Nossa alegria ou um lapso, um esquecimento

Se eu fosse uma índia brasileira no século 15, se eu fosse um bandeirante alguns séculos depois, se eu fosse um comerciante na idade média, se eu fosse um artesão na China imperial, então a minha alegria seria simples, seria localizada, seria uma conseqüência natural de um dia bom.

Fico pensando no que é um dia bom para uma índia brasileira no século 15, um bandeirante, um comerciante medieval, um artesão chinês. Nos meus devaneios embaixo do chuveiro, nas caminhadas pelo meu bairro, o dia bom deles é um dia em que a doença do meu filho melhorou, em que voltaram com uma bela caça, encontrei ouro, fiz um bom negócio.

Deitada no sofá, imagino o dia ruim deles. Um dia ruim pode ser apenas um dia em que não choveu. Também pode ser um dia terrível, porque um dia terrível é terrível em todas as épocas, porque minha tribo pode ter sofrido um ataque, porque vi mortos e feridos, fui roubado, um parente morreu de doença, tanta coisa.

Mas essa coisa é localizada. A dor é localizada, a dor está no meu ombro, no meu entorno, está perto de mim, assim como estão as minhas alegrias. Porque a índia brasileira do século 15, o bandeirante, o comerciante, o artesão, eles não vêem Globo News, não sabem o que é CNN, não lêem a Folha enquanto passam manteiga no seu pão no café da manhã, não entram na home do Estadão.

A moça mais bela do mundo é a filha do cacique, não é a capa da revista People. Exemplo de coragem é um guerreiro de quem ouvi falar pelos meus pais e avós, não o surfista australiano que vi num vídeo no YouTube. As coisas acontecem não longe, mas ao meu lado; se não há terremoto na região onde vivo, então não há terremotos, e a alegria, quando existe, ah, a alegria é desinteressada, é simples, é localizada, mais fácil. No meu banho, no meu sofá, a alegria deles é apenas uma coisa boa de se sentir. E a minha alegria? A minha alegria é diferente.

Basta ler algumas notícias, basta saber de algumas coisas, basta se informar pelas estatísticas: ah, as estatísticas! Graças a elas, meu conhecimento não se reduz ao que se passa na minha casa, com meu marido, minha filha e meu sofá: graças a elas, sei que, nas duas horas em que passei numa sala de cinema, cerca de 110 pessoas morreram assassinadas no mundo. Graças a elas, tenho ideia de quantos estupros ocorrem diariamente no Brasil e nos outros países, quantos atropelamentos, desaparecimentos, diagnósticos de câncer, vítimas de AIDS, de tuberculose, de apedrejamento, de furacão, de terremoto, de tortura. Não sei apenas o que acontece na minha casa, com minha família e meus amigos, mas com as famílias e os amigos dos outros, do meu país e de todos os outros países, sei de pais que espancam seus filhos, li sobre pessoas perdendo seus membros em minas terrestres, vi fotos de feridos em guerras, em tantas guerras, em muito mais guerras do que deveriam caber na minha vida.

Como ficar feliz hoje, sabendo que há tanta tristeza?

Talvez seja impossível definir qualquer sentimento, mas talvez seja fácil definir a alegria de hoje, a alegria da modernidade, a alegria da era da informação: a nossa alegria é um lapso, um esquecimento.

Por alguns breves instantes, esquecemos os famintos, as vítimas de estupro, os furacões, as crianças doentes, e sorrimos com a gracinha do nosso filho, e saboreamos uma xícara de cappuccino, e botamos a conversa em dia com uma amiga, e rimos de alguma bobagem na TV.

A índia, o comerciante medieval – para se sentir alegres, eles precisavam se esquecer dos eventos ruins que tinham acontecido no dia anterior, na semana anterior, no ano anterior; eles precisavam apenas se esquecer do passado, enquanto nós lutamos para esquecer o presente.

