Sobre cinema e reflexão (ou: Uma apologia da história)

Na minha opinião, aquela velha divisão entre filmes para esquecer da vida e filmes para refletir é muito antipática.

Os primeiros são os chamados filmes bobos, hollywoodianos, previsíveis, amarradinhos, cheio de atores bonitos, gran finale, de preferência feliz etc. Os últimos são os filmes cult, com mais profundidade do que orçamento, pontas soltas, finais nem sempre felizes, finais que nem sempre finalizam etc.

Eu, que fui extremamente afetada pelo filme A Turba, do alemão King Vidor, e que também sou fã da série Homem-Aranha, fico sempre achando que, no meio desses rótulos todos, o que mais importa para mim, como espectadora, é a história.

Tenho uma visão bem infantil nesse aspecto. Digo bem infantil porque essa visão começou quando eu tinha uns cinco anos e não mudou muito de lá para cá. Você pode considerar meio psicótico, mas, para mim, os personagens existem mesmo. Não é faz-de-conta: eles existem.

A vida deles não é como a nossa vida, que começa na maternidade e termina no cemitério, digamos. A vida deles começa e se encerra na história. Se a história tem uma continuação em que mudou o ator principal, se a história tem elementos completamente inverossímeis, se o roteiro tem buracos, se o produtor alterou a versão do roteirista e o filme terminou do jeito X em vez do jeito Y: não importa, a vida dos personagens é assim.

Vivemos atrás de uma explicação para nossas vidas. Mas as vidas dos personagens têm uma origem bem definida: começam com a idéia do autor. Eles não sabem disso, mas a gente sabe, assim como, por que não,  um outro mundo maior pode saber deste nosso (certo, menos viagem daqui para frente). E mais: se alguma coisa sem muita explicação acontece na vida dos personagens, é por causa dessa origem, que a gente conhece, mas eles não.

Para usar um exemplo bem extremo: em Sex and the City 2, tem aquela cena (spoiler, hein) em que as muçulmanas tiram as burcas e mostram suas roupas de marca pode parecer ridícula para muita gente. Eu mesma achei desnecessário, mas isso quando penso na produção, na direção, no roteiro: em tudo o que remete à origem daquele mundo dos personagens. Mas, naquele mundo mesmo, esse detalhe não interfere em nada. Porque o mundo em que a Carrie, a Miranda, a Charlotte e a Samantha vivem é assim: mil coincidências acontecem, elas vivem aventuras incríveis, elas saltam com facilidade de um táxi para um camelo e tudo bem. Como a pintura de um cachimbo não é um cachimbo, uma história de cinema não é nossa vida. É a vida dos personagens.

Sinto isso em qualquer história, tanto no cinema como na literatura. No teatro, nem tanto, porque tenho dificuldade de entrar na história (mas isso é tema para outro post). Em livro e filme, costumo entrar imediatamente nessa outra porta, nesse outro universo, e como amo ser iludida, como amo acessar outra vidas, não importa se estou lendo Luluzinha ou Balzac, Meg Cabot ou Flaubert, Calvin ou Mario Vargas Llosa.

Claro, vendo a vida dos personagens, podemos refletir, podemos rir, podemos inclusive fazer análises sócio-político-econômicas, mas é aí que volto para o primeiro parágrafo. Acho antipática essa divisão entre filmes para refletir e filmes para esquecer a vida simplesmente porque eu posso muito bem refletir por dias depois de ver um filme como Sex and The City, assim como posso pegar o metrô e voltar a pensar nos meus problemas bancários depois de ter visto um filme cult que não me afetou.

Já aconteceu de eu não refletir nada numa aula de filosofia contemporânea, e refletir muito depois de ver um cara vestido de pizza na Paulista. Simplesmente não é o filme que vai me mandar refletir ou não sobre algo: depende do meu estado de espírito, depende se aquela questão abordada me toca, depende como estou no dia. E tem gente que costuma refletir sobre tudo, e tem aqueles que não refletem sobre nada, que dormem em filmes cult pretensamente cheios de sentido.

A propósito: adorei Sex and The City 2 e sou uma grande fã da série. E como é chato ouvir de várias pessoas que as moças são fúteis, que são reflexo dessa nossa sociedade-ocidental- individualista-consumista e que, portanto, o filme é um lixo. Espera, espera. Concordo que elas são fúteis, consumistas etc (elas não são só isso, tá! Mas ok, concordo e vou calar meu lado fã). Mas desde quando filme tem que retratar as  pessoas como elas devem ser?

