Aquela rua

Eu devia ter uns oito anos quando meu pai se mudou para aquela rua.

Não seria por muito tempo. A ideia era passar alguns meses naquele antigo sobrado até que terminasse a reforma do apartamento novo. Então fomos eu, meu pai, meu irmão e nosso cachorrinho, um husk siberiano lindo, branco e preto, de olhos azuis, chamado Dragon – quem escolheu o nome foi meu irmão.

Naquela época, a minha futura situação no meu colégio já estava desenhada. Na verdade, estava mais para um garrancho do que para um desenho: minha popularidade na escola só caminharia de mal a pior. Eu me achava feia, esquisita e desengonçada, e, para piorar, todo mundo me achava feia, esquisita e desengonçada.

Eu me sentia um pouco mais aceita no prédio onde minha mãe morava, apