Não quero confusão

Estava casado havia quase uma década. Sempre tinha sido fiel.

A mulher sabia que ele sempre tinha sido fiel. Num mundo louco como este, em que as pessoas não dão valor a nada, encontrei um homem de princípios, ela gostava de pensar. Um homem íntegro. De valores sólidos. Moral bem constituída.

Ciumenta no início, Isabel foi ficando cada vez mais tranqüila com o passar dos anos. Tranquilidade: era isso que o marido passava. E que ela fazia questão de comentar com as amigas, com a mãe, com a sogra, geralmente acrescentando a frase:

– Fabiano é o melhor marido do mundo.

Ou:

– Aqui em casa, não posso reclamar de nada.

Certa vez, num almoço com as amigas, o tema apareceu. Fidelidade: esse tema costuma aparecer. Uma das amigas estava inconsolável. Depois de anos de união, descobriu que o marido, executivo, tinha um caso com a secretária. Ameaçou deixá-lo. Não precisou: ele a deixou primeiro.

Isabel sentiu pena da amiga, mas seus olhos brilharam. Fabiano nunca faria isso. Afinal, Fabiano era um cara que dava valor à família. Que sabia que trair era errado. Que jamais seria capaz de uma coisa dessas.

É importante frisar que Fabiano nunca havia discursado sobre o valor da família. Ou sobre o erro que é trair. Ou sobre ser capaz de uma coisa dessas. Fabiano apenas era fiel. E é aí que reside o problema.

Um dia, depois do expediente, Fabiano recebeu em casa alguns colegas do trabalho. Isabel se juntou a eles. Todos conversavam animadamente, até que um colega, querendo ser simpático, disse:

– Seu marido é um santo. Todo mundo é louco pela estagiária, mas seu marido nem vê a moça passar.

Como sempre ocorria nessas horas, os olhos de Isabel brilharam. E então veio o fatídico comentário de Fabiano, que assentiu com a cabeça, sorriu e disse:

– Não quero confusão aqui em casa.

Isabel franziu as sobrancelhas. Não quero confusão aqui em casa: era esse o fundamento da sólida base moral do marido?

Claro que não, pensou ela. Aquele era apenas um bate-papo com os colegas de trabalho. Estavam em casa, mas a conversa era de bar. Fabiano veio com essa porque o contexto não era de reflexões demoradas. É claro que ele já havia se dedicado a pensar sobre fidelidade. É óbvio que sua postura fiel era resultado de uma longa reflexão. Longa reflexão que deu a ele as seguintes certezas: era preciso dar valor à família. Trair era errado. E ele jamais seria capaz de uma coisa dessas. Certo?

– Não quero confusão aqui em casa – Fabiano repetiu, quando os colegas foram embora e Isabel perguntou por que ele era fiel havia quase dez anos.

– Já entendi essa parte. Mas a questão é: o que o leva a não querer confusão aqui em casa?

Agora quem franziu as sobrancelhas foi ele.

– Está tudo sossegado aqui em casa, ué. Para que vou arrumar problema?

Ela já ia discutir, mas acabou suspirando e deixando para lá. No fim das contas, pensou, talvez fosse melhor mesmo não arrumar confusão em casa.

20 comments to “Não quero confusão”

Você pode deixar um comentário ou Trackback para esse texto.

  1. Camila Oliveira - 11 de abril de 2011 at 11:34 Reply

    Lili,
    legal o texto, adoro sempre…
    Mas como tá o seu baby? nme sabia que ele tinha nascido, é ele ou ela? hahaha

    bjs :*

  2. Marcela Pedrosa - 11 de abril de 2011 at 12:45 Reply

    Que texto bom!, que saudade.
    Acho que atitudes honestas devem ser acompanhadas de motivações positivas. Não fazer algo só porque outros acham que é errados é convardia, temos que acreditar tambem e agir de acordo com valores bem fundamentados.
    bjs para você e o bebê.