Os personagens são o que são: não têm a tarefa de ser modelos de comportamento. Não preciso ser a favor de assassinatos de velhinhas para ler Crime e Castigo. Se eu rio com a futilidade das moças de Sex and The City, não significa que eu faça apologia dessa futilidade… E muito menos que eu ache que o mundo real deva ser assim. De novo, é o mundo delas. Se vamos fazer análises sobre o nosso mundo a partir do filme, ótimo; se vamos usar as atitudes das moças para exemplificar nossas idéias, legal, mas não precisamos exigir que o mundo delas seja de outro jeito. Deixemos o mundo dos personagens em paz! Aliás, é muito divertido ler e ver coisas com personagens “erradinhos”. Adoro ver como eles metem os pés pelas mãos. Como diria André Gide, com bons sentimentos, faz-se má literatura…

21 comments to “Sobre cinema e reflexão (ou: Uma apologia da história)”

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  1. Renata - 21 de junho de 2010 at 19:09 Reply

    Parabéns!!! ótimo post!

  2. Fernanda - 21 de junho de 2010 at 21:08 Reply

    Liliane, concordo com todas as linhas do seu post. É difícil viver levando nossa vida real tão a sério, imagine com personagens. Sou muito feliz por ter a mente aberta para qualquer tipo de filme. Vivo muito bem adorando comédia romântica e Davdi Lynch. Beijos!

  3. Tainara Costa - 21 de junho de 2010 at 21:12 Reply

    Incrível como concordei com você nesse texto. Sempre achei que meus gostos por filmes eram contraditórios, pois assim como adoro filmes hollywoodianos adoro também filmes cults e quando falava isso, meus amigos me perguntavam como isso era possível. Acho que a resposta é que todos as personalidades dos personagens dos filmes que eu assistia eu as encontrava no meu cotidiano ou até em mim em algumas fases da minha vida. Creio que se os personagens estão ali na nossa frente para vermos,analisarmos e apreciarmos é porque eles existiram ou existem para o autor do roteiro, mesmo que não tenha muita importância como parece. Nunca vi Sex and The City, mas não concordo muito com o que os críticos dizem, nem sempre concordo com eles,pois penso que os filmes são uma forma de nos levarmos a sair um pouco da realidade. Já pensou se todos os filmes retratassem a vida como ela é realmente, toda essa correria,stress,falta de paciência e outras mazelas da vida moderna?! As salas de cinema e as locadoras de dvd’s estariam vazias, pois já basta ver todo santo dia essa loucura. Os filmes, são sim para mim, formas de abstrações saudáveis que dependendo da pessoa que os assiste podem levar a reflexão.
    Beijos e parabéns pelo texto.

  4. Ana Luiza - 21 de junho de 2010 at 22:04 Reply

    Eu sempre fiquei quieta quando as pessoas me zuavam por adorar O Diário da Princesa, Sex and the city e A Nova Cinderela. Depois desse post eu tenho pelo menos uma ideia de um bom argumento aos que são a favor dos filmes pretensamente cult, e contra os meus queridos “água com açúcar”.
    Além disso fiquei pensando no nosso mundo como um grande Show de Truman. Mas isso sim é tema pra um post, milhões de vezes mais viajante.

    Ótimo texto.
    Um beijo

  5. Luana Furtado - 21 de junho de 2010 at 22:45 Reply

    Nossa, Lili… essa sua análise foi muito bem colocada… já estava até entrando nessa sua viagem de outro mundo e tudo mais… será que somos como um filme?! Tem um pessoal atrás de uma telinha sabendo de tudo que vai acontecer com a gente??.. sabe que eu acredito nessa hipótese…talvez não um pessoal, nem um outro mundo… mas alguém ou alguma coisa que já sabe toda a nossa história… isso algumas pessoas chamam de destino.. e eu até acredito, viu!
    Voltando pra Terra, pro blog… também reflito em qualquer filme, livro ou seja lá o que for, que me desperte vontade, curiosidade… não importa se é cult, se é bobo, se é fácil ou um quebra-cabeças!
    E, by the way, também sou fã da série e amei o segundo filme, as futilidades e tudo mais… afinal se não pudermos dar essas viajadas pelo menos no faz-de-conta, onde poderemos, né?!

    Beijo! escreve mais =)

  6. Dani - 21 de junho de 2010 at 23:57 Reply

    Oi, Lili!!! como sempre um post maravilhoso em que me identifico demais!!! sou conhecida entre minhas amigas da faculdade por ser “meiga e mulherzinha” simplesmente por gostar de filmes e livros agua com açucar, sex and the city e etc… por mto tempo me chateei, achando injusto eu nao poder gostar do que quisesse sem que isso me rotulasse, que eu tivesse de gostar só de “quem quer ser um milionário” ou afins…! gosto mtooo dessas coisas, desses mundos em que, assim como vc, mergulho totalmente, principalmente nos livros! tenho a coleção completa do diário da princesa da meg cabot, tentando completar de A Mediadora e… faço Gestão de Políticas Públicas na faculdade!! do lado da Meg na minha estante estão Platão e Aristóteles; fazendo companhia a Harry Potter, Januzzi e seus indicadores de políticas… e pq eu nao poderia gostar das duas coisas neh?? pq as pessoas tem que rotular que o que faço como facu é bom e o que eu faço para me divertir é ruim?? assim como você, sex and the city me fez refletir sobre mtas coisas que têm a ver comigo no momento do que a aula de políticas de reforma agrária!
    ahahahahaa
    Eu acho que somos muito complexos para as pessoas quererem nos colocar em pacotinhos de “vc gosta de coisas fúteis” e vc “de coisas úteis para a sociedade”… deixemos de complicar neh?? ^^

