O salmão, os defeitos do nosso ex e os povos africanos

– Salmão está ótimo! – Beth ouviu a filha falando pelo celular.

Ela arregalou os olhos. Letícia jantaria na casa do pai naquele sábado. Mas desde quando Jorge comia salmão?

– Seu pai nunca gostou de salmão na vida – Beth disse, assim que Letícia desligou o telefone. Olhar de quem sabe das coisas. – Aliás, de peixe nenhum. Sempre torcia o nariz quando eu fazia peixe.

Agora foi Letícia que arregalou os olhos. O pai não havia feito uma moqueca no fim de semana anterior?

– Ué, papai adora peixe.
– Rá! Como se eu não conhecesse seu pai!
– Mas é verdade! Ele até comprou uma grelha especial para assar os peixes que traz da pescaria.
– Pescar? Seu pai?!

Vamos esclarecer os fatos: Jorge começou a comer peixe com certa frequência em 1998. Mas o divórcio foi em 1994. Beth registrou na memória: Jorge não come peixe.

E nada a convence do contrário.

Mania estranha essa das pessoas congelarem as manias das outras pessoas. Outro dia, conversando com uma velha amiga sobre o assunto qualquer, dei minha opinião. Ela se espantou:

– Como assim? Naquele jantar em 2007, você tinha dito o oposto!
– Pois é… em 2007.

Não adianta: as pessoas podem passar os anos tendo aula de francês, aprendendo a fazer sushi, acampando, substituindo a coleção de latas por moedas antigas… e continuarem achando que, enquanto elas estavam fazendo tudo isso, os outros estavam parados, sempre na mesma – exatamente como da última vez que se encontraram.

Não são só os hábitos mais superficiais dos outros que a gente costuma congelar: aquelas características profundamente arraigadas na psique do ser humano nunca se alteram. Jamais. Pelo menos, para o ex-namorado desse ser humano.

– A Joana casou? E teve filho?? E se mudou de cidade para ficar mais perto dos pais???

Isso foi há umas duas semanas. Eu estava almoçando com um amigo quando ele recebeu novidades da Joana pelo celular, por uma amiga em comum. Joana é uma ex que quebrou o coração dele. Egoísta, imatura, era solteira convicta, não parava em nenhum relacionamento, traía todo mundo e não levava nada a sério – na versão do meu amigo. Isso, claro, quando eles namoraram – coisa de sete, oito anos atrás.

– Ela pode ter mudado – argumentei.
– Mudado! Típico de você falar isso!

O que eu acho mais interessante é que, quando uma pessoa A deu um fora em uma pessoa B, mas um fora bem terrível, cruel, desses que não arrancaram o sangue da pessoa B, mas que com certeza roubaram alguns quilos dela… Não adianta: a pessoa A sempre vai achar que a B, no fundo, ainda paga pau para ela. Sempre.

Aquela que levou o fora já recuperou os quilos perdidos e ganhou outros, já protagonizou vários foras e inclusive está casada, com três filhos e morando em Nice. Mas, se o ex malvado aparecer no seu caminho… Ah, aquele ser que outrora se desmanchou em lágrimas iria se desestabilizar no ato. Ô se iria! Pelo menos, na cabeça do ex-malvado.

Aliás, ultimamente, esse ex-malvado pode estar um doce, vai saber. Isso, quando é ex de outra pessoa, né. Os meus ex não mudam.

De qualquer forma, não são só casais desfeitos que congelam o jeito de ser/de vestir/de comer/de cruzar as pernas do ex. Casais que estão juntos fazem isso. Pode reparar. Quando você conheceu seu marido, ele tinha uma amiga chamada Carla e gostava de jogar futebol com o pessoal às quartas-feiras. Você levava tudo na boa. Ocorre que, depois de algum tempo, ele passou a ter uma amiga chamada Marcela e começou a jogar squash às quintas. Pânico! Discussão! Afinal, quem ele pensa que é para… espera… quem ele é mesmo?

Por isso, fazer novos amigos costuma ser uma tarefa complexa depois que você está com alguém. Porque é fácil a pessoa aceitar a turma que você já tinha quando vocês se conheceram. Mas como explicar que a vida continua e que, bem, você conhece novas pessoas? Apresentar um novo amigo do sexo oposto, então, é pedir para ser expulso de casa. “Como assim, agora você me fala desse Ígor que conheceu no MBA? Quem esse cara pensa que é? Ele não sabe que você é casada?”

