Só assim seremos felizes

Os dois se sentaram no sofá. Ninguém falou nada.

– E então – disse o terapeuta, por fim. – O que os traz aqui?

O marido viu que a mulher não ia dizer nada e falou, com a boca cheia:

– Ela me traiu.

Era tão bom saber que tinha razão! Aquele seria um trabalho fácil para o terapeuta. Aliás, ele devia pedir um bom desconto.

– Por quase um ano, a cara-de-pau teve um amante – continuou. – Estamos juntos há quinze anos e posso garantir: nunca fiquei com outra mulher. Não vou dizer que nunca tive vontade. Tive. Mas controlei. Controlei! Ela, por outro lado, deixou nosso casamento de lado. Nem pensou em nossos filhos. Temos dois! Mas ela nem se sente mal, porque é bígama. É até crime, não é? Eu poderia mandar prendê-la.

O terapeuta olhou para a mulher, quieta no sofá. O marido continuou.

– Nosso casamento acabou. Não tem volta.
– Então, por que decidiu vir até aqui? – o terapeuta perguntou.
– Porque quero que lhe mostre que ela errou. Não sei se é o estresse, se é algum sintoma da bigamia, mas ela não consegue entender esse simples fato. Quero que mostre a ela que trair é errado, que ser adúltera é uma vergonha e corno, uma humilhação.
– Já disse. Não vou dizer que errei, porque não acho que errei – ela falou.
–  Está vendo só, está vendo só! – o marido gritou.
– Ou melhor, errei, mas meu erro foi ter meu caso descoberto. Se isso não tivesse acontecido, não estaríamos aqui.

O terapeuta olhou rapidamente o marido. Não, ele não parecia estar armado. Ótimo.

– Infiel! – o marido gritou, com a boca cheia.
– Já disse que não acho que eu tenha errado. Entretanto, posso tentar justificar o que fiz. Se justifico, é porque te amo e quero continuar casada com você.
– Essa mulher é psicótica, doutor. Psicótica! Como você pode ter coragem de dizer que me ama? Infiel!
– Não podemos tentar conversar sem o apoio desses rótulos? Infiel, corno, adúltera. Esqueça as palavras e me escute com sua alma.
– Desculpe, não entendi o que você disse, porque entendo apenas o que é dito com palavras.

O terapeuta segurou uma risadinha.

– Quer parar de brincadeira e me ouvir, por favor? – ela pediu. – Amo você. E sou muito feliz ao seu lado. Sempre fui! Mas nenhum relacionamento pode dar tudo a alguém.
– Vamos lá: eu sou seu amigo, sou ótimo pai e tenho certeza de que não deixo a desejar na cama. Como se não bastasse, sei dançar e cozinho! Um gênero raro no reino dos maridos. Viu, ainda te faço rir! O que não posso te dar, minha filha?
– Você não pode me dar a emoção de um primeiro beijo.

Silêncio. Isso, ele não podia mesmo dar. Golpe baixo.

– Bem ­– ele disse, tentando se recompor. – Você também não pode me dar isso, tá certo? A-há! Estamos empatados.
Ela franziu as sobrancelhas e ele desmanchou seu olhar de vitória. Bom, ninguém tinha dito que era uma competição.
– Nenhum relacionamento nos preenche totalmente. Todo casamento envolve, além da história dos dois, outras histórias com as quais sonhamos.
– Doutor, já falei que minha mulher, ou melhor, que minha ex-mulher é poeta? Por que você não ia para as portas dos cinemas complementar nosso orçamento?
– O que você não entende – ela disse – é que as pessoas têm diferentes temperamentos.
– É verdade. Eu, por exemplo, tenho um temperamento fiel. Você, não.
– É aí que está! Para algumas pessoas, como você, é muito fácil apagar essas outras histórias como quem apaga uma frase escrita a lápis. Para outros, não é assim tão fácil. Você diz que nunca ficou com outra mulher e parece se orgulhar disso, mas era fácil para você. Então, se era fácil, não era mérito.
– Tem toda razão. Mérito é trair seu marido. Não é à toa que um dos doze mandamentos é “trairás” e outro é “cobiçarás a mulher do próximo”. Nossa, preciso me confessar! Estou pecando!
– São dez mandamentos, não doze.
– Como você sabe? E se Moisés deixou cair duas pedras quando voltava do Monte Sinai? Não é fácil carregar pedras, ainda mais para um senhor de idade.