Fico pensando se toda alegria hoje é uma forma de alienação, se eu simplesmente não deveria me sentir alegre nunca, se eu deveria fazer mais, muito mais do que eu faço, mas o quê? Fico pensando se toda alegria é uma ignorância egoísta ou uma fuga desesperada desse todo caótico, uma corrida pela vida, pela minha própria vida, uma corrida para o meu universo particular.

Nos meus banhos, no meu sofá, tento lembrar que há dois universos, o lá de fora e o aqui dentro de mim, e o de dentro de mim precisa às vezes esquecer as estatísticas, precisa desligar a Globo News, precisa de paz, de alegria, nem que seja dessa alegria de hoje, essa alegria do esquecimento, da fuga, do lapso, nem que essa alegria seja ignorante, individualista, talvez mesquinha – preciso dela para respirar.

E talvez não seja só eu que precise dessa alegria, desse lapso, talvez precisemos todos, eu, você e também as vítimas das mais tristes estatísticas, o menino que perdeu uma perna e agora joga futebol usando uma prótese, a menina que foi violentada e um dia conseguiu tomar um sorvete, dançar, rir de uma piada, quem sabe planejar uma festa de aniversário. Todos nós precisamos esquecer.

A vida sem esquecimentos é dura demais, para nós e para eles. É mais dura do que podemos suportar. Se temos mais informação hoje, penso eu no meu sofá, temos também mais necessidade desses lapsos, dessas alienações, que seja.

Temos de dar conta do fato de não darmos conta de tanta tristeza, simplesmente. De o conteúdo da CNN ser vasto demais para o nosso coração. Temos de arranjar uma permissão interna para saborear nosso chá por alguns minutos. Uma pausa para rir. Para aceitar que nosso poder individual é pouco para a grandeza da dor mundial. Para nos lembrar não só das centenas de assassinatos e estupros por dia, mas também dos nascimentos e das relações sexuais prazerosamente consentidas, e dos abraços,  cafunés e reencontros de todo tipo. Para nos contentar em fazer o que está ao nosso alcance pelo universo dos outros. Alguns fazem mais, outros menos, e todos nós sentimos muito, e respiramos fundo, e nos esforçamos para conservar alguma esperança e também para pedir licença e nos refugiar por alguns instantes dentro de nós mesmos, da nossa família, dos nossos sonhos, do nosso caos interior.

18 comments to “Nossa alegria ou um lapso, um esquecimento”

Você pode deixar um comentário ou Trackback para esse texto.

  1. Giulia - 29 de setembro de 2011 at 12:44 Reply

    Sempre adoro seus textos. Quase sempre me identifico com a linha de raciocínio =)
    Você é uma ótima escritora. Porque você escreveu “pra mim” quando eu tinha 13, 14 anos e você ainda escreve “pra mim” – agora com vinte e poucos (que egoísmo, hehe).
    E esse, em particular, é um texto tocante e real. Parabéns!

  2. Mari - 29 de setembro de 2011 at 13:31 Reply

    Por isso q dizem que ignorância é felicidade.

  3. Kris Arruda - 29 de setembro de 2011 at 15:12 Reply

    A aceitação de nossa impotência nos liberta. Como vc bem observou. No fundo, no fundo, o mundo que importa é o nosso. O lá de fora é paisagem. Como se fosse uma outra galáxia que está entrando em colapso. Está longe, vc não tem como fazer nada a respeito, a não ser que desista de sua própria. Se ela explodir e vier pra cá, bem, aí ela se tornou parte do seu mundo.

    Não é pq te contaram um problema que vc é responsável por ele ou tenha que simpatizar por quem está o enfrentando. Pois na real a gente não consegue. O pai de um amigo morre, vc fica mal, mas no dia seguinte está se divertindo como nunca, e ele está lá sofrendo. E vice-versa.

    O mundo não se importa se vc está triste ou não, o mais lógico é controlar essa ânsia de que todas as pessoas no mundo tem de estar felizes.