Sugestão amiga: quando começar a sair com alguém, faça um inventário de todos os amigos que você tem e invente alguns nomes para colocar no meio. Mostre a lista para a pessoa amada. Se possível, peça que ela assine. Apareceu uma pessoa nova na sua vida? Mostre a lista: “Você não entendeu, nós nos reencontramos no MBA, a gente já se conhecia”.

Ok, esqueça essa lista idiota. Mais prático levantar suspeitas de que esse Ígor que você conheceu é meio gay. Quase sempre acalma os ânimos.

Só mais uma coisa: li Comer, Rezar, Amar e gostei muito, como disse no post anterior. Mas me lembrei agora da autora falando sobre os balineses.

Ela estava encantada com a Indonésia, e, ao descrever o estilo de vida dos balineses, usou uma maneira bem estática, com frases do tipo: “os balineses gostam de isso”, “os balineses odeiam isso”, “se você for a Bali, lembre-se de que um balinês nunca faria isso ou isso”.

Me lembrou um pouco aqueles livros de antropologia antigos, como os clássicos Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande, do Evans-Pritchard, ou A Vida Sexual dos Selvagens, do Malinowski. Os azande são assim e assado. Os selvagens nunca, jamais, de jeito nenhum fariam uma coisa dessas.

Vai ver é isso. Vai ver Nova York e Londres estão num processo de mudança contínua, que vai do comportamento das pessoas à moda, passando pelo clima e pela comida, enquanto os balineses e os azande estão lá, parados no tempo. Na mesma bolha em que estão presos nossos ex, nossos amigos de infância, o síndico do prédio em que a gente morava, o político que falou aquela bobagem, o blogueiro que postou aquele absurdo, o sociólogo que pisou na bola naquela entrevista.

Esses continuam pensando e fazendo as mesmas besteiras de sempre, enquanto a gente está aqui, indo para o alto e avante.

Ou vai ver todos nós, eu e você, somos prepotentes ao extremo… Quer dizer, só você. Eu, não.

33 comments to “O salmão, os defeitos do nosso ex e os povos africanos”

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  1. Isabella - 3 de dezembro de 2010 at 16:02 Reply

    Com certeza aceitar novos amigos da pessoa com você está é quase insuportável, mas se ele faz isso por você … o que custa tentar? haha. Amei o texto, como sempre.

  2. Camila Oliveira - 3 de dezembro de 2010 at 16:49 Reply

    essa do ex, foi super minha cara, rsrsrs… 🙂
    bjs!

  3. Tainara Costa - 3 de dezembro de 2010 at 20:52 Reply

    Concordo que tem muita gente que pensa que estamos iguais como da última vez que nos viu!
    Nossa, como eu tive muitas tias e amigas falando para mim “ah, mas da última vez vc falou que queria prestar vestibular para oceonografia blá blá blá….” dai até eu explicar que as coisas mudam, que eu não penso como da última vez q tal pessoa me viu demora muito. Acho que temos a mania de pensar que as pessoas permanecem estáticas com o passar do tempo (as vezes eu me pego pensando nisso, muitas vezes por achar isso), mas que isso é quase impossível, afinal são tantas coisas vividas,tantas experiências…. é difícil permanecer igual ao longo da vida.
    Tá que vc pode gostar de azul a sua vida toda,mas novos gostos são adquiridos. Querer que eles não aconteçam é quase a mesma coisa de não querer que o outro evolua.
    Beijos

    • Lili - 4 de dezembro de 2010 at 19:47 Reply

      Pois é… Impossível permanecer igual ao longo da vida. Aliás, entrevistei uma terapeuta e filósofa hj sobre esse tema – crescimento, evolução pessoal…

  4. Thais Faria - 4 de dezembro de 2010 at 12:22 Reply

    É verdade né?! Por que é tão difícil pra gente “entender” a evolução das pessoas. Assim como a gente, elas não congelam no tempo e continuam ivendo, seguindo em frente.
    Liliaane!… Muito Sábios seus posts!
    Adoro!

