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Papo de bar (ou: a delícia de falar por falar)

Aconteceu faz tempo. Eu estava num bar, numa mesa cheia de gente, aniversário de uma amiga. Conversa vai, conversa vem, eu e um estranho começamos a falar sobre qualquer coisa. Diferenças entre homem e mulher, se não me engano. Ele solta umas opiniões divertidas, solto outras, brigamos de mentirinha, rimos bastante, e daí nos damos conta de que estamos sendo observados por uma garota muito séria, que nos olha de um jeito muito sério e diz:

- Não acredito que vocês estão falando isso. Não podem estar falando sério!

Ora, é claro que não estávamos falando sério! Estávamos conversando sobre qualquer coisa e rindo, estávamos num bar, pelo amor de Deus.

Já tive longas e produtivas discussões em bares (vazios e minimamente silenciosos), mas sempre com pouca gente, no máximo duas ou três pessoas, e pessoas que já conhecia. Gente que já sei que não levanta a voz em público (sou bem fresca nesse ponto, admito!), que não discute por competitividade, mas pelo simples prazer de trocar e, quem sabe, aprimorar conhecimentos, que não é cheia de preconceitos, que sabe ouvir… Até hoje, nessas situações com condições ideais de temperatura e pressão, entro em conversas “sérias” num bar. Mas parou aí. Mesa cheia, vários desconhecidos, barulho, gente levando a sério, gente levando na brincadeira, gente sóbria, gente bêbada, cada um com uma opinião, cada um com um jeito de discutir, cada um com uma visão do que é uma discussão? Nem pensar. Se o tema começa a se aprofundar, faço questão de voltar, feliz, para a superfície.

“Não dá mesmo para ter uma conversa séria com música tocando, garçons gritando, a mesa inteira rindo”, comentei outro dia com um colega da filosofia, ou melhor, das ciências sociais, mas que faz uma matéria da filo comigo, e  foi daí que nasceu este post. Ele completou: “Se tiver uma mulher que não tira os olhos de você, então… Não dá mesmo!” Eu estava concordando com ele, que dizia adorar se esquecer do mestrado e da vida numa mesa de bar.  “Meu mestrado vira uma piada atrás da outra, meu estudo vira uma coisa ridícula, os autores que admiro tanto se transformam em arrogantes faladores de m…”. Começamos a conversar sobre como é gostoso falar de banalidades, falar de coisas engraçadas, tornar engraçadas coisas sérias, simplificar complexidades…  falar por falar.

Falar por falar: a menina do primeiro parágrafo seria muito mais feliz se conhecesse a beleza de falar por falar, em vez de levar tudo a sério. Falar por falar é uma delícia, ainda mais numa mesa de bar. Falar por falar é de suma importância para as mesas dos bares! É divertido, é gostoso, descansa, relaxa e vai muito bem com uma porção de filé com fritas.

Se as conversas de bar tivessem mais silêncio do que palavras, e se essas palavras estivessem em expressões como “não sei”, “ainda não refleti o bastante sobre isso”, “cito a seguinte passagem” etc, o bar seria tudo, menos bar. As frases de bar são curtas, interrompidas a todo instante, sobrepostas, correm em ritmo rápido. Séculos de pensamento são resumidos em alguns aforismos, argumentos longos são substituídos por piadas, o passado é analisado facilmente em vinte segundos, o futuro em trinta. No bar, a gente sabe tudo, tem uma hipótese a respeito de qualquer coisa e, num discurso de um minuto, pode resolver os problemas da economia brasileira, decidir as próximas eleições e oferecer a saída perfeita para um capitalismo menos selvagem.

Em conversa de bar, cabe qualquer tema, mas não de qualquer modo: tem que ser agradável, leve, engraçado, e, se o preço disso for ficar na superfície, ótimo! No dia seguinte, cada um volta para sua vida, a cabeça volta a funcionar a pleno vapor e o mundo também, esse mundo maluco, cheio de banalidades e de coisas sérias.

P.S.: estava aqui pensando, quando terminei de escrever o texto… Acho um perigo confundir Twitter com mesa de bar! A palavra escrita tem força, e pode ser guardada, e as pessoas podem te cobrar, e seu chefe ou seu namorado podem não achar graça nenhuma. #Ficadica: vai para o bar! :)

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20 Comentários

  1. Publicado 19 de maio de 2010 em 6:32 | Permalink

    ola liliane,
    gostei muito desse post e penso como vc, no bar gosto de conversar e rir sem preocupacao, vou para me divertir.
    Como vc mesmo escreveu,se for para se aprofundar em algum assunto,mesa de bar nao eh o melhor lugar.
    um abracao.

  2. Publicado 19 de maio de 2010 em 8:18 | Permalink

    Mineira e belo-horizontina, tem que ser boa de conversa em bares… hahaha!

  3. Viviane
    Publicado 19 de maio de 2010 em 8:20 | Permalink

    Talvez a menina séria fosse mais feliz se a amiga dela fosse mais séria também, digo se ela também se preocupasse com assuntos importantes ao invés de se preocupar em expor os sentimentos da amiga ao público (coisa que amigas não fazem). Talvez a amiga séria esteja triste, porque esteja encontrando sucessivamente pessoas não sérias, como a pessoa que a expos aqui, ao invés de encontrar pessoas que realmente se preocupem e ajam por assuntos de interesse público!