O terapeuta concordou com a cabeça. Fazia sentido.

– Escuta – ela pediu, tentando voltar aos seus motivos. – Não trair, para usar a palavra que você tanto usa, era fácil para você. Mas, para mim, não trair você em quinze anos seria trair a mim mesma! Que casamento seria esse?
– Olha, eu fico confortável com a idéia de você trair a si mesma.
–  Eu já tinha me controlado outras vezes. Controle. Sei que as pessoas valorizam isso. Mas fui me sentindo envolvida por esse homem, até que me apaixonei.
– Perfeito. Espero que, com ele, você se lembre de seguir os mandamentos.
– O dia em que nos beijamos foi um dos melhores da minha vida – ela continuou. – Você diz que eu deveria ter me sentido mal. Como me sentir mal, se foi um dos melhores dias da minha vida?

O terapeuta olhou para o homem de novo. Não, ele não estava mesmo armado.

– Querido, como eu disse, eu amo você. Nunca cogitei trocar nosso casamento por ele.
– Olha, fico feliz! Você é uma pessoa muito do bem.
– Me escuta! Fui muito discreta o tempo todo, porque não queria machucar você. Nunca nem comentei meu caso com alguma amiga. Quando eu mentia sobre o lugar aonde ia, mentia com perfeição, de modo que você se sentia feliz e tranqüilo. Em casa, sempre lhe dei toda a atenção do mundo.
– Bacana. Além de poeta, você pode dar aulas de casamento para jovens à beira do altar! Olha, gente, o papo está ótimo, mas eu estou de saída.
– Não quer terminar de ouvir sua esposa? – pediu o terapeuta.
– Sabe o que é, doutor, ela tem vários empregos, mas eu só tenho um e preciso trabalhar. Foi muito produtiva a consulta, obrigado.
– Eu só te dei alegrias – ela agora chorava. – Nossa vida sempre foi harmônica. Você sempre se sentiu amado, quer felicidade maior do que essa?
– Você quer mesmo que eu responda?
– Eu me casei comprometida a lhe fazer feliz, e a ser feliz com você, e eu fazia e eu era! Sempre fui uma esposa excelente e uma mãe dedicada, você sabe disso. Não sou adúltera, não sou bígama. Eu sou eu.
– E eu sou eu, prazer. Nos vemos no advogado? Com licença.

O terapeuta fez um sinal e ele acabou suspirando e se sentando novamente.

– Tudo bem, essa consulta custa uma fortuna, vamos aproveitar o tempo que falta. Olha, achei muito bonito seu discurso. Muito, mesmo. Vamos fazer o seguinte? Nós retomamos nosso casamento, e eu arranjo uma namorada para ficar um ano com ela. Que tal?
– É claro que não irei concordar com isso.
– Incoerência genética, doutor. Incoerência genética! Se não existir essa doença, olha que alegria, você acompanhou o primeiro caso.
– Se eu achasse que seria bom que você soubesse do meu relacionamento, eu mesma teria lhe contado! Mas sempre fiz questão de esconder o mais escondido que pude. Todo mundo diz que quer ter consciência de tudo, mas a consciência machuca.
– Sabe o que machuca mais ainda? Chifre.
– Certas coisas não devem mesmo ser ditas. Segredos, por definição, não devem ser revelados. Se você quer ter uma namorada por um ano, não me conte. Faça mais: me dê a certeza de que você nunca teria uma namorada por um ano. Só assim seremos felizes.
– “Só assim seremos felizes”. Nome de novela! Gostei. Mas, se for escrever, por favor, arruma outro enredo. Sabe como é, vivemos numa sociedade cristã, que segue os doze mandamentos e tudo mais.

Ela enxugou as lágrimas.

