Duas vidas, duas abordagens terapêuticas

São dois primos, amigos meus, e sempre tiveram muita coisa em comum. Basicamente, insegurança e baixa auto-estima. Nunca foram muito com a cara de si mesmos e  acabavam se contentando com relacionamentos ruins, para descrever o problema como quem preenche o formulário de um hotel.

Bem, os dois resolveram fazer terapia. Cada um com um terapeuta.

O primeiro terapeuta, segundo meu amigo, era lacaniano, desses que gostam inclusive de encerrar a consulta quando ela atinge o ponto mais interessante. Parece que é para o paciente ficar com aquela pulga atrás da orelha e ir trabalhando – trabalhando, essa palavra é muito importante – a questão até a próxima sessão. O paciente saía frustrado, ainda mais quando o ponto interessante tinha surgido depois de dez minutos, mas fazer o quê, fica até meio feio bater boca com Lacan. De qualquer forma, a consulta era sempre muito profunda, muito densa.

Depois de algum tempo, o paciente se viu tendo mais segurança, mas ainda havia um longo caminho pela frente – afinal, assim como a consulta, o caminho era sempre muito denso, muito profundo, e como a  sessão ainda terminava no meio…

Certa vez, ele desabafou comigo mais uma vez sobre seu casamento. A relação não o satisfazia, nem no início, nem agora, depois de seis anos.  Ele queria atenção e a mulher, workaholic, não dava essa atenção, nunca tinha dado. Essa situação lhe fazia muito mal, ele dizia. Perguntei o que o terapeuta achava disso. Ele respondeu que estavam trabalhando a questão com muita calma. Não importava muito se a mulher não dava atenção ao meu amigo. O mundo, na verdade, não importava muito – a não ser o mundo individual do meu amigo, esse sim, muito rico e cheio de questões. O que importava, em suma, não era se a mulher dele não lhe dava atenção, mas sim: por que ele precisava, afinal, de tanta atenção? De onde vinha essa necessidade? Como descobrir as causas dessa necessidade e, claro, como trabalhar isso?

O outro amigo, primo dele, estava passando por um problema parecido quando começou a fazer terapia. Relações ruins, insatisfatórias. Culpa da minha carência, ele dizia. “Não sei se o problema é ela ou se é essa minha necessidade de atenção”. Questão devidamente levada para ser trabalhada na terapia, o terapeuta, bem objetivo, já foi dizendo: “E se for necessidade de atenção? Por que não procurar alguém, então, que dê essa atenção a você?”

Num primeiro momento, meu amigo se assustou. Calma, ele teve vontade de falar. Mas não tinha muita calma com aquele terapeuta, não. Ele não era lacaniano. Bem, ele usava Lacan, mas usava Freud, usava behaviorismo, usava tanta coisa que o paciente nem sabia o quê. Um dia, pesquisando na internet, meu amigo descobriu que o terapeuta dele lidava com pacientes terminais de câncer. Tinha dissertação de mestrado no assunto e tudo mais. Claro, ele estranhou a descoberta – tinha muitos problemas, mas não tinha câncer. De qualquer forma, toda consulta ia nessa linha de lidar com a certeza da morte: cada momento é único, a vida é para ser vivida, muito pensamento paralisa, a verdadeira vida está não na reflexão, mas na experiência, etc, etc, etc.

Claro, esses meus amigos são primos, às vezes se encontram. Numa determinada fase, quando se encontravam, desandavam a falar sobre suas sessões de terapia, como todo mundo que adora fazer terapia. E cada um defendia ardorosamente a abordagem do seu terapeuta, porque, afinal, nós, humanos, gostamos muito de tomar partido e brigar por coisas sem importância. O paciente do terapeuta lacaniano dizia que era muito melhor fazer um trabalho mais profundo, nem que levasse anos. O paciente do terapeuta de doentes terminais dizia que, enquanto o outro estava lá se resolvendo, ele estava vivendo.  O paciente do terapeuta lacaniano dizia que a terapia do outro era rasa, era quase uma auto-ajuda. O outro dizia que pelo menos ele estava se auto-ajudando e tinha saído de relacionamentos ruins. O outro dizia que era melhor continuar num relacionamento ruim, mas se conhecendo cada vez melhor e enfrentando seus fantasmas, do que viver as experiências superficialmente. O outro dizia que…

Enfim. Eu, que também já fiz terapia e que não sou de ferro, tentei tomar partido. Mas não consegui. Transformar nosso eu num grande quebra-cabeça e passar anos tentando encontrar as causas das nossas questões e procurando resolvê-las me parece quase inevitável até para quem não faz terapia, ainda mais no meu caso – gente que trabalha sozinha em casa acaba pensando além da conta. Por outro lado, chutar o balde dessas questões e procurar viver nos aceitando como somos, fazendo as coisas que queremos fazer em vez de ficar nos consertando, é uma delícia.

Talvez eu simplesmente alterne as duas posições na minha vida, como boa libriana – claro, sempre é possível usar a abordagem astrológica para trabalhar nossas questões.