  5. zema - 4 de dezembro de 2010 at 16:33 Reply

    Ei, Lili! Nada como uma escritora filósofa e com incursões na antropologia. Já que você se referiu a B. Malinowski, uma pergunta para vc, que já fez análise. Ele conta que na ilha de Trobiand, os nativos não veem ligação entre sexo e gravidez. Para eles, a mulher engravida de um espírito que a penetra através do ouvido. Portanto, para os aborígines, as crianças não têm pai biológico, só mãe. M inha pergunta é: como fica a questão do complexo de Édipo entre os trobiandeses? Bjim para minha filhinha intelectual!

  6. Déborah - 6 de dezembro de 2010 at 17:28 Reply

    Até esqueci o que iria comentar ao ver o pequeno debate entre lili e seu pai nos coments…huahuahuahu…é de família! Gostei.

  7. Eduardo Costa - 6 de dezembro de 2010 at 21:01 Reply

    Genteee!! Amei esse texto. Lili vc escreve muito bem!! Já te seguia no twitter [#bytheway me segue la tbm @LouisKroos], mas agora vou passar todo dia no seu blog. Achei fantástico, parabéns mesmo!! *-*-*-*

  8. carla abreu - 7 de dezembro de 2010 at 14:38 Reply

    Nossa, cada vez que eu venho aqui, tem um texto melhor!
    Sempre se superando.

    P.s.: li e adorei o comentário do seu pai. Aliás, acho seus pais super descolados ; )

  9. Nathalia - 7 de dezembro de 2010 at 23:24 Reply

    ah! como são ótimos os seus textos…na verdade,uma das minhas partes preferidas da Capricho,quero ser tão boa escritora como voce!

  10. Beatriz - 8 de dezembro de 2010 at 10:21 Reply

    Meu atual tem ciúmes até dos meus amigos gays, o que eu faço? =] Adoro você, Lili.

  11. Miru - 13 de dezembro de 2010 at 16:24 Reply

    “O que eu acho mais interessante é que, quando uma pessoa A deu um fora em uma pessoa B, mas um fora bem terrível, cruel, desses que não arrancaram o sangue da pessoa B, mas que com certeza roubaram alguns quilos dela… Não adianta: a pessoa A sempre vai achar que a B, no fundo, ainda paga pau para ela. Sempre.”

    Sensacional, Lili! 🙂

    :-***

  12. Tereza - 26 de dezembro de 2010 at 3:47 Reply

    Aceitar que as pessoas mudam é mesmo meio complicado. As vezes nao percebemos que tambem estamos mudando, por causa dessa vida louca que temos. Boa e velha teoria do caos. As vezes sinto saudades das pessoas que morreram, mas ainda nao se foram.

  13. Juliana - 26 de dezembro de 2010 at 20:40 Reply

    Liliane eu assino a capricho e amo os seus textos, leio sempre, vc escreve muito bem, e sempre me faz refletir e rir as vezes… adoro mesmo continue escrevendo assim, as vezes na hora que eu recebo a capricho a primeira coisa que leio eh os seus textos! está de parabens, e te desejo muito sucesso!
    beijos

  14. Celina - 27 de dezembro de 2010 at 22:51 Reply

    Lili ! adoro seus textos, pensamentos e tudo o mais! te admiro muito, comecei lendo você na capricho, e agora procuro seus textos por aqui mesmo… Acho que posso dizer que acompanhei todo seu processo de “amadurecimento literário”, porque amadureci com eles! haha
    Vê se não some muito! apesar de ser fim de ano e a correria da vida triplicar, né ?! kk..
    De praxe, adorei o texto! =)
    Boas Festas!
    Beijos

  15. Isabella - 31 de dezembro de 2010 at 14:24 Reply

    Muito bom Lili!!!! Me identifiquei, claro. E você escreveu tudo isso de um jeito bem interessante. Gostei das dicas. Beijo

  16. Júlia - 8 de janeiro de 2011 at 15:01 Reply

    Adorei o texto, como sempre!