– Te amo, meu amor.
– Obrigado, fico feliz. Agora, deixa te perguntar uma coisa, só por hipótese mesmo: se, por acaso, a gente voltasse, você terminaria com esse sujeito? Nunca mais iria vê-lo?
– Nunca mais.
– Como vou saber qual estilo de mandamento você está seguindo? Você mente.
– Acredite em mim, eu acredito em você e não precisamos de mais nada.
– Queria ouvir você falando isso com o gerente do banco, na hora de pedir um empréstimo.
– Você acha que quero uma vida de mentiras? Não! Quero uma vida de amor, como sempre foi a nossa vida.
– Você é louca.
– Sou lúcida.
– Por que quer ser lúcida, se a consciência machuca? A-há! Te peguei.
– Não escolhi ser lúcida. Não escolhi ser eu. Se gosta de mim, se me respeita do jeito que eu sou, fique comigo. Eu sou eu!
– De novo, as apresentações? Já estamos no fim da consulta.
– Eu sempre o respeitei. Sempre! Falta de respeito seria se eu o tratasse mal. Se eu não me separasse, mas passasse meses implicando com seu jeito de ser, fugindo de você na cama, derramando todas as minhas frustrações sobre as suas costas! Falta de respeito seria se eu não o amasse mais e continuasse casada com você. Falta de respeito seria se eu desejasse mal a você, se eu o achasse ridículo, patético, mas eu o admiro, eu te amo!
– Sabe, eu ia adorar todo esse seu respeito, se não tivesse um par de chifres em cima dele. Não posso ter só o respeito, sem a parte do chifre? Só vende o pacote?
– Talvez exista esse pacote para alguns. Talvez ele fosse possível mesmo para mim, se eu não tivesse conhecido quem conheci. Mas eu conheci. As coisas aconteceram como aconteceram. Se não tivessem acontecido como aconteceram, eu não saberia nem dizer quem é essa que esta falando com você agora. Eu poderia ser frustrada, amargurada, podia ser tudo o que não sou. Sou feliz.
– Bem, você quer me convencer de que é uma pessoa melhor porque teve um amante, é isso? Doutor, quero meu dinheiro de volta.
– Escuta, não quero mais convencê-lo de nada. Quero apenas dizer: te amo. Vamos nos amar do nosso jeito, eu e você somos quem somos.
– Ah, não. De novo, as apresentações! Doutor, anota aí: além de bigamia e incoerência genética, ela tem amnésia. Querida, já sei quem é você. Espero que consiga se lembrar da nossa reunião com o advogado, amanhã de manhã. Estou indo embora. E você, doutor, peça o cheque para ela. Ela é que tem vários empregos, não eu.

E ele saiu, pensando nos doze mandamentos. E se fossem quinze? E se os últimos anulassem os primeiros? Isso, ele nunca iria saber.

24 comments to “Só assim seremos felizes”

Você pode deixar um comentário ou Trackback para esse texto.

  1. Tiago - 1 de abril de 2010 at 15:13 Reply

    Incrível. Seu talento é notório, e não fica restrito a apenas um estilo de texto.
    Essa foi uma das melhores crônicas que li em muito tempo. Parabéns.

    • Lili - 1 de abril de 2010 at 15:45 Reply

      É mágico colocar os textos aqui e ver as pessoas gostarem. Mto obrigada! Nada contra críticas, mas é claro que não tem nada mais gostoso do que receber elogios 🙂

  2. Maria Eduarda - 2 de abril de 2010 at 1:05 Reply

    Nossa, eu adorei! Eu sou muiito ciumenta e certinha, mas o texto me mostrou um outro ponto de vista..
    Eu sei que nunca iria segui-lo, mas de todo jeito foi uma nova versão que em fez pensar!
    Parabééns Lilii!

  3. Mathisa - 2 de abril de 2010 at 12:52 Reply

    Há uns 5 anos que leio seu blog, mas essas últimas duas crônicas…
    Simplesmente: parabéns.

  4. Kamila - 2 de abril de 2010 at 19:49 Reply

    Parabéns Liliane. Gostei muito desta crônica. Faz a gente pensar sobre nossos relacionamentos de forma inteligente e criativa.

  5. toxiic s. - 3 de abril de 2010 at 16:48 Reply

    nossa, adorei! fiquei imaginando essas cenas no teatro hahaha
    adoro seus textos Lili *–*
    beijo ;*

  6. Aíla - 4 de abril de 2010 at 15:18 Reply

    Concordo com o cara e fiquei meio inquieta lendo o que a mulher falava, como se justificava e pensando nas mil contradições dela. Ao mesmo tempo, no final, parece que ele não se chateou pelos mesmo motivos que eu me chatearia, não por ter se sentido desrespeitado e querer evitar sentir isso de novo, mas mais pra que não houvesse uma outra vez pra que ninguém pudesse saber, comentar.
    Como sempre, um bom texto, Lili (:

  7. João Victor - 4 de abril de 2010 at 15:56 Reply

    Um texto muito bem escrito porém uma grande perda de tempo.
    Por favor nem todos gostam deste estilo de finalização.
    Não fique triste com o que disse.
    Creio no seu talento e estarei aqui para ler o próximo.
    Sucesso!