    • Lili - 29 de setembro de 2011 at 15:46 Reply

      Me esforço para ter essa visão pragmática que vc parece ter. “A aceitação de nossa impotência nos liberta” – é isso. Num período da minha vida, cheguei a passar meses amargurada, triste mesmo, com as mazelas do mundo, desse mundo de estranhos, de estatísticas, desse mundo dos outros. Não foi nada construtivo, mas foi inevitável. Às vezes, é difícil controlar nosso envolvimento emocional com as dores alheias. Depois que me tornei mãe, me sinto meio envolvida com todas as crianças, e se fico sabendo de uma tragédia na vida de uma delas não consigo curtir minha filha, não consigo aproveitá-la nem aproveitar nada. Tento esquecer, tento ficar alegre. Porque, como vc disse, “o mundo não se importa se vc está triste ou não”.

  4. Camila Oliveira - 30 de setembro de 2011 at 16:24 Reply

    Mas e se ninguém se importar? E se ninguém tomar uma atitude? Nem que seja pra fazer a diferença! Muitas crianças que sofrem maus-tratos , são salvas por que um vizinho que teve a coragem de denunciar a cruel mãe. Se não fosse esse vizinho, talvez aquelas crianças tivessem sofrendo até hoje. Então? não devemos nunca nos importar?

    É nessa questão que eu me peguei aflita, após ler o texto e os comentários! :s

    • Lili - 30 de setembro de 2011 at 19:38 Reply

      Concordo totalmente, Camila! Podemos fazer alguma coisa, e às vezes muito, pela vida de algumas pessoas. Sempre aparecem oportunidades para ajudarmos. Acho que eu disse isso em alguma parte do texto, de fazermos o que está ao nosso alcance. Mas tem razão, pelo meu comentário abaixo ficou parecendo que não pretendo fazer nada. Eu estava me referindo (no comentário) ao envolvimento emocional, ou pelo menos ao exagero dele…

  5. Suzana Machado - 5 de outubro de 2011 at 18:34 Reply

    Perfeitamente Belo.. Belíssimo texto… Amei. Parabéns!!

  6. bárbara - 28 de outubro de 2011 at 23:38 Reply

    Vc não tem a mínima noção da felicidade que fico quando entro no blog e vejo um texto novo! Faz muita falta aquela epóca que postava direto! Não é cobrança não, imagino a correria do dia a dia, apenas um comentário só pra vc saber que realmente amooo seus textos! Agora com a sua familia formada, além dos seus pais e seu irmão, vc deve ter muiiitas histórias rsrsrsrs Um grande beijooooo.

  7. Carol Lima - 7 de novembro de 2011 at 17:33 Reply

    Adoooro seus textos ! E vou sentir falta da sua coluna na capricho 🙁 mas tudo bem , não vou deixar de acompanhar seu trabalho ! Beeeijos

  8. Ellen - 15 de novembro de 2011 at 16:17 Reply

    Ai, que engraçado. Não o texto, mas a minha surpresa. Estou acostumada a ler Capricho, na qual você ‘divide’ a coluna com a Meg Cabot. Apesar de ter quase todos os livros dela, eu ainda prefiro as edições que você escreve. E eu tenho todos os seus livros e ainda fui numa peça de teatro que adaptaram: ‘O Diário de Débora’.
    Enfim, sou sua fã. E bem, eu costumava acessar seublog antigo – beeem antigo. Era aquele que o fundo era você segurando uma caneca! E eu assistia alguns vídeos que você fazia. Ah, enfim..
    A surpresa foi que eu normalmente me identifico e divirto com linhas de raciocinios bem menos críticas do que essa, mas aqui estou eu, lendo algo completamente diferente do que li seu e adorando.
    Mas eu tenho que comentar: talvez você esteja certa e a alegria seja mesmo uma forma de alienação, mas eu não vejo dessa forma. Considero alienação tudo aquilo que as pessoas que fixam pra ‘fugir’ da realidade, mas a alegria, momentanea ou não, é a realidade da pessoa. Diferente dos fanáticos religiosos, ou futebolisticos.. Se concentrar em uma coisa só e esquecer de todo resto de parece alienação. Ficar alegre só parece que está vivendo o momento. Confuso? Er.. acho que tenho que começar a organizar melhor meus pensamentos.

