As pessoas que gostam de ficar sozinhas e o mundo

Uns dez anos atrás, um amigo muito querido me disse que eu poderia viver tranquilamente numa caixa.

Estávamos conversando sobre solidão e ele disse que eu parecia gostar mais de viver sozinha do que com os outros. De fato, se penso nos momentos da minha vida em que me sinto mais feliz, mais plena, vou achar muitos instantes solitários. Talvez a maior parte da minha lista de prazeres pertença a esse grupo. Amo dirigir à noite por São Paulo; se tem algo que me deixa feliz é voltar da faculdade dirigindo sozinha e ouvindo música no carro. Me sinto tão bem quando como um doce, trabalho em casa há dois anos e passo o dia todo só e quase sempre me sentindo muito bem. Adoro ficar deitada lendo, amo ficar sozinha em casa escrevendo, vivo indo sozinha ao cinema, a um café.

Por causa da frase do meu amigo, fiquei com essa pulga atrás da orelha: eu, que sempre me considerei sociável, era na verdade uma eremita, para usar a palavra de uma amiga sobre mim? Ou: eu estou mais para gato do que para cachorro, para usar o termo de uma outra amiga?

O que nem eu nem meus amigos tínhamos pensado é que nós, as pessoas que gostam de ficar sozinhas,  nunca estamos sós. Porque, mesmo quando não estamos com os outros, estamos interagindo com o mundo. E é isso que me dá prazer. Dirigir por São Paulo à noite num carro que comprei na concessionária, obedecendo às regras do trânsito, passando pelas pessoas na rua. Comendo um doce que alguém fez, trabalhando em casa usando msn e twitter, ouvindo música que outras pessoas produziram, entrevistando pessoas, lendo livros que outras pessoas escreveram, escrevendo e gostando de ser lida, vendo filmes e tomando cafés que as pessoas fizeram, esbarrando com pessoas na rua.

Mesmo nós, as pessoas que se dão bem com a solidão, estamos com as pessoas o tempo todo, e como isso é bom. Não sei se vocês viram aquele filme Eu sou a Lenda, com o Will Smith. Eu nunca gostei muito de ficção científica, com algumas exceções – a mais notória delas talvez seja O exterminador do Futuro. Mas meu marido veio com esse filme em casa e me pediu para assistir 10 minutos com ele, e acabei não conseguindo parar de ver. Como fiquei impressionada com a terrível solidão do protagonista! Tive pesadelos com aquele filme, que me atrapalhou até a dirigir por um tempo, porque a todo momento eu ficava imaginando zumbis pulando no meu carro, haha.

Mas o que me motivou a escrever este post não foi a lembrança do diálogo com meu amigo, mas a leitura de uma entrevista com um médico que afirmava que há muito mais pessoas em coma e com a consciência funcionando do que a gente pensa. Porque estão estáveis no coma, esses pacientes não são mais submetidos a exames neurológicos – mas vários deles despertaram depois de alguns meses ou anos e estão lá, pensando normalmente, mas fechados em si mesmos, trancados. Num estado ainda mais dramático do que o do protagonista do filme O Escafandro e a Borboleta (história real baseada num editor da Elle francesa, assistiram?), essas pessoas não interagem com o mundo exterior nem com os olhos nem com nada: não enxergam, não se movem, algumas nem ouvem. Só pensam. Por cinco, dez, quinze anos. Imaginem que terrível seria viver assim, com o intelecto absolutamente normal, mas separado da maravilha que é interagir com o mundo?

Meu querido amigo estava completamente enganado sobre mim: eu odiaria viver numa caixa. Eu amo o mundo, e acho que todas as pessoas que gostam de ficar sozinhas também. Quem não amaria?

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20 Comentários

  1. carla abreu
    Publicado 9 de julho de 2010 em 1:06 | Permalink

    primeira vez que venho aqui e tem post ultra fresquinho :) eu também sou assim, isolada, curto minha companhia. {coisa de filósofa?} minha mãe chegou em casa e eu contei a ela que estava dançando ouvindo mpb. e ainda disse: pelo menos eu me divirto comigo mesma. mas a verdade é que tem gente que se sente mal se não estiver numa festa ou com dezenas de pessoas por perto. eu lido bem com a sua solidão porque simplesmente sei do que eu gosto.

