Os donos do tempo

No fim do ano passado, eu estava numa fase superocupada. Frilas, trabalhos finais da faculdade, curso de teatro. Meio sem paciência, decidi diminuir o ritmo em alguma coisa. Escolhi meu hobby: o curso de teatro, que é às 8h15. Comecei a chegar atrasada, para aliviar meu dia. Beleza.

A professora não chiou. Até meados do semestre, eu tinha sido uma aluna aplicada. E, mesmo com os atrasos, estava longe de estourar meu limite de faltas. Mas eis que, um dia, no intervalo, eu meus colegas estávamos conversando sobre… sono. Sei lá por quê. Aí, comentei que costumava dormir oito ou nove horas todos os dias. Terror. Censura. Pânico! Um deles disse:  “Como assim, você dorme oito ou nove horas por dia? E ainda tem a cara-de-pau de dizer que está sem tempo?!”

É, ué. Sem tempo. Posso tomar café-da-manhã na frente do computador, se estiver enrolada. Mas prefiro sacrificar outras coisas – como a assiduidade ao curso de teatro – a diminuir meu sono.

Lembrei de um colega meu da filosofia. O dia-a-dia dele contava com duas atividades principais: ele fazia graduação à noite e tinha uma bolsa. Pela bolsa, ele tinha que trabalhar quatro horas por dia… duas vezes por semana. Não é o que podemos chamar de um workaholic, convenhamos. Mas, mesmo assim, depois de alguns meses, ele desistiu da bolsa.

Eu: Como. Assim.
Ele: Eu não tinha tempo para estudar.
Eu: Mas sua bolsa não tomava nada do seu tempo!
Ele: Nada, não. Quatro horas por dia, duas vezes por semana.
Eu: Mas era do lado da sua casa… mas… mas…

Quis saber como ele administrava o tempo. Ele contou. O café da manhã leva mais de uma hora: afinal, ele gosta de tomar café com calma. O almoço, duas horas. A caminhada depois do almoço é sagrada. Quando ele se dava conta, já era hora da aula e ele não tinha estudado tudo o que queria.

Por outro lado, quando esse meu colega precisa estudar muito, ele dorme três horas por dia.

Ninguém me pediu nenhuma sugestão de como levar a vida e não encher a paciência dos outros, mas aí vai. Quando alguém disser que está sem tempo, acredite. Deixe a pessoa lá com o tempo dela! Porque os relógios podem discordar de mim o quanto quiserem. Mas, realmente, o tempo não é igual para todo mundo.

5 comments to “Os donos do tempo”

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  1. Angélica - 8 de abril de 2010 at 1:55 Reply

    Pensei que eu era a única pessoa a tomar um café da manha de duas horas….hehehehe
    As pessoas também nao entendem meus horários, mas por isso é que eles sao MEUS e de ninguém mais, né? Basta eu compreende-los…oras!!!

  2. Vivi - 8 de abril de 2010 at 11:42 Reply

    Oi Lili concordo com vc plenamente e adoro seus textos !!! Bjs !!

  3. Arthur Araujo - 8 de abril de 2010 at 19:36 Reply

    8 horas por dia?
    Eu durmo de 7 a 5 horas por dia, passo 8 horas na escola, tenho tempo de sobra, mas sou muito mal organizado!
    Cada um à seu tempo…
    A.

  4. Luis - 8 de abril de 2010 at 23:01 Reply

    Não são engraçados os problemas da classe média?
    Enquanto tem gente que discute a falta de comida, tem gente que comenta as poucas horas de sono. Antes que a galera defensora das classes venha me criticar (de novo), eu vou deixar claro que não odeio a classe média. sou um rapaz classe-média assumidasso. só me divirto.
    ;D
    Mas, na boa, eu ODEIO não conseguir distribuir meu dia. é tão frustrante.
    ;/

  5. Anne Beatriz - 9 de abril de 2010 at 12:47 Reply

    É, Lili, tempo não é igual para todo mundo. E eu prefiro a minha assiduidade aos ensaios do teatro à horas de sono.

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