17 comments to “Duas vidas, duas abordagens terapêuticas”

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  1. Juliana Lopes - 10 de setembro de 2010 at 13:53 Reply

    Nossa, Lili! Seu penúltimo parágrafo foi perfeito!! É impossível parar de alternar o “tentar se encontrar através de profundas elucubrações” com o “a vida é para ser vivida”. Não dá: somos duais e precisamos das duas coisas. Se ficarmos só pensando, vamos sentir falta de aproveitar; se só aproveitarmos, vamos sentir falta de pensar. A questão é dosar as duas coisas, pensando e aproveitando.

    Beijoss

  2. misasrvieira - 11 de setembro de 2010 at 8:51 Reply

    oii adorei o chat com você no habbo.começa a jogar para nos falarmos mais vezez

  3. Gabriel Nunes - 12 de setembro de 2010 at 14:50 Reply

    como geralmente faço lendo suas publicações na ultima pagina da Capricho, reli umas 10 vezes esse texto! Reli, pois adorei o que li!!!
    vc é otima, Liliane.
    seus textos são perfeitos de mais!!! vc consegue nos fazer pensar em coisas tão absurdamente diferentes que se dependesse de nós, nunca pensariamos!
    parabens!!! 😀

  4. Mari Figueirêdo - 12 de setembro de 2010 at 18:22 Reply

    Oi Lili!
    Concordo com o que você disse nesse post, acho que se a gente for tentar descobrir nosso eu de uma maneira equivocada, acabamos nos desentendendo cada vez mais. Nada como um dia após o outro para vivermos e aprendermos intensamente com as nossas próprias experiências, e é claro, com a experiência dos mais próximos.
    Beijos!

  5. Isabella - 12 de setembro de 2010 at 22:22 Reply

    Parece que você sabe exatamente o que estou vivendo! Seus posts sempre tem a ver com o que passo no momento! KKKKKKK Ontem mesmo eu simplesmente desisti de tentar me entender, simples, rápido e eficaz. E vou te falar que parar de tentar me consertar o tempo todo é maravilhoso!

  6. Nicolle Bello - 15 de setembro de 2010 at 18:31 Reply

    O fato é que o importante e o bom é estarmos de bem com nós mesmos, seja nos analisando longamente, ou deixando de lado essas questões, não é?!
    Adoro seu texto!

    • Lili - 28 de setembro de 2010 at 16:40 Reply

      Às vezes, acho que quem não gosta de refletir sobre si mesmo tem mais é que fugir disso mesmo e ir, sei lá, tomar sol e andar de bicicleta. Às vezes, acho que refletir e se conhecer vale o esforço, por menos reflexiva que seja a pessoa…

  7. Araceli Sobreira - 16 de setembro de 2010 at 20:49 Reply

    Texto muito bom para refletir sobre o tipo de conhecimento que queremos ter de nós mesmos! Também penso que é levar a vida com calma, vivendo um dia de cada vez! Já dei muita cabeçada pensando em problemas que não tinham nada a ver com nada e joguei muito tempo fora “analisando” o que não se deveria nem analisar e, sim, esquecer! abraço.

  8. uma garota - 18 de setembro de 2010 at 11:51 Reply

    eu – que também faço terapia, também não sou de ferro, também penso demais – uso um pouco de cada abordagem pra me entender e, às vezes, desisto disso tudo e vou só viver, tropeçar, bater a cabeça e dar murro em ponta de faca (a mão é minha mesmo!).
    às vezes, mando tudo às favas e vou ser feliz (ou não) fazendo aquilo que me dá vontade e que me deixa bem comigo mesma. já fazia um pouco antes disso, mas na primeira ou segunda sessão de terapia Gestalt (abordagem atual, mas não exclusiva), minha terapeuta “ordenou” que eu passasse a semana seguinte fazendo apenas e tão somente aquilo que eu queria, só isso… foi libertador! e continuo fazendo isso até hoje – com escorregadelas, é verdade.
    inclusive, venho querendo largar a terapia e fazer o que eu quero sem prestar contas a ninguém… talvez possa voltar a ler horóscopos depois dessa!
    belo tema! nice closing!

  9. Ana Paula - 19 de setembro de 2010 at 20:37 Reply

    E o seu terapeuta, comoera?

  10. Camila Oliveira - 25 de setembro de 2010 at 17:29 Reply

    Lili, sinto falta dos seus textos! 🙁
    Posto logo, logo!
    bjs

  11. Camila - 19 de outubro de 2010 at 14:37 Reply

    Amei, li em uma época da minha vida que estou vivendo exatamente isso, a dualidade, tentar corrigir todas as falhas da nossa essência ou viver e esquecer de todas as dúvidas que nos rodeiam?
    Enfim… Teu texto está perfeito.

  12. Ágata - 22 de janeiro de 2011 at 0:47 Reply

    Putz, minha terapêuta era muito essa “primeira linha”, não dá, concordo plenamente com a Juliana Lopes “somos duais e precisamos das duas coisas. Se ficarmos só pensando, vamos sentir falta de aproveitar; se só aproveitarmos, vamos sentir falta de pensar. A questão é dosar as duas coisas, pensando e aproveitando”.

    Adoro teus textos! Beijo!

  13. Thiago Santos - 28 de setembro de 2011 at 10:58 Reply

    Adorei os textos, pois sempre tem a opinião cômica, que faz a gente querer ler mais e mais. Logo, logo eu volto pra ler mais textos. bjos !!!!!!

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