O trabalho e o brilho dos olhos

Uma coisa que ouço com freqüência é que deve ser maravilhoso trabalhar com o que se gosta.

Meu marido adora me dizer isso. Como todo mundo que fala isso, ele não gosta do que faz e só trabalha porque precisa ganhar dinheiro. Ok, sejamos justos: não é que ele odeie seu dia-a-dia de gerente de finanças. Mas, se ele ganhasse na Mega-Sena, não mexeria com planilhas nem mais um dia da sua vida. Aliás, acho esse um ótimo método para alguém avaliar se ama o que faz: se você ficasse milionário, continuaria fazendo o que faz? Aliás parte 2, meu marido vive jogando na Mega-Sena.

Tenho uma amiga que é designer. Quando fiz essa pergunta-teste da Mega-Sena para ela, ela respondeu que, se ficasse milionária, sairia da agência onde trabalha na mesma hora… E passaria sua vida trabalhando em projetos bacanas, porque, afinal, ela, sim, ama o que faz.

Então, o que separa esses dois mundos, o das pessoas que só trabalham porque precisam de dinheiro e o daquelas que amam o que fazem, é, basicamente, o que elas gostam de fazer no tempo livre. Porque, quando não está trabalhando, meu marido ama ver filmes, sair com os amigos, ler, jogar jogos de computador, essas coisas. E minha amiga designer também gosta de tudo isso – menos a parte dos jogos de computador –, mas, no tempo livre, também ama ler sobre design, pensar sobre design, sonhar com design. Nem precisava: mesmo quando ela não está pensando em design, está vendo o mundo com os olhos de uma designer: porque uma pessoa que ama o que faz está sempre conectada com aquilo que ama, ao contrário da pessoa que trabalha só por dinheiro. Um bom exemplo é um amigo meu que trabalha no Banco do Brasil e, nas férias, fica com raiva só de passar na frente de uma agência.

Um exemplo oposto é o de um amigo comediante que, quando viaja a lazer, aproveita para relaxar a mente e… ter idéias, anotar piadas, pensar em futuros projetos. Uma vez, conheci um empresário do ramo alimentício, apaixonado pelo que fazia. Nas viagens, ele se divertia muito mais visitando centros de distribuição de alimentos do que museus e parques! “Fiquei 5 horas no Ceasa de Buenos Aires, foi incrível”, ele me disse, certa vez. Olhos brilhando. Porque quem ama o que faz tem isso, os olhos brilham.

Agora, vamos à parte não-poética dessa coisa toda. Aquela de que as pessoas que não amam o que fazem raramente se lembram. Aquela que as pessoas que só trabalham por dinheiro ignoram, quando mordem os lábios e dizem: “Que inveja ter um trabalho como o seu! Queria tanto gostar do que faço!”

Quando você ama o que faz, você fica eufórico quando as coisas estão indo bem, é verdade, mas você pode ficar muito, muito mal quando as coisas vão mal. Tenho um amigo ator que já chegou a chorar por testes em que não passou.  Uma outra amiga atriz passa meses triste, triste mesmo, quando a carreira está indo mal. Ela vê filmes, vai ao teatro, sai com os amigos, mas é como se a vida tivesse perdido a cor, como se tudo ficasse sem graça, porque o que ela ama, que é atuar, não está dando certo. Se alguém fala que ela está mal num papel, aliás, ela entra em crise existencial. Já se o chefe do meu amigo que trabalha no banco reclama de uma planilha dele, ele fica meio envergonhado e corrige o erro – e manda mentalmente o chefe para a pqp, dependendo do dia.

Meu marido, se tem uma fase ruim no trabalho, fica novo em folha depois de um fim de semana. Uma partida de futebol na TV, um bar com os amigos e pronto: ele nem se lembra que trabalho existe. Trabalho e ele são coisas completamente separadas: se o primeiro está bem, o outro pode estar mal e vice-versa. Afinal, é tudo uma questão de dinheiro, e lá está ele, sempre conferindo os bilhetes da Mega-Sena.

Mas, quando você ama seu trabalho, você se envolve muito com ele, até porque ele não está separado de você. Ele faz parte de você, ele está colado, grudado, enfiado de tal maneira em seu coração que, se você fosse proibido de fazer o que faz, você seria outro você e sua vida, outra vida.

Bom, mas o que é melhor, amar o que fazemos ou não?

Como se desse para escolher.