    quanto ao filme ‘o escafandro e a borboleta’, nunca consegui assistir, apesar de ter passado várias vezes este ano no cinemax. mas tenho vontade.

    gostei do post :-)

  2. Publicado 9 de julho de 2010 em 1:12 | Permalink

    Gostei muito do seu post.
    Acredito que também por mais que goste de ficar sozinha em alguns momentos, que como em sua reflexão nos diz totalmente ao contrário, ao mesmo tempo que estamos sós- estamos rodeados de pessoas…( adoreii a reflexão, adoro pensar nisso tb) e é assim a interação do mundo. Por conta de tudo isso eu também não conseguiria viver em uma caixa, mesmo que, as vezes, com a correria do dia dia, esquecemos ou então não reparamos quem está do nosso lado, simplesmente por não ter um contato ou então não conhecer e assim nos encontramos dentro de uma “caixa”.

    Seu post resume-se em uma frase conhecida: “Nenhum homem é uma ilha” John Donne

    Parabéns pelo seu blog.

    • Lili
      Publicado 12 de julho de 2010 em 9:55 | Permalink

      Nenhum homem é uma ilha…

  3. Publicado 9 de julho de 2010 em 13:26 | Permalink

    Me identifico muito com tudo o que você disse! Adoro ir de ônibus pra faculdade, ficar pensando, lendo, estudando em bibliotecas, tudo sozinha e em contato com o mundo. Por mais que gostamos de estar sozinhos por um tempo, o ser humano não é e nem tem como ser uma ilha.

    Parabéns pelo post, Liliane! Muito bom mesmo.

    Ps: eu tenho um blog (www.pessoaesdruxula.blogspot.com), se você tiver tempo, dá uma passada lá, ok?

    Beijos

  4. Hannah
    Publicado 9 de julho de 2010 em 22:10 | Permalink

    Olá Liliane,bom meu nome é Hannah e sou assinante da Capricho e como boa leitora quando chega a revista vou logo no final pra ver qual seu “Desneurando” da quinzena. Sou apaixonada por seus textos,que além de me identificar com muitos ,eles são descontraídos e interessantes.
    E o mais legal foi que na edição 1100,veio o link de seu blog e já de cara amei,principalmente esse texto acima que por sinal me identifiquei,pois adoro ter meus momentos e sentir o prazer do silêncio!
    Parabéns pelo seu trabalho e que Deus continue te iluminando .
    Beijos,Hannah.

    • Lili
      Publicado 12 de julho de 2010 em 9:54 | Permalink

      Obrigada, Hannah! Que bom q vc veio aqui. Meninas, estou passando nos blogs :)

  5. Publicado 9 de julho de 2010 em 23:50 | Permalink

    Adorei o post. Suas reflexões são profundas, mas você sabe conduzi-las muito bem com as palavras. Estou tentando aprender a me expressar assim. Engraçado, minha psicóloga recomendou que eu assistisse a esse filme, O Escafandro e a Borboleta. Agora tenho mais um motivo pra assistir :D

  6. Publicado 10 de julho de 2010 em 17:22 | Permalink

    desde que eu pudesse me comunicar, eu viveria sozinho, de boa.
    aliás, tenho quase certeza de que tô caminhando pra esse fim. ¬¬
    morrerei sozinho, cercado por gatos que me odiarão.

  7. Thais Barros
    Publicado 11 de julho de 2010 em 13:19 | Permalink

    Sabe,eu nao consegui ler o texto direito porque tinha duas pessoas chatas me atrapalhando aqui…rsrsrs
    Pois é,mas eu queria dizer que gosto muiiiiiito de voce e que acompanhava a sua coluna na revista Capricho.Sempre me sentia melhor depois que lia a Desneurando.
    Voce me mostrou muitas coisas que eu nao conseguia ver e que estavam na minha cara.
    Nao sou boa com palavras,mas queria dizer que gosto de voce como se fossemos amigas de muito tempo!
    Te desejo tuuuudo de bom e muita felicidade.
    Acredite,voce nunca estara sozinha com tantas pessoas(como eu )que te adoram q torcem por voce.

    • Lili
      Publicado 12 de julho de 2010 em 9:53 | Permalink

      Sério, eu estava emo qdo li e me emocionei com a última frase… Obrigada :´)

  8. Publicado 11 de julho de 2010 em 22:53 | Permalink

    Concordo em tudo que você falou!!! Eu também convivo bem com meus momentos de solidão, mas exatamente por estar em contato com o mundo mesmo nessas horas… não conseguiria ficar “presa” dentro de mim, dos meus pensamentos, de uma caixinha… o contato com o mundo é essencial, mesmo na solidão!!!
    Beijos, Lili!!