    • Cintia - 11 de abril de 2010 at 5:17 Reply

      Não diria perda de tempo, mas realmente esperava um final diferente. O texto foi muito bem escrito, dá pra perceber que foi escrito com carinho. Minha crítica é que a história leva muito tempo para chegar num final que poderia ter acontecido muito antes no decorrer da história. Comecei a ler o texto em um dia e tive que parar um pouco antes do meio. Confesso que fiquei muito curiosa para saber o que vinha a seguir. Voltei hj pra continuar lendo, fiquei meio decepcionada. Não sei quais foram as suas intenções em termos de mensagens subliminares, se é que você tinha alguma – se for esse o caso, faz um pouco mais de sentido vc ter dado o final que deu. Caso contrário, um desfecho diferente teria sido mais bem sucedido, na minha opinião. Se vc puder me dar uma resposta quanto ao post, aqui ou por email, eu ficaria muito feliz!

      Volto sempre.
      Beijos

  8. carla abreu - 5 de abril de 2010 at 15:19 Reply

    hoje fui à dermatologista e fiquei na sala de espera folheando uma cláudia (acho que era essa a revista). honestamente, não estava interessada em nenhuma matéria, até ver uma sobre acaso e destino. li o resumo e, quando vi seu nome, me empolguei. ADOREI! jornalista & cronista & filósofa, só podia ter resultado numa matéria sensacional.
    p.s.: eu sou da filosofia e adoro ler textos filosóficos simples, sem aquele apelo acadêmico e prolixo!

  9. Samanta Siqueira - 6 de abril de 2010 at 18:02 Reply

    UAU!
    ri muito com essa crônica e me fez refletir bastante!
    Você é incrível, uma das minhas cronistas favoritas *-*
    Beijos, Lili ♥♥

  10. hingridyd'lih - 18 de abril de 2010 at 13:10 Reply

    Nossa Liliane…admiro demais a sua naturalidade textual. Me inspiro lendo os seus texto. Espero que algum dia eu consiga produzir textos tão bons quanto os seus.

    :]

  11. hingridyd'lih - 18 de abril de 2010 at 14:47 Reply

    P.s: fiquei imaginando essas cenas no teatro hahaha [2]

  12. Thalissa - 26 de junho de 2010 at 10:40 Reply

    Como sempre com seus belos textos, da até orgulho de saber que pessoas com seu potencial existem . Parabéns querida, adorei!

  13. Sarah Costa Jorge - 28 de junho de 2010 at 10:16 Reply

    Nossa que Texto maravilhoso! Adorei! Eu sou atriz e assistente de direção de uma cia de teatro aqui de Fortaleza-Ceará, vou levar esse texto para meu diretor. Por acaso se houver interesse de montar uma esquete ou até um espetáculo de teatro.. você autorizaria? Não sei se seria pra agora, por que estamos trabalhando em outros espetaculos, mais quem sabe no segundo semestre, já me vejo fazendo a mulher! Deixei aii meu e-mail e meu blog. Se puder. Visite!

  14. sarah - 14 de setembro de 2010 at 16:15 Reply

    meu,esse texto è muito grande,mais é muito manero,falô!!!!!!!!!

  15. Josy - 18 de janeiro de 2011 at 12:59 Reply

    -Nossa texto lindo & essa mulher tem uma conversa muito boa,um grande talento pra se fazer de vitima! muito bom parabéns lili

  16. Natália - 30 de abril de 2011 at 21:53 Reply

    Liliane, sou sua fã. Você escreve muito bem, eu amo escrever e um dia gostaria de ter o seu talento. Obrigada por me inspirar, você é incrível.

  17. Aline Fratoni - 27 de março de 2012 at 14:53 Reply

    Me lembro quando lia textos seus na revista Caprixo quando eu era adolescente, nem sei se vc ainda escreve la, adorei ter encontrado o seu blog agora sei oq vou fazer nas “horas vagas” no trabalho.
    bjos

Deixe uma resposta para Lili Cancelar resposta

Your email address will not be published.