    ps: eu tenho uma amiga, a Beatriz Brangioni, ela te curtiu no facebook, mas pareceu que sua página lá está um pouco abandonada hahahaha Bem, ela é muuito sua fã e quando – e se – você tiver um tempinho, responde algum email dela, ela piraria. bmb_308@hotmail.com

    • Lili - 17 de novembro de 2011 at 10:21 Reply

      Oi, Ellen! Fico sempre emocionada quando encontro uma leitora da Capricho que acompanha meus textos assim. Nesse dia em que escrevi este post, eu estava bem pessimista, desanimada etc. De modo geral, tento ver da forma como vc colocou a questão da alegria, se entendi bem. Não como alienação, mas como um desfrutar da nossa realidade, do nosso momento. Nem sempre é fácil fazer isso, mas…
      Ah, e realmente não costumo entrar no facebook. Tô mandando um e-mail para sua amiga! Beijo.

  9. Vanessa - 16 de novembro de 2011 at 16:24 Reply

    Liliane, legal o seu artigo. Mas acho que suas produções são mais a sua cara quando são bem humoradas, mais leves, espontâneas, mais divertidas. Com um quê de jovialidade. Há alguns anos, eu lia o seu blog sobre acontecimentos diários e quase morria de rir, gostava muito. Já essa sua nova linha de pensamento não me atraiu muito.

    • Lili - 17 de novembro de 2011 at 10:17 Reply

      Ando querendo escrever textos engraçados, naquele estilo, mas não tem saído nada. Não sobre meus acontecimentos diários, pq de falar disso eu realmente cansei. Mas, enfim, logo mais, espero postar mais textos leves e bem-humorados aqui 😉

  10. Danilo - 15 de dezembro de 2011 at 21:36 Reply

    Muito interessante seu texto. No entanto, um dos maiores poderes que temos é o da escolha, e escolher não se envolver com toda essa desinformação é só isso, uma escolha. Ninguém vai morrer por causa disso. Acredito que um mundo mais alegre é construído de pecinha em pecinha, e nós somos cada uma delas. Cada pessoa é responsável por si mesma, e só. E note que eu usei alegre, e não feliz. Porque no fundo, para se sentir bem, não precisamos de uma razão, basta ser.

  11. Tammy Damasio - 24 de janeiro de 2012 at 13:44 Reply

    Há um tempo atrás eu me indagava e chorava amargamente por estar feliz enquanto outros sofriam. Logo, ficava triste. A tristeza me consumia e eu precisava reagir logo. Tornei-me egoísta. Foi necessário, inevitável. Comecei a pensar que independente do sofrimento alheio, das catástrofes, dos assédios sexuais, da fome, da desigualdade, enfim, de todo o mal que rodeia o mundo, o meu inferno era particular. Só eu sabia o quanto estava sofrendo e ninguém poderia sentir minhas dores. Piores ou não que a dos outros, aquela dor era minha, eu estava a sentindo. Enquanto a dos outros eu somente assistia. Por muito tempo pensei que não adiantava saber de todas as coias ruins do mundo sentada em meu sofá, sofrer por aquilo, se eu não me movia na direção de ajudar.
    E foi exatamente nesse ponto que cheguei a uma conclusão parecida com a sua: eu preciso ser feliz, independente do que acontece lá fora. Se eu não for, estarei sendo ingrata por ter motivos para sorrir. Eu posso sofrer, independente das tragédias, pois cada um sabe os motivos de suas próprias dores. Mas eu jamais posso deixar de estender a mão, fechar-me nos meus prazeres, sabendo que ao lado há alguém que sofre.
    É o que eu penso!

    Amei encontrar reflexões profundas por aqui…
    Mas, confesso, também sinto saudade do seu humor peculiar!

Deixe uma resposta para Ellen Cancelar resposta

Your email address will not be published.