Sobre bandeiras e eleições

Há algum tempo, tenho pensado sobre essa pressa – essa tendência? – de marcarmos logo um X entre um grupo de opções dadas. Mesmo quando não tem ninguém nos apressando, quando podíamos pensar mais um pouco antes de marcar. Ou, mais ainda: mesmo quando não precisávamos marcar X nenhum.

Preferimos silêncio ou agitação? Poucos ou muitos amigos? Balada ou sossego? Fidelidade ou aventura? Trabalhar fora ou em casa? Ler ou ver TV? Mudamos de ideia várias vezes ao longo da vida, sabemos que vamos mudar de ideia ao longo da vida – mas é grande a tentação de marcar um X e eternizar um momento, sintetizar nosso jeito de ser, fazer de conta que é atemporal nosso modo atual de pensar.

E não basta escolher, temos que criar rivalidades. Não podemos ser uma pessoa que vê filmes blockbusters em alguns momentos e filmes de arte em outros. A pergunta é clara: “de que tipo de filme você gosta?” Se gostamos de praticar esportes, criticamos o sedentarismo. Se somos felizes no casamento, levantamos a bandeira da vida a dois. Levantar bandeira: não basta viver e fazer as coisas de que gostamos, temos que levantar bandeiras. Escolher nosso lado e criticar o outro. Definir quem somos e torcer o nariz para quem não somos. Se pudermos nem ouvir os argumentos do outro lado, melhor ainda. Afinal, ouvir para quê? Já escolhemos de que lado estamos, mesmo.

Talvez façamos isso por hábito. Por simplificar as coisas. Porque é mais fácil. Para as nossas conversas terem mais graça. Porque a gente nem lembra quantas vezes muda de ideia. Talvez você nem faça muito isso.

De qualquer forma, essas eleições têm me feito pensar muito nesse comportamento de marcar X e levantar bandeiras.

Como todo mundo está vendo, o PSDB tem feito várias acusações ao PT, principalmente agora, na reta final da eleição. Daí, rapidamente, cada um escolhe o seu lado.

Quem levanta a bandeira do Serra acusa os petistas de estarem mentindo e/ou cometendo crimes. Quem levanta a bandeira da Dilma acusa os tucanos (e boa parte da mídia) de inventar ou aumentar fatos.

Muito mais importante do que debater, investigar e eventualmente punir alguém – o que acusou sem provas ou o que cometeu um crime – é levantar sua bandeira. Abrir mão da nossa liberdade de pensamento para comprar a rivalidade que está estampada na mídia, seja na Veja ou na Carta Capital. Marcar um X. Não há necessidade de ter senso crítico quando basta escolher seu mocinho, defendê-lo e justificar tudo o que ele faz – por hábito, para simplificar as coisas, por tudo junto, sei lá por quê.

Não sou filiada a partido nenhum e vejo esse comportamento tanto em petistas como em tucanos que conheço. Tucanos correndo para fazer coro às acusações feitas pelo PSDB: “Tá vendo, tá vendo?”. Petistas correndo para se defender: “Invenção, invenção!”

Os candidatos se defendem, claro. Acho que seria assim em qualquer eleição do mundo, certo? Afinal, eles estão, de fato, numa situação de rivalidade. Nenhum candidato do PT vai declarar: “Será que isso aconteceu mesmo, gente? Não é melhor sermos investigados e o Brasil sair ganhando?” Os candidatos defendem o partido deles. Para a propaganda eleitoral, alimentar uma dualidade pode ser uma arma eficiente para fisgar eleitores: “O meu é o melhor.”

Mas e nós, eleitores? E nós, que não estamos nos candidatando a nada – nós que estamos escolhendo?

Nós precisamos comprar essa rivalidade sem questionar? Quando nos posicionamos, sabemos mesmo se é questão de “está vendo, está vendo” ou de “é invenção, é invenção”?

Fico pensando: para que colocar em cima do debate a pressa de marcar um X?

O X é marcado nas urnas, só no dia da eleição. Antes disso, não há X algum. Não preciso concordar com tudo o que o PT faz para votar na Dilma. Preciso? Eu realmente preciso ignorar as acusações e ter certeza imediata de que todas são falsas? Para votar no Serra, eu preciso mesmo demonizar a Dilma? Preciso criticar todo o governo Lula? Preciso acreditar em cada um dos novos argumentos do partido do meu mocinho, o Serra?

Não precisamos escolher sem pensar. Ou melhor, não precisamos abrir mão de pensar para escolher. Acima de tudo, não precisamos escolher como quem segue religião. Pelo menos, eu acho.

Conheço alguns religiosos fervorosos. Qualquer discussão com eles é inútil: em vez de argumentos, dogmas. Obedecem cegamente a uma série de preceitos, orgulham-se disso e olham com pena para quem pensa diferente deles. Não é todo religioso que é assim, claro: estou falando dos fervorosos, dos radicais.

Uma imagem que me vem à cabeça quando falo de radicalismo religioso: aqueles evangélicos que, quando vêem alguma acusação sendo feita a Edir Macedo, não querem nem saber do que se trata – “Que mentira!”, “Invenção!”, “Acusações infundadas!”

Não tenho religião e não tenho partido. Talvez eu até pudesse ter. Mas o que eu não teria nunca é essa modalidade híbrida de religião-partido, a quem eu devotaria minha obediência cega.

Obediência cega, bandeira pesada demais para carregar.

Não rezo nem pelo PSDB nem pelo PT. Sou pela investigação minuciosa e, quando for o caso, punição – independentemente do partido. Aliás, se tivesse que concordar com todas as práticas de todos os integrantes de um partido, não votaria em ninguém.

