Ela e as mudanças dela

Decidiu que estava farta de ser quem era.

Era preciso, então, escolher quem seria dali em diante. Por isso, sentou-se no sofá com uma expressão decidida, papel, caneta e um pacote de bolachas – o que não era necessário à decisão, mas, bem, as bolachas eram de chocolate e ela estava com fome.

Do que não gostava em si mesma? Do jeito estabanado de andar. Com certeza, do jeito estabanado de andar. Ah, e do hábito de chorar por qualquer coisa. Só de se lembrar disso, tinha vontade de chorar! Não gostava do nariz e da barriga, mas isso não vinha ao caso. Afinal, não era hora de frivolidades: a mudança era interna. Queria ter mais coragem, isso sim – era medrosa. Queria ter coragem, muita coragem, inclusive para fazer plástica no nariz e na barriga se tivesse vontade, por que não? Não precisava se envergonhar de seus sonhos.

Começou a anotar tudo o que gostaria de mudar quando se lembrou de seu chefe. Tomás era uma dessas pessoas que parecem ter nascido com o pacote chefe. Não falava, indagava. Não olhava, intimidava. Não conversava, cobrava. Tomás tinha cara de chefe, voz de chefe, roupa de chefe, cabelo de chefe, cheiro de chefe e nariz de batata – não há um padrão de narizes de chefes.

Estava decidido. No dia seguinte, ao chegar ao escritório, usaria sua nova personalidade para mudar sua relação com Tomás. Se ele quisesse, que a demitisse! Afinal, ela agora tinha coragem.

Mal podia esperar. Ao chegar, encontraria Tomás em sua mesa, como encontrava todos os dias. Mas não passaria por ele com a cabeça baixa. Não, não. Olharia fixamente nos olhos dele. Não murmuraria “bom-dia” com um fio de voz, como de costume: se preciso, gritaria! Não deixaria que ele a amedrontasse, em nenhum momento do dia. E aproveitaria para, no fim da tarde, pedir um aumento. Fazia tempo que queria pedir um aumento, mas não tinha coragem. Agora, depois de escrever naquele papel tudo o que queria mudar, não só tinha coragem, como um andar confiante e o hábito de não chorar por qualquer coisa.

No dia seguinte, acordou já se espreguiçando de um jeito diferente. Estava animada para desfilar com sua nova personalidade como quem estreia um lindo par de sapatos, e saiu de casa com seu novo jeito de andar. Claro, chegou ao escritório um pouco dolorida, mas que par de sapatos novos não causa dor?

Andou pelo corredor. A três metros de virar a baia e dar de cara com Tomás na mesa dele, respirou fundo. “Você vai conseguir, amiga”, disse para si mesma. Gostava de se chamar de amiga nessas horas. Com seu novo jeito de andar, deu mais um passo. Outro passo. E mais outro. Quando finalmente viu a mesa de Tomás… ele não estava lá.

Isso nunca tinha acontecido. Por alguns instantes, ela ficou de pé, imóvel, confusa. O que faria agora?  De repente, que susto! Tomás apareceu pelo outro lado, intimidando-a com o olhar.

Então, ela imediatamente abaixou a cabeça e murmurou: “Bom dia”.

E, quando o fim da tarde chegou, o pedido de aumento não veio junto.

Mas tudo bem. Depois do expediente, ela se consolaria no shopping, comprando um par de sapatos novos. Ah, e na segunda-feira, começaria uma dieta – um objetivo bem mais fácil de ser conquistado. Claro, desde que ela não tivesse que abrir mão das bolachas de chocolate.

13 comments to “Ela e as mudanças dela”

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  1. Tereza - 17 de abril de 2010 at 9:07 Reply

    Lili, faz uns meses que nao visitava seu site e hoje, olhando outros blogs, me dei conta que deixei de ler um dos meus preferidos, que é o seu. Muito obrigada por ter voltado, seus textos e seu ponto de vista sempre despertam algo de bom nas pessoas. Beijos 🙂

  2. Camila Corrêa - 17 de abril de 2010 at 22:10 Reply

    Fico envergonhada em comentar seus textos.
    Tenho medo de que todas as minhas palavras tornem-se de ‘fonte’ tão minúscula, perto do seu talento gigante, que nem a mais poderosa lupa as torne legíveis e interessantes.
    Parabéns.

  3. Luis - 18 de abril de 2010 at 16:20 Reply

    Acho graça em tudo, mano. Nessas decisões “até o primeiro conflito”, principalmente. Mas, o que acho estranho nas tais mudanças de personalidade é que elas não são estruturais.
    Um saco. Queria tanto uma mudança estrutural na minha personalidade.

    A propósito, o texto, como sempre, tá ótimo.

  4. João Paulo - 20 de abril de 2010 at 11:02 Reply

    eu como a Tereza retornei ao seu blog semana passada depois de mais de ano. Tive que ler tudinho desde quando parei, e até um pouco antes de parar. Seu humor singelo me faz bem, anima meu dia. Até voltei a postar no meu blog depois de quase 2 anos.
    Eu gosto dos seus textos, porém prefiro os posts sobre suas situações cotidianas.

  5. Silvia - 21 de abril de 2010 at 22:33 Reply

    Oi Lili, o que eu tenho pra dizer não tem nada a ver com o posto, mas la vai. Vc apesar da pouca idade me parece bem vivida, eu tenho 29 anos, tenho um filho e sou casada vai fazer 6 anos. Queria saber como vc acha que a gente consegue saber quando o casamento acabou. E não me vem com essa de dizer que é quando o amor acada pq não tenho certeza sobre isso. Na verdade não consigo imaginar como pode o amor por uma pessoa com quem se dividiu, construiu, pensou tantas coisas pode acabar assim do nada. Acho que muda. Mas e o relacionamento? Como saber que não tem mais jeito?

  6. Giovanna - 24 de abril de 2010 at 12:52 Reply

    Lili, parabéns pelos seus textos! É o tipo de leitura de que eu mais gosto, leve, divertida e com conteúdo de verdade! Parabéns novamente! 🙂

  7. ENDY - 3 de agosto de 2010 at 16:22 Reply

    Eu adoro seus textos , são otimos quando começo a ler , eu quero ler mais e mais .
    PARABENS *

  8. manoelmessiassantos - 2 de setembro de 2010 at 15:10 Reply

    Ser Contista, ou Cronista, anda sempre à sombra do romancista! E de qualquer modo, esbarra-se no historiador – se o texto for baseado em algum fato. Mas mesmo assim, se ele na verdade é uma ficção… – Parabens, Lili! – Voce fez um demonstrativo duplo, entrelaçando-se com a imaginação do pessonagem que, no caso, é ‘a Mulher, nos seus Sonhos constantes’; principalmente quando ela exerce o cargo de secretária, como voce a descreveu no enfoco. Sabe-se que todas, ou quase todas as secretárias, dão valor um monólogo; mas nem sempre o expressam a quem de direito; e isto deve ser um pouco deprimente, ou seja, constrangedor à sua própria alma. Mas a verdade, é que a ficção na sua RERVE, ou VEIA, de fato se transforma em fato. Pedir quando realmente necessita, não é humilhar-se; é confiar na generosidade do próximo. Manoel Messias Santos ‘o pensador’. Em 02/09/2010

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