    mals pelo coment looongo! eh que me identifico demais com esse tema! bjaum

  7. João Paulo - 22 de junho de 2010 at 8:37 Reply

    Elas são simplesmente uma caricatura de muita gente, se fosse a descrição perfeita do cotidiano pra que teríamos que assistir ao filme se já vivemos?
    mas esse negócio de estar dentro da imaginação de outra pessoa é mto legal… por isso que eu gosto mto de assistir desenhos.

  8. Arthur Araujo - 23 de junho de 2010 at 22:10 Reply

    “Sex and the City” é o conto de fadas do século XXI. Todo mundo (sem nenhuma excessão) gostaria de ser um quinto elemento daquele quarteto fabuloso!
    A.

  9. carlinha abreu - 26 de junho de 2010 at 16:49 Reply

    Lili (a íntima), eu sempre me pego pensando na vida de personagens antes e depois dos filmes. Fica traçando suas histórias na minha mente :~P.
    Mas concordo com essa divisão chata: já assisti filme super cult e não senti nada. E no filme “O diabo veste prada”, refleti filosoficamente quando a anne hathaway disse que sacaneou com a colega dela porque não teve escolha e a meryl streep disse que ela tinha escolha sim.
    Um filme aparentemente bobo e fútil, mas que me deu uma mensagem importante.
    Adorei o post ; )

  10. Mathisa - 30 de junho de 2010 at 2:17 Reply

    Você já foi menos pretenciosa.

  11. Mayara Fonseca - 1 de julho de 2010 at 18:46 Reply

    Enfrentei umas caras de nojinho quando eu comprei aqui do trabalho os ingressos para a estreia de SexandCity e fui correndo pro Cinema..

    Tipo, quando me perguntam sobre o filme digo +/- isso, É um filme pra vc relaxar e se divertir, realidade completamente diferente da nossa, mas é leve, bacana.. Pra ver coisa profunda, vejo documentário..to numa vibe tão mais tranquila..e outra, temos uma vida pesada demais pra nos preocupar com esses gostos, otimos para nós, duvidosos para outros..

    Que se danem!

    Mais uma vez, adorei seu post..

    PS.: Eu sei que vc fica tensa quando fazemos pressão em você para nao ficar mto tempo sem postar e que falta criatividade as vezes e vc tem sua vida tals..e com toda pieguisse que tenho direito: nao fique mto tempo sem escrever, adoro ler oque vc escreve!

    Bjs

  12. Cleber Rocha - 3 de julho de 2010 at 8:44 Reply

    Liliane, oi…

    Não conhecia essa frase (a do André Gide). Adorei ela. XD!!

    Em tempo: Vc gosta de Sex and… pq assistiu a série e conhece as sutilezas das personagens. Já as tem como se fosse da família.
    Uma pessoa que só viu o filme certamente vai refletir diferente de vc.

    Bjão mocinha.

  13. Leetícia - 8 de julho de 2010 at 18:24 Reply

    liliane, sua uma grande fã sua! adoro sua coluna na CH, e adoroo ver seu blog! vê o meu tb!
    http://www.aborrecenteemcrise.blogspot.com

  14. Nanda - 8 de julho de 2010 at 19:15 Reply

    Oi. Há tempos eu queria acessar seu blog mas sempre esquecia. Sim, eu leio Capricho. Por pura coincidência (ou não) escrevi um post sobre um filme (Clube da Luta) hoje. Tá, não tem nada a ver com o que você falou aqui mas achei legal te dizer. É isso. Se quiser ir no meu “blog”, fique a vontade. Beijos 🙂

    Ps. Me senti bem agora. Tem pessoas que ditam regras para blogs e tals, falam que tem que postar todo dia… Resumindo, você não posta todo dia e nem eu, porque estou sem internet mas na maioria das vezes é porque não tem nada pra falar. Um Olá Marciano para você, não estamos sozinhos. (ps grande)

  15. Juliana Lopes - 11 de julho de 2010 at 13:25 Reply

    Lili, você pensa praticamente do mesmo modo que eu!
    Eu tenho 2 blogs e, num deles, (www.minhasepifaniasalheias.blogspot.com) eu posto frases lidas e ouvidas que me transcrevem ou com as quais eu concordo plenamente. Só pra te avisar que coloquei um pedacinho desse seu texto lá, ok?

    Beijos

  16. samuel - 23 de setembro de 2011 at 11:56 Reply

    adorei seu blog porque nele tem muita coisa bacana . Eu voltarei em breve

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