Se você ama uma atividade e não for masoquista, vai fazer essa atividade, mesmo que não ganhe um centavo por isso. É o caso do engenheiro que adora escrever, e que trabalha para uma empresa de construção civil, e que escreve no tempo livre, e que reclama de como é difícil ganhar a vida como escritor e que amaria trabalhar só com isso – como os que trabalham por dinheiro, ele não sabe que não é fácil trabalhar com o que gosta.

Se você não ama o que faz, vai ficar como meu marido, trabalhando por dinheiro e aproveitando maravilhosamente bem os momentos da vida que não envolvem trabalho.

E, se você ama o que faz, vai ser muito feliz e amar a sua vida, e vai aproveitar inclusive os momentos que não estão diretamente ligados ao seu trabalho… Mas só quando as coisas estão dando certo para o seu lado. Porque, quando não estão, você vai ficar miserável, e amaldiçoar o universo, e pensar em jogar tudo para o alto, e questionar seu talento, e sentir inveja de quem trabalha só por dinheiro.

Mas, no fundo, tudo isso é passageiro, porque, logo, logo, você, que ama o que faz, vai estar cheio de idéias para virar o jogo e conseguir colocar em prática seus projetos, e vai estar agitado e eufórico com essas idéias. Porque as pessoas que amam o que fazem são agitadas e eufóricas. E as pessoas que não amam o que fazem costumam achar isso bonito na gente. E, pensando bem, é bonito mesmo.

30 comments to “O trabalho e o brilho dos olhos”

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  1. carlinha abreu - 1 de maio de 2010 at 15:28 Reply

    isso é bonito mesmo: fazer o que se gosta. eu adoraria fazer o que gosto, que é trabalhar com filosofia, mas não dá. amo ler, escrever, filosofar, pesquisar… mas nunca vou gostar de ensinar. este é meu grande dilema. daí que decidi começar a prestar concurso, porque tem outro lado: é melhor ter um emprego que te sustente e você não ama, do que amar algo que você nunca vai conseguir fazer nem do qual conseguirá sobreviver. vou deixar a filosofia pro meu tempo livre. e como você, estudante de filosofia, deve saber: o que a gente aprende com a filosofia, vale pra tudo na vida!
    amei o texto! sou sua fã ; )

  2. Beatriz Miná - 1 de maio de 2010 at 15:59 Reply

    Felizmente, eu amo o que faço! Mas o problema (pra quem convive com a gente desse tipo) é que nós nos envolvemos com o trabalho tanto quando ele vai bem quanto quando ele vai mal. Se está mal, nos desesperamos. Se está bem, é difícil não sermos monotemáticas e agir como se o mundo inteiro tivesse o mesmo interesse pelo que fazemos…

  3. Ana Paula - 1 de maio de 2010 at 16:29 Reply

    ‘frequência’ não tem mais trema, beijos

  4. Daiane e. - 1 de maio de 2010 at 17:46 Reply

    Estou no terceiro ano do ensino médio . . . . quero um dia olhar para min e poder diser que tenho uma renda boa e trabalho com oque amo , não me vejo feliz com outa realidade, ñ tanto a do dinheiro mais pelo trabalho, hj olho pra frente e não consigo me imaginar feliz em uma atividade que não seja voltada as artes ou algo do tipo ( design, arquitetura, etc etc ). Adorei esse texto assim como todos os outros Ass; Sua fã Daiane Enzweiler.

  5. Luis - 3 de maio de 2010 at 3:30 Reply

    Também não consigo aceitar que trema e crase não existem mais. Também não consigo acreditar que ainda deixo a brasa do cigarro cair no teclado.
    Já ouviu falar em trabalho estranhado? Marx, mano.
    Aí, pensei nas coisas que entram na sua pele, quer você queira, quer não. Como marxismo. O meio influenciando barbaramente seu modo de ver o mundo. Claro que chegar até aqui me desviou completamente do foco, mas, se eu realmente amasse o que eu faço da vida, eu estaria lendo e comentando esse blog agora?
    o.O

  6. João Paulo - 3 de maio de 2010 at 10:29 Reply

    Melhor mesmo é ganhar na Mega Sena e fazer o que gosta sem ser trabalho. Ou então trabalhar com o que gosta desde que o que gosta dê mto dinheiro e não tenha como entrar em crise (existe isso? se existe já gostei disso)
    Bjs