  4. Publicado 19 de maio de 2010 em 8:47 | Permalink

    Oi, Li!!
    não sou mto de ir ao bar, mas o seu texto resumiu e me fez lembrar, com um sorriso, das poucas vezes que eu fui, relaxei e ri demais!!!

    bjaum! ^-^

  5. Publicado 19 de maio de 2010 em 9:29 | Permalink

    A cabeça só volta a funcionar direito no dia seguinte se vc não encher a cara….

  6. Ana Paula
    Publicado 19 de maio de 2010 em 11:53 | Permalink

    Falou tudo.

  7. Mari
    Publicado 19 de maio de 2010 em 17:12 | Permalink

    Excelente texto. Fiquei lembrando de uma festinha que fui domingo e um garoto começou a discutir (mas discutir mesmo) sobre o preconceito da sociedade com os baixinhos. Deu sono!

  8. Publicado 20 de maio de 2010 em 16:54 | Permalink

    Liliane, esse texto deu a idéia perfeita do que realmente tem de ser esse famoso “papo de bar”… Saímos do cotidiano geralmente, pra ir prum bar tão somente pra poder “esquecer” boa parte dos problemas e a delícia de ser o que é nesse caso é esse tipo mesmo de diálogo que vc demonstrou: despreocupado, risonho, solto, leve e fugaz… é muito irritante, mesmo, quando estou em uma rodinha de bar ou afim, e sempre tem aquela pessoa que leva toda a seriedade do mundo pra lá, nao admite os exageros, a leveza, a utopia e nem as sonhadoras conversas fiadas de bar, pra esse tipo, somente a rigidez e arrogancia parecem fazer sentido. Apoiada em todo sentido do texto, é exatamente isso que deveria sempre acontecer, mas pelo jeito sempre tem um ou outro que nao consegue ficar longe da sisudez, nem em uma mesa de bar… brademos pela leveza do ambiente, e que possamos ser o Dunga por momento, ou o Lula, quem sabe possamos ser membros da ONU ou do GREEN PIECE, um filósofo grego ou um socialista engajado, um herói, um cantor ou um famoso, um rico ou apenas um bêbado alegre… mas sempre com leveza e nunca nesse tom que sua “amiga do primeiro parágrafo” e nossos tantos outros “amigos” sempre fazem pra destemperar a conversa do bar e fazer a cerveja que deveria descer agradável desça amarga e sem ânimo.

    Em tempo: em que pese a leveza do texto, há que ressaltar que me fez pensar muito o último parágrafo, e vc conseguiu demonstrar o lado sem compromisso do texto tema e o lado sério da palavra escrita. PARABENS

    • Lili
      Publicado 20 de maio de 2010 em 21:40 | Permalink

      “(…) brademos pela leveza do ambiente, e que possamos ser o Dunga por momento, ou o Lula, quem sabe possamos ser membros da ONU ou do GREEN PIECE, um filósofo grego ou um socialista engajado, um herói, um cantor ou um famoso, um rico ou apenas um bêbado alegre…” Que belo texto/comentário! :)

    • Publicado 20 de maio de 2010 em 23:05 | Permalink

      na verdade, é Greenpeace. ;D
      E, sim, eu gosto de ser desagradável.
      Meio que é meu charme. ^^

  9. Publicado 20 de maio de 2010 em 17:19 | Permalink

    ai, é verdade. tem hora que o melhor é relaxar e curtir um papo descontraído.
    tem gente que se acha o máximo por discutir coisas super importantes o tempo todo. não dá! não suporto pessoas extremamente intelectuais. assim como é chato conviver com quem só fala besteira, é chato conviver com aqueles que acham que o mundo é uma grande tese… dá sono. vim no mundo a passeio também rsrs bjs, adorei o post

  10. Publicado 20 de maio de 2010 em 20:05 | Permalink

    meu namorado quase nunca acha graça nos meus tweets. nem nos meus papos de bar. ele tem o hábito de levar tudo a sério.
    tão não-tão-engraçado.
    ; /

    • Lili
      Publicado 20 de maio de 2010 em 21:37 | Permalink

      Meu marido tb leva mta coisa a sério. Não se chateie, eles precisam de nós! Haha

      • Publicado 20 de maio de 2010 em 23:02 | Permalink

        HAHAHA!
        Espero que precise, mesmo. Nem que seja pra dar motivos pra ele ficar irritado. A vida comigo é TÃO divertida. ;P

  11. Publicado 20 de maio de 2010 em 23:22 | Permalink

    Aliás, preciso perder esse hábito doentio de comentar os comentários alheios.
    E esse é meu último comentário, prometo.

    • Publicado 21 de maio de 2010 em 15:40 | Permalink

      Eu corrigi o GREEN PEACE no próprio twitter da autora do texto, assim que vi o erro quando mandei o comentário… de toda forma, percebe-se que não temos os chatos só nos papos de bares, em papos de blog também, huahuahua… brincadeira, valeu pela correção e toda forma de aperfeiçoamento é válida; mas eu já tinha visto e deixado a errata no twitter da Liliane ;D

      • Publicado 21 de maio de 2010 em 22:23 | Permalink

        eu tento ser chato em todas as instâncias da minha vida.
        é divertido.

  12. Andresa
    Publicado 24 de maio de 2010 em 16:15 | Permalink

    Oi Lili, queria saber se vc ainda faz aulas de violino e como vai indo nas aulas. Me conta… Bj

    • Lili
      Publicado 24 de maio de 2010 em 18:39 | Permalink

      Só ando praticando de vez em nunca… :(

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