o de reprovações no colégio. Eram garotos mais novos, rapazes mais velhos, homens casados, homens divorciados. Uma rotina muito dinâmica.

O irmão da Fabrícia detestava a fama dela. Os dois viviam brigando. Lembro de um dia, na casa deles, em que ele pediu aos pais que fizessem alguma coisa. Lembro da cara do pai dela dizendo: “eu só queria que ela levasse os estudos a sério”.

Estudos e periguetismo: termos excludentes para muitos, repare. Para ser periguete não basta pegar geral, tem de pegar geral e também não saber os nomes das capitais dos países, nem sempre concordar sujeito e predicado, coisas assim. Tenho uma amiga médica, linda, aliás, que nunca namorou sério. Não começou tão cedo quanto a Fabrícia,  mas, desde a faculdade, sempre se envolveu com muitos homens, solteiros, casados, etc. Cansei de vê-la dormindo na casa de um cara na sexta, na de outro no sábado, saindo para jantar com um terceiro no domingo. Mas isso nunca foi problema na casa dela. Os pais da minha amiga sempre se orgulharam muito dela. Vai ver a palavra “periguete” não se aplica a médicas.

(Parece que também não se aplica a atrizes talentosas, cantoras competentes, enfim, o povo da arte – desde que a artista em questão seja reconhecida, senão não vale, e que a cantora cante MPB, não tecnobrega –, porque aí o “pegar geral”, parece, está associado a toda uma ideologia de amor-livre-Simone-de-Beauvoir e tudo fica muito mais chique).

Claro, tem a questão do dinheiro. Parece que periguete digna do termo, mesmo, além de pegar geral e não ter muito gosto pelos estudos, dá preferência a caras/senhores endinheirados, de preferência empresários ou jogadores de futebol. Uma combinação antiga: eles querem beleza/juventude, elas querem dinheiro/poder, os dois ficam felizes, os chatos reclamam. Ah, estou considerando que a periguete do exemplo empresário/jogador de futebol é bonita. Mas nem toda periguete tem a cara da Ísis Valverde – apesar de todas, ao que me parece, se vestirem mais ou menos como ela na novela.

Assim, temos que as periguetes:

1) Pegam geral
2) Não gostam de ler/estudar
3) Preferem caras/senhores com dinheiro
4) Podem ou não ser bonitas
5) Têm apreço por roupas periguetísticas

Até aí, se vocês concordarem comigo, parece que a utilização do termo “periguete” é mais ou menos clara. Já não é tão clara a associação entre periguetismo e nudez. Aliás, a moral que rege a nudez no Brasil é meio confusa, não? Noto a existência das seguintes regras:

1) Posar nua para a Playboy: não é nada de mais, atrizes competentes o fazem etc.
2) Posar nua para a Sexy: lama.
3) Desfile das angels da Victoria Secrets: bacana.
4) Desfiles de lingerie na Luciana Gimenez: lama.
5) Rebolar de biquíni em programas de TV: lama. Essas mulheres são muitas vezes confundidas com garotas de programa etc.
6) Fazer programa: radicalmente diferente de rebolar de biquíni em programas de TV, na opinião de Lívia Andrade. Atividades muito semelhantes, na opinião de quem procura dançarinas para fazer programa.
7) Fazer filme pornô: lama total (note que ver filme pornô: tudo bem).
8)  Pegar geral, não gostar de ler/estudar, gostar de caras/senhores com dinheiro, ser ou não bonita, ter apreço por roupas periguetísticas e ter feito, digamos, mais de 3 itens desta lista, de preferência sendo também ex-BBB: periguete em grau máximo.
7) Posar nua para pintores e artistas plásticos: não tem nada a ver com isso.

Agora, vamos à questão metafísica fundamental: é errado ser periguete? Ou não é nada de mais?

É agora que divido com vocês minhas conclusões pessoais sobre o periguetismo, depois de ter passado o dia pensando nessa questão :

1) Ou se é moralista ou se é relativista – não há meio termo;
2) Eu tento achar um meio termo entre o moralismo e o relativismo;
3) Geralmente, o moralista tem medo de parecer religioso, pois ser religioso hoje é terrível, e prefere não criticar o periguetismo;
4) Geralmente, o relativista que apoia a liberdade das periguetes não gostaria que a filha/mãe/irmã deles fosse uma;
5) Muitas feministas tentam achar um lugar mágico onde o periguetismo é condenado, mas o direito de as mulheres agirem como elas bem entenderem é respeitado;
6) As periguetes, normalmente, não participam deste debate.

12 comments to “Seis conclusões sobre o periguetismo (Ou: divagações livres sobre as periguetes)”

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  1. Didi - 6 de junho de 2012 at 23:02 Reply

    E a Fabrícia? Ainda se falam?

  2. DanisohDani - 15 de junho de 2012 at 10:28 Reply

    Saudades dos seus textos, Lili, fazia tempo que não vinha aqui!!

    Ri muito com este como sempre e adorei as suas reflexões!!

    Vou lançar mais uma que eu e meus amigos estávamos discutindo outro dia: o que faz as periguetes não sentirem frio??? =P

    bjokas

  3. Camila Oliveira - 15 de junho de 2012 at 19:08 Reply

    Hahahaha, adorei! Fazia um bom tempo que não me deliciava com um texto assim!

  4. Maria Lis - 27 de julho de 2012 at 6:49 Reply

    Muito tempo que eu não passava por aqui! Adorei demais esse texto.
    Eu sou/fui periguete. Nao comecei cedo como a Fabrícia, aos 15 anos ainda brincava de Barbie, comecei anos mais tarde, quando eu e meu marido (!) demos um break no casamento. Nao, eu não procurei homens ricos e mais velhos, sim, eu sei conjugar corretamente os verbos. O que fazia de mim uma periguete? Ué, como tua amiga médica, um dia dormia com um, outro dia com outro, etc.
    É um estilo de vida, eu particularmente fazia isso porque eu gostava, se eu me sentia atraída por uma pessoa, eu ia lá transava e pronto.
    Hoje em dia voltei com meu marido, já não saio “dando” por aí e por enquanto sou feliz. Quando meu alter ego periguete voltar a aparecer, se voltar a aparecer, eu decido o que fazer.
    Mas eu sei, que apesar de ter ensino superior, e saber conjugar os verbos corretamente, não sou diferente dessas que saem atrás de sexo fácil. 🙂

  5. Daniel Couto Vale - 6 de agosto de 2012 at 18:07 Reply

    Oi Lili!!!! Que saudade!

    Quanto às periguetes, eu sou do grupo de quem deseja o bem de todos. Repetindo jargões da modernidade, a dignidade de um ser humano é um direito humano e não um merecimento.

    Beijo,
    Daniel.

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