  7. Mayara - 3 de maio de 2010 at 22:14 Reply

    Acho que isso tudo tem um pouco a ver com ‘ se sentir completo’, o que nos falta para amar o que fazemos? Pq me parece que se a pergunta fosse: ‘- o que nos falta pára fazer o que amamos?’ – a resposta seria: ‘-dinheiro’

  8. Thaís Lima - 7 de maio de 2010 at 13:21 Reply

    Estou lendo ‘Sucesso feito para durar’ por causa do meu curso na facul (adm) e nele fala que nós sempre ficamos imaginando como seria bom fazer o que gostamos e achamos impossível que um dia isso aconteça, mas que é um erro não fazer o que se ama, pois alguém amará fazer o seu trabalho e essa pessoa trabalhará com mais afinco e paixão do que você e renderá bem mais no trabalho, tendo sucesso, enquanto você continuará sempre na mesma. Concordo com o livro mas acho muito dificil só trabalharmos com o que gostamos, as vezes não dá nem para nos sustentar, então temos que ao menos gostar do nosso trabalho e podemos fazer o que amamos como hobby ou uma segunda profissão =)

  9. Carla - 8 de maio de 2010 at 19:57 Reply

    Isso me lembra de um post que eu fiz no meu blog…
    http://brincandonoceu.blogspot.com/2009/02/liberdade.html
    A ideia sobre fazer o q se quer ou não.
    Muito bom o texto!
    Beijoss

  10. ricardo lombardi - 10 de maio de 2010 at 19:30 Reply

    ótimo texto!
    tem uma questão de fundo que é: quantas pessoas descobrem bem cedo algo que amarão fazer pelo resto da vida?
    bj
    Ricardo

  11. Viviane - 11 de maio de 2010 at 10:11 Reply

    Amei o livro: “Uma bebida e um amor sem gelo, por favor”
    Só acho que o final chegou depressa demais. Você podia ter narrado a Marina contando para o pessoal da agêmcia sobre a Rafaela com mais detalhes, né? Deixou a gente com água na boca! Também achei um absurdo o final da Luciana-falsa. Você tinha que ter deixado a Marina fazer um escândalo com a falsa… Gostaria de saber se a Ju foi feliz no casamento e se a Marina encontrou um novo amor. No começo do livro, achei que ela ia acabar ficando com o Alexandre. Mas gostei bastante da história, sim e gostaria de saber se além desse e os diários da Débora, se você tem mais livros do gênero…

    • Lili - 11 de maio de 2010 at 11:37 Reply

      Deu vontade de escrever “Uma bebida e um amor sem gelo” – versão estendida! Haha! Não tenho mais livros do gênero, mas pretendo escrever um assim ainda este ano 😉

  12. Mayara Fonseca - 14 de maio de 2010 at 16:47 Reply

    Lili, eu leio você desde que começou na capricho e ela (a revista) fazia parte do meu dia-a-dia…Nao me lembro de ter lido um texto seu que se identificasse TANTO com a minha atual fase.

    Eu simplesmente estou no time do seu marido…e as vezes, até jogo!! Eu nao gosto do que eu faço, e eu sou uma mera assistente, nao gosto, nao acredito e nao vejo sentido no que faço, faço pura e simplesmente pra ganhar dinheiro e me sustentar(!)

    Vou chegar lá, eu sei que vou…

  13. Samanta Siqueira - 16 de maio de 2010 at 17:47 Reply

    Texto lindoooo!
    Quero ter muita clareza na minha mente e sorte pra conseguir trabalhar em algo que eu goste mesmo! hehe
    beijos Lili *-*

  14. Adriana Diniz - 17 de maio de 2010 at 18:45 Reply

    Oi! Estou vivendo um dilema na minha vida – pelo menos, hoje estou vivendo um dilema – e esse texto conseguiu concretizar, com clareza, aquilo que eu achava que estava acontecendo comigo. Eu trabalho porque preciso do dinheiro em algo que aboslutamente não gosto e tenho um hobby (blog) que é algo que absolutamente amo fazer e, invariavelmente, sonhei sim em ganhar dinheiro com ele. Continuo com os dois? Ainda não sei dizer. Mas fico feliz que esse dilema eu não vivo sozinha, pois existem muitas pessoas assim como eu. Aliás, feliz sou eu que pelo menos encontrei algo que gosto de fazer, um hobby.