  17. Naiara - 18 de janeiro de 2011 at 15:41 Reply

    AMEI seu texto! Admiro muito sua habilidade de envolver o leitor com suas crônicas. Parabéns! Também adoro seu trabalho na capricho. Beeijinhos 😀

  18. Lais L. - 28 de janeiro de 2011 at 16:10 Reply

    Não é a toa que eu acho que meu ex continua igual, como da ultima vez que eu o vi, foi dificil aceitar e ouvir tudo o que tinham pra me contar sobre ele, sobre sua nova vida, foi dificil, e constatei novas amizades.. Talvez toda essa imagem, de que um ex, um amigo (a), um alguém, continue igual com seus gostos, manias e atitudes, seja algo natural. Talvez que por mais que nos machuquem, queremos que permaneçam iguais, em nossas mentes, porque lembramos dessas pessoas assim, lembrando delas assim, talvez muito mais pelo jeito que você se apaixonou ou se aproximou de que pelo jeito dela pelo qual se afastaram.
    Acho eu, que será sempre assim, mesmo que o mundod e voltas e a gente mude a cada dia, queremos, sentimos necessidade que a pessoa continue daquela maneira, ou não queremos acreditar que ela mudou, ponto.
    Beijinho! :*

  19. Júlia ferreira - 1 de fevereiro de 2011 at 0:14 Reply

    Meu deus eu sempre li a CH esperando ansiosamente pela sua coluna,e semipro quis saber mais sobre o seu trabalho e …AMEI!serio,virei sua fã!:)vc é uma das (se não a)minhas escritoras prediletas!

  20. Gi Jovinski - 12 de março de 2011 at 1:35 Reply

    ADOREI o texto, lembrei do livro “Quem mexeu no meu queijo” Ratinhos espertos!! 😉 É incrível como as pessoas nos veem como produtos, rotulados (mesmo sem querer) na forma que querem nos interpretar! Credooo.. viver, crescer, mudar é tão bom, por que ficar estagnado, hein?

  21. Mimi - 7 de abril de 2011 at 21:59 Reply

    Eu sabia que isso existia mas nunca tinha visto alguém chamar de mania de congelar manias alheias. Legal, Lili.
    Também detesto generalismos, mas de vez em quando uns escapolem.

  22. Beatriz - 7 de abril de 2011 at 22:13 Reply

    O mais incrível dos seus textos é como sempre parece que você tá conversando com quem lê, como se fôssemos amigas íntimas. Sempre foi assim… e olha que eu leio o que você escreve desde que eu tinha, hm, uns 13 anos? E adorava suas colunas na capricho. haushausa O tempo passa, seus textos mudam, mas essa sensação não. Parabéns.

    • Lili - 10 de abril de 2011 at 15:57 Reply

      “Os textos mudam, mas essa sensação não”: mto obrigada por ter compartilhado sua impressão de leitora antiga… Delícia saber disso 🙂

  23. Arícia - 23 de julho de 2011 at 12:31 Reply

    Conheci seus textos quando ainda eras (ou és? Sabe lá se congelaste nesse aspecto, hehehe) escritora da capricho. Apaixonei-me por eles e continuo adorando-os por aqui. Parabéns pela escrita!

  24. Luana - 5 de novembro de 2011 at 17:29 Reply

    Oi Liliane, pra começar eu queria me apresentar… Bom eu sou leitora capricho à uns bons anos e sou louuuuuuuca pela sua coluna, na verdade eu leio a revista por causa da sua coluna. E na última edição eu vi que era a sua despedida e eu fiquei “Como assim ela vai sair?O que vai ser de mim?” Então, vi que seu site esta lá no finalzinho da coluna junto com teu nome, daí eu corri pro computador pra acessar. E imagine a minha surpresa ao descobrir que as colunas e os textos que eu tanto amo estão aqui! Só posso te dizer um OBRIGADA pelas palaras que me fazem refletir e rir, e meus Parabéns pelo seu trabalho lá na capricho e que graças a você a cada quinzena eu fazia uma….. terapia(?) diferente, mesmo sendo sua despedida eu adorei a última coluna, quer dizer, foi tão legal saber como você se tornou a colunista e tudo mais. Vou sentir sua falta, falta da coluna e falta do seu humor. Ah, pode deixar agora seu site já faz parte dos meus favoritos, espero me inspirar e ler cada fez mais seus textos!! Um beijos, luana.

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