  9. Publicado 12 de julho de 2010 em 9:40 | Permalink

    Brinco com meus amigos que sou misantropa. Ficar sozinha é uma das melhores coisas do mundo.
    A adaptação de O Escafandro e a Borboleta para o cinema é outra delas. Gente, o que é aquela fotografia? Obra de arte pura.

    • Lili
      Publicado 12 de julho de 2010 em 9:52 | Permalink

      Tb amei o filme. A fotografia é ótima e tb a edição… e o fato de não terem usado a premissa triste para fazer um filme deprimente. Ficou um filme bonito :)

  10. Publicado 12 de julho de 2010 em 15:39 | Permalink

    Me identifiquei demais com tudo o que você disse. Quando eu era criança sonhava em ser eremita (não me pergunte, Freud explica). Já tinha planejado tudo: seria somente eu, meu aparelho de som e a TV. Até que eu me dei conta que se eu levasse o som e a TV continuaria cercada de pessoas e do produto do seu trabalho de qualquer maneira e desisti da idéia, mas até hoje tenho uma necessidade enorme de pasar um tempo sozinha, de curtir as coisas sem interferência de ninguém. Não que eu seja ou me sinta solitária, só tem coisas que eu gosto de fazer só em companhia de mim mesma. E do mundo.

  11. Publicado 12 de julho de 2010 em 17:46 | Permalink

    Ah, Lili, obrigada por passar no meu blog!! Fiz uma menção a você no http://www.pessoaesdruxula.blogspot.com (no texto “little things that make life great”), falando sobre como você animou meu dia!!

    Beijoss

  12. Ana Guimarães
    Publicado 14 de julho de 2010 em 19:01 | Permalink

    Amei,amei,amei….
    vc é incrível!

  13. Publicado 17 de julho de 2010 em 15:25 | Permalink

    Gostei muito desse post Lily! Você me mostrou um outro ângulo sobre a solidão, isto é, essa forma de sempre estarmos interagindo com outras pessoas: “Comendo um doce que alguém fez, trabalhando em casa usando msn e twitter, ouvindo música que outras pessoas produziram, entrevistando pessoas, lendo livros que outras pessoas escreveram, escrevendo e gostando de ser lida, vendo filmes e tomando cafés que as pessoas fizeram, esbarrando com pessoas na rua.”
    Quando eu era mais nova tinha dificuldade de aceitar a solidão, pois, como sempre fui muitoo extrovertida ficar só me soava como um fracasso pessoal.
    Contudo, com o tempo comecei a apreciar muito a minha companhia e hoje muitas vezes tenho dificuldade de abrir mão dela. Esquisito, né?
    Vou ficando por aqui!
    Beijos montes,
    Lou

    • Lili
      Publicado 18 de julho de 2010 em 11:26 | Permalink

      Adoro qdo vc vem aqui! Vivo indo no seu blog tb! Bjim!

    • Tammy Damasio
      Publicado 3 de agosto de 2010 em 12:13 | Permalink

      Nunca havia pensando sobre a solidão sobre esse ponto de vista que você colocou. Achei interessante a reflexão de que, de fato, não podemos viver sozinhas, uma vez que somos seres sociais. O próprio SER é um conjunto de vários SERES que se formaram ao longo da nossa vida, porquanto, vivemos, mesmo sozinhas (os) em grupo.

  14. Publicado 29 de agosto de 2010 em 1:26 | Permalink

    Oi, Liliane. Beth Ebrose me indicou seus textos, é a primeira vez que entro aqui e me identifiquei muito. Dê uma lida depois no meu blog, pode ser que também se identifique. Por sorte, eu estava buscando justamente bibliografia para estudar filosofia por conta própria. E também gosto, muito, dos momentos que passo sozinha. E escrevi há pouco sobre a dor, com imagem semelhante à usada por vc. Gostei das coincidências. Um abraço, Gabriella

Um Trackback

  1. [...] nós pessoas que precisemos viver rodeados de gente ou prefiramos ficar sozinhos, estamos acompanhados constantemente. Esses que nos acompanham dificultam e facilitam nossa vida. [...]

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