  3. Malú - 12 de abril de 2011 at 19:52 Reply

    Ah que texto maravilhoso! Realmente nos faz pensar, que atitudes principalmente em relacionamentos à dois, não devem ser motivadas por “medo de uma discussão” mas sim pelo respeito ao próximo, e até mesmo aos seus princípios, do que valeria boas intenções se elas se baseiam no medo de enfrentar a reação do companheiro.
    Crônica maravilhosa Lili, assim como todo o seu trabalho.
    Beijos.

  4. Tamyres - 13 de abril de 2011 at 18:09 Reply

    LiLi…. parabéns pelo blog adorei…
    🙂 me inspiro no seu jeito de escrever para poder fazer meus textos e artigos para escola…

  5. NathyBm - 16 de abril de 2011 at 21:13 Reply

    Amo seus textos, voc^é uma das minhas grandes inspirações para continuar a escrever!
    🙂

  6. Bianca Balbueno - 19 de abril de 2011 at 15:23 Reply

    Já faz um tempo que acompanho seu blog e ADORO seus textos!

    Beijos.

  7. Valentine Fontanella - 7 de maio de 2011 at 23:11 Reply

    Adoro seus textos, Liliane.
    Parabéns 🙂

  8. Polyana - 18 de maio de 2011 at 12:02 Reply

    Lili, muito bom o seu texto, como todos os outros, né?! rsrs… Você escreve muito bem, amo ler os seus textos, parabéns! Mas já estou com saudades, faz tanto tempo que você não escreve mais…
    Enfim, que Deus te abençoe nessa nova fase da sua vida como mamãe, desejo tudo de bom pra você e pra Valentina! (Lindo nome, por sinal! rsrs…)
    Beijos.

  9. Poly - 19 de maio de 2011 at 22:55 Reply

    Lili, ameei o seu texto, assim como todos os outros! rsrs… Você escreve muito bem, amo ler os seus textos, eles são muito bons, parabéns!
    Só que já estou com saudades, faz tanto tempo que você não escreve mais…
    Enfim, que Deus te abençoe nessa nova fase da sua vida como mamãe, desejo tudo de bom pra você e pra Valentina! (Lindo nome, por sinal! rsrs…)
    Beijos.

  10. Giselle Rayane - 17 de junho de 2011 at 14:20 Reply

    Num mundo totalmente confuso, melhor evitar mais confusões mesmo! (:

  11. Mayara Morales - 3 de julho de 2011 at 16:34 Reply

    Simplesmente lindo o texto,mas no final eu fiquei com a sensação que Isabel não queria confusão em casa tanto quanto o marido.O medo dela ser traída ou de alguma maneira a fidelidade do marido ser questionada,Isabel preferiu ficar quieta mesmo estando confusa com a atitude do marido diante dos colegas de trabalho.
    E eu achei lindo o nome que escolheu para sua filha.

  12. Thiago - 11 de julho de 2011 at 2:34 Reply

    A 7 ou 8 anos atrás, eu estava na faculdade, morava sozinho em SP e seu blog pautava minha vida e minha visão sobre as mulheres do meu tempo. Depois de tanto tempo, hoje eu volto aqui, te encontro casada, com uma filha, e percebo que nos últimos anos, perdi a oportunidade de ler de graça os texto de quem será, sem dúvidas, uma das maiores escritoras deste século… prometo dar o devido valor à esta oportunidade, e não perdê-la nunca mais!!! Parabéns pela carreira, pelo sucesso, e pela vida em geral!!!

  13. Dandara Gomes - 7 de agosto de 2011 at 12:45 Reply

    É realmente melhor evitar discussões. Mas reprimir o que pensa pra evita-las nunca é bom… Aí a duvida: fala o que pensa ou deixa quieto? haha Adorei o texto! 🙂

  14. Camila Oliveira - 11 de agosto de 2011 at 18:53 Reply

    Lili,
    esperamos por um novo post aqui no blog!
    rsrsrs… anda sem tempo, né?

    Bjocas :*

  15. gabriel - 23 de setembro de 2011 at 11:48 Reply

    Acho que atitudes honestas devem ser acompanhadas de motivações positivas.

Deixe uma resposta para Mayara Morales Cancelar resposta

Your email address will not be published.