Felizmente, não tenho que concordar com nada e posso pensar à vontade.

12 comments to “Sobre bandeiras e eleições”

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  1. Lia Raquel - 7 de setembro de 2010 at 2:43 Reply

    Lili, seus argumentos – como sempre – muito bons, e seu texto… Agradabilíssimo de ler, como de costume. Sério, a gente vai lendo, vai lendo e quando percebe já acabou! Muuuito bom, sou sua leitora assídua! Bjs *:

  2. Marcela - 7 de setembro de 2010 at 10:20 Reply

    Liliane
    Mas isso de levantar uma bandeira, defender o nosso ponto de vista como sendo o certo e criticar tudo que é diferente talvez seja uma tendência, uma necessidade de se auto afirmar nessa sociedade confusa e com valores trocados, eu mesmo já defendir um conceito com unhas e dentes e depois quando parei para refletir eu nem concordava com ele, foi só pelo calor do momento e para mostrar a outros que eu tinha uma opinião bem formada.

    bjsss
    Marcela

  3. Nicolle Bello - 7 de setembro de 2010 at 21:27 Reply

    Adorei o texto! Também noto essa necessidade das pessoas de se auto-classificarem, o que faz com que elas se esqueçam que têm o direito e liberdade da incoerência [que também pode ser interpretada como pluralidade]. Que bom que estamos conscientes dessa liberdade!

  4. Lorena Machado - 8 de setembro de 2010 at 11:20 Reply

    Um texto que resume a minha opinião sobre as eleições e todo o barulho envolvido. Boa a ligação entre os religiosos e representantes de partidos. É desse jeito mesmo. As pessoas acham que devem brigar por tudo. Se entender pra elas é muito mais difícil. Bjs

  5. cris(rockstar) - 8 de setembro de 2010 at 20:18 Reply

    Otimo texto, eu q tenho 16 anos e não tirei meu tiulo porque não gosto de politica, concordo plenamente com vc, não temos que escolher em ser tucanos ou petistas, temos q escolher o melhor pra gente, não gritarmos “esta vendo, esta vendo” ou “é invenão, é inveção”.M as sim a nossa opnião o que nos pensamos, não sequirmos um dos lados porque dizem q temos q escolher nosso lado.

  6. Isabella - 8 de setembro de 2010 at 20:36 Reply

    Adoooooooooooorei, é exatamente o que eu penso. Mudo de ideia de meia em meia hora! E mesmo assim eu tenho que “levantar a minha bandeira”. Adoro seus textos.

  7. Juliana Lopes - 10 de setembro de 2010 at 8:49 Reply

    Nossa, seu texto me deu mais ideias pra minha dissertação de mestrado… Tudo bem que a minha dissertação será sobre a importância da literatura “de massa”, “comercial” para a formação do leitor, mas me ajudou muito mesmo! Eu faço faculdade de Letras e, no meio acadêmico, há muito preconceito contra esse tipo de literatura. Eu amo Harry Potter e Marian Keyes ao mesmo tempo que amo Clarice Lispector, Oscar Wilde e Machado de Assis. Parece que uma coisa automaticamente exclui a outra – você não pode gostar de “literatura comercial” se gostar dos clássicos -, mas você mostrou muito bem que isso não tem nada a ver!

    Parabéns pelo ótimo texto, Lili!

    Beijos

    • Lili - 10 de setembro de 2010 at 12:01 Reply

      Adoro esse tema! Minha coluna deste mês na Capricho é sobre isso. Sou como vc, gosto de tudo 😀

      • Luana Furtado - 22 de outubro de 2012 at 18:00 Reply

        Também sou como as duas! Eu quero tudo… quanto mais eu puder absorver do que a vida e as pessoas oferecem, melhor. Seja cult, seja comercial, útil ou inútil! O conhecimento não ocupa espaço, cabe sempre mais. E quanto mais diversificado, melhor!

        Bjs, Lili!!!

  8. Gabriel Nunes - 12 de setembro de 2010 at 15:01 Reply

    li seu ultimo textos sobre escolhas na Capricho dessa quinzena, e lendo agora seu texto aqui no seu blog cheguei a uma conclusão: ” ainda bem que temos duvidas, pois assim provamos para nos mesmos que conseguimos pensar!”
    entendi completamente seus argumentos nesse texto aqui do Blog! e também estou nessa duvida – em relação a politica. mas é lendo esse texto que eu percebo: OMg, eu tenho esse tipo de duvida em tudo na vida!!!
    não podemos pedir opinião de ninguem, pq ao fazer isso estaremos sendo influenciado pelas ligações dessa pessoa!
    Na minha idade temos tanta coisa pra pensar e decidir… coisas, alias, injustas para o momento!
    E é lendo esse texto que eu encontrei a frase perfeita para tudo isso: ” Felizmente, não tenho que concordar com nada e posso pensar à vontade.” e a completo dizendo: e fazendo as minhas escolhas, podendo muda-las quando quizer!!! adoro Vc Liliane!

  9. Babi - 30 de outubro de 2010 at 11:35 Reply

    SENSACIONAL, Lili!!! Eu detesto dogmas. Pra mim , o radicalismo é uma espécie de “cabresto”… a pessoa fica controlada, só olha em uma direção, não consegue enxergar pontos de vista diferentes. Mas sabe o que é pior? As pessoas ficam acomodadas e não fazem o mínimo esforço pra se “libertar” de tais opiniões que são impostas, seja por algum partido, religião ou pela própria mídia. Muito legal vc falar desse tema no seu blog. Como jornalista, formadora de opinião, principalmente do público jovem, é muito válido vc abordar a política. Parabéns!!!
    Beijos

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