    • Lili - 18 de maio de 2010 at 11:59 Reply

      Concordo… não precisamos capitalizar todas as coisas de que gostamos… qdo conseguimos ganhar dinheiro com o que gostamos, é ótimo, claro, mas tb surge aquela outra questão: o dinheiro pode mudar nossa relação com essa coisa de que gostamos, e nem sempre de um jeito que nos deixa feliz…

  15. João - 18 de maio de 2010 at 11:36 Reply

    Saiba, é muito bonito, muito bonito mesmo. Acho que saber que existem pessoas aí que não estão contando os dias pra poder entrar com a aposentadoria, não contam os segundos pras férias, me deixa feliz por tabela.

    E espero um dia descobrir como é trabalhar com aquilo que se ama…

  16. andre chui - 21 de maio de 2010 at 11:15 Reply

    adorei o texto, Lika. De uma forma delicada vc tocou no problema das profissões modernas desse nosso mundo ….

  17. Luis - 23 de junho de 2010 at 18:32 Reply

    oi Lili,
    posso comentar neste post antigo? 🙂
    Legal o texto, adorei que menciona que as vezes o que amamos nao nos da a renda que queremos ou nao esta dando certo…
    E lembrei tambem que ouvi um dia dizerem que existe aquilo que a gente sabe fazer, e que a gente gosta de fazer. Se tivermos sorte, serao a mesma coisa!

    E vi o filme Office Space (acho que em portugues eh Como Irritar seu Chefe) e eles mencionam esta pergunta no filme: o que faria se tivesse meio milhao de dolares? A resposta indica a profissao, mas o cara se faz esta pergunta e nao acha resposta, queria ficar a toa sem fazere nada o dia todo…

    Bjos!
    ps: to usando o teclado de computador ingles entao nao preciso preocupar com trema e acentos, vai tudo sem nada mesmo! rsrs

  18. Edson Caldas Jr - 3 de julho de 2010 at 11:16 Reply

    OMG!
    É só o que consigo dizer.
    Eu sempre fui muito fã dos seus textos na Capricho, mas hj durante essa manhã resolvi entrar no blog e dar uma olhada e… BUM! Seus textos aqui conseguem ser ainda mais lindos!
    Me identifiquei muito com esse texto, pois sou estudante e estudo muuuito para um dia fazer o que gosto!
    Achei o texto lindo, e agradeço por vc fazer textos tão esclarecedores que nos ajudam a pensar e nos encontrar dentro de nós mesmos.
    Obrigado

  19. ENDY BENITTIS - 30 de julho de 2010 at 14:34 Reply

    Olá Lili sou sua Fã , adoro seus textos na capricho e realmente me indentifiquei muito com esse texto .
    Eu sim , trabalho por dinheiro começei muito cedo ainda não sabia oque eu realmente gostava de fazer .
    Agora eu sei que sou apaixonada por FOTOGRAFIA , em tudo que eu olho penso olha que foto linda que ficaria.
    Algumas pessoas não consideram fotografia como profissão mais eu sei o quando isso é importante ,tanto pra mim como pra muitos fotografos por ai .
    E quando me dizem que fotografia não é profissão eu quero morrer.
    Já começei e correr atras dos meus sonhos ,e quero um dia conquistar meus objetivos.
    Beijos Lili
    PARABENS E SUCESSO *

  20. Jamile Sallum - 10 de novembro de 2010 at 14:43 Reply

    O post é antigo, mas tive a oportunidade de lê-lo hoje e não pude deixar de vir aqui dizer quão imensamente gostei!! Me recordei imediatamente de Confúcio, quando ele diz “Escolha um trabalho que ame e não terás de trabalhar um único dia da sua vida”…!! Beijos e parabéns!

  21. Camila Cristina - 6 de março de 2011 at 22:14 Reply

    É tudo isso é realmente verdade… eu vou começar meu tecnico e colegial, estou com uma dúvida enorme; pensei em fazer jornalismo, amo ler e escrever, mas não gosto de estudar língua portuguesa; adoro matemática, tenho raciosinio rápido (na matemática), pensei em fazer administração e seguir a carreira do meu pai, que tem uma empresa de comunicação visual. Não sei o que eu faço, estou confusa.Quero algo que eu goste…mas é esse ponto que ta pegando.

  22. thaina ferrari - 29 de junho de 2011 at 22:13 Reply

    Nunca ame uma pessoa pela su aparência.
    E pela capacidade de amar você.

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