Simplesmente Feliz e Sâmia

Dia desses, lembrei-me da Sâmia, uma garotinha que estudou comigo quando eu tinha uns quatro ou cinco anos de idade.

Era sexta-feira e eu estava em casa assistindo ao filme Simplesmente Feliz. Geralmente, escolho um filme ou pelas sugestões de amigos que têm o gosto parecido com o meu, ou pelas resenhas dos críticos de que gosto – Sérgio Rizzo e Isabela Boscov são meus preferidos. Nem um crítico nem um amigo tinham me indicado Simplesmente Feliz, mas, desde que o filme entrou em cartaz, fiquei com vontade de vê-lo. Acabou que só vi quando saiu em DVD e, no fim das contas, não gostei nem desgostei. Passaria em branco na minha vida… Se não tivesse suscitado a lembrança de Sâmia.

Não me lembro de Sâmia desenhando ou participando de alguma brincadeira. Só me lembro dela me batendo ou batendo em outros colegas.  Quando eu me dava conta, lá estava ela, puxando meu cabelo com toda a força de uma menina de quatro ou cinco anos. Eu tinha medo e raiva de Sâmia.

No filme, a protagonista é uma professora do primário que leva a vida com uma alegria muito acima da média, para fazermos uma descrição bacana dela (outra opção seria: ela é absurdamente sem noção). Um dia, ela vê um de seus alunos batendo em outra criança. Ela aparta a briga da seguinte forma: solta os dois, deixa a vítima ir embora e permanece ao lado da criança que bateu na outra, perguntando-lhe carinhosamente por que tinha feito aquilo. Não obtém resposta. Alguns dias depois, vê a mesma cena se repetir, e resolve novamente tentar conversar com o pequeno agressor. Pergunta-lhe de onde vem aquela raiva, e ele, mais uma vez, nada responde. Ela pede ajuda à diretora. Dias depois, por meio de desenhos e frases soltas ditas com a mediação da professora e de um pedagogo, a criança acaba revelando que apanha do namorado da mãe.

Não sei se minha professora do primário chegou a conversar com Sâmia. O que sei é que, um dia, presenciei a seguinte cena.

Eu estava brincando no parque do colégio, quando Sâmia chegou, puxou meu cabelo com força e me deu vários tapas com suas pequenas mãos. Eu gritei, chorei, e a professora veio ao meu socorro. Ela afastou Sâmia bruscamente e concentrou toda a atenção em mim, até que eu parasse de chorar. Ela então segurou Sâmia e me disse: “Pode bater nela. Vamos, puxe o cabelo dela”. Olhei os olhos assustados da minha coleguinha, imobilizada. Por medo, por receio, por covardia, não sei por que, senti-me intimidada e não obedeci à professora. Eu me lembro direitinho da insistência dela: “Pode bater, eu estou segurando para que você bata! Vamos!”

Fico pensando se Sâmia tivesse tido a sorte de ser aluna de uma professora como a do filme. Depois de verificar que eu estava bem, essa professora concentraria seus esforços não em mim, mas nela.

Fico pensando em quando eu era mais velha, no colégio, e via os professores e diretores absolutamente indiferentes à violência cometida por alguns colegas contra os outros, o chamado bullying. Nenhum dos educadores se aproximava dos agressores para pesquisar as origens daquela violência, discutir as causas, pesquisar. Conversar.

Fico pensando, acima de tudo, de onde vinha aquela agressividade de Sâmia, no que o colégio poderia ter feito para ajudá-la e em como ela está agora…

18 comments to “Simplesmente Feliz e Sâmia”

Você pode deixar um comentário ou Trackback para esse texto.

  1. Kris Arruda - 19 de julho de 2010 at 14:54 Reply

    Com um nome feio desses eu tbém bateria em todo mundo. Rs…

    • Sâmia - 28 de julho de 2011 at 0:03 Reply

      Em resposta ao nosso amigo Kris… ou seria amiga???
      com um nome unissexy, de péssimo gosto, fica dificil saber!!!
      Bom: eu adoro meu nome, e sou muito bem resolvida com ele, só pra vc saber…
      bezitos!!!
      ah…
      Ótimo texto pra reflexão mesmo!!!
      …claro q o nome da protagonista não quer dizer absolutamente NADA.

  2. Gabriela De Franco - 27 de julho de 2010 at 12:07 Reply

    teus textos sempre fazem a gente refletir..

  3. Tereza - 28 de julho de 2010 at 11:52 Reply

    A agressividade costuma ser o reflexo do medo. Nem as escolas, nem o mundo em si, estao preparados para lidar com seres humanos.

  4. Priscilla Stefany - 29 de julho de 2010 at 12:15 Reply

    Liliane Eu sou uma grande fã sua, parabéns eu não canso nunca de ler seus textos, eu aprendo muito contigo.

  5. Mayara - 29 de julho de 2010 at 22:36 Reply

    Olá, Liliane.
    Só gostaria de dizer que acho seus textos incríveis.
    Admiro muito o seu trabalho e acho você a melhor colunista da minha revista favorita (A CAPRICHO).
    Desejo-lhe muita merda (no teatro significa boa sorte) e sucesso na sua vida, e nos seus textos que sempre me fazem acha outro ponto de vista sobre todos os acontecimentos (o meu preferido, é um meio antigo, da CAPRICHO, não sei se você se lembra chamado : “Ansiedade e Barcos – como a gente lida com esses dois?-“.
    Bjos.

  6. Mariana - 30 de julho de 2010 at 11:04 Reply

    Nossa… profundo isso hein…
    e triste…
    Coitadinha da Samia. Quem será ela hoje? O que faz? Será que é feliz?

  7. Aline - 5 de agosto de 2010 at 19:06 Reply

    Nossa, eu amo os seus textos.
    Sempre que chega uma nova revista Capricho em casa de cara vou para ultima página!

    Seus textos são ótimos!
    Nesse em particular, gostei bastante da forma como voce coloca a problemática,
    ou seja a sua professora da época pretendia apenas “resolver” o problema de imediato
    ( te acalmar e fazer “justiça” ao te incentivar a agredir a outra) e não tentar entender a causa das coisas!

    Amei muito mesmo, eu viajo pensando nas coisas sabe, e seus textos sempre me deixam pensando! haaihiahihaihiha

    =*

    @AlineeR_

  8. Ytiara Oliveira - 9 de agosto de 2010 at 18:58 Reply

    Foi um assunto bastante interessante esse do texto, pois na maioria das vezes crianças agressivas como a Sâmia sofrem em silêncio e se tornar agressiva é uma das caracteristicas que essas crianças apresentam para representar seu sofrimento o que varias vezes passam dispercebidos…..

  9. Vaah Moraes - 23 de agosto de 2010 at 14:09 Reply

    Oi amei seu blog e um dos melhores blogs que eu já entrei bjss

  10. gabi - 23 de agosto de 2010 at 19:26 Reply

    Sabe que comentamos na aula de Filosofia algo parecido hoje ?
    Se desde cedo fosse dada a atenção a ‘pequenos’ probleminhas, quem sabe eles não iriam progredir em adultos-frustação , adultos-pânico, adultos-indiferença , adultos-não 🙁
    Mas as vezes encaramos como ‘ah , mas ele é só uma criança, nem sabe o que é certo ou errado’ e tudo vai por terra. Podia ser menos dolorido depois.

    Temos que torcer pra que Sâmia tenha encontrado um amigo que a ajudasse a -como diziam os gregos nas Ágoras- expulsar seus demônios e assim , aprender a viver com mais harmonia;

    …acredito que pessoas como ela não sabem e não tem noção do que é paz íntima :(. e isso é uma pena!

  11. Carolina - 25 de agosto de 2010 at 2:27 Reply

    Noooossa, eu sempre, mas sempre mesmo (como psicóloga), perguntei-me isso: mas será que nunca ninguém vai pensar em olhar pro praticante do bulling??? Será que nunca ninguém se pergunta porque aquela criança faz aquilo?? Será que pensam que ‘o homem nasce bom ou mal, sem direito a alteraçoes’???
    Até que enfim alguém pensou nisso.

  12. Sâmia Gomes Zahara - 16 de julho de 2011 at 17:58 Reply

    Liliane , eu também me chamo Sâmia e fiquei muito contente em
    saber que você teve uma amiga de infância chamada Sâmia.Eu aposto que ela deve ter se tornado uma
    mulher bem doce como todas as Sâmias.rsrsrsrsr

  13. Bruno Aparecido - 23 de setembro de 2011 at 11:46 Reply

    Adoreiiii…
    Foi o seu segundo texto q li e gostei de mais pq vc escreve mto bem e faz a gente refletir sobre seus textos.
    E tbem pq estamos falando sobre bullying na nossa eskola….
    Bjosss Bruno

  14. Carlos Eduardo - 23 de setembro de 2011 at 11:52 Reply

    Mto bom seus textos…
    Refleti mto enquanto estava lendo, e vou sempre ler seus textos.
    Bjos Carlos

  15. beatriz - 23 de setembro de 2011 at 11:52 Reply

    Liliane, li alguns dos seus textos,são super 10.Parabéns por escrever histórias que nos levam a pensar nos nossos atos e refletir sobre a vida.E os temas que você aborda para os seus textos não sei como, mas falam exatamente sobre o que precisamos ver e refletir.

Deixar comentário

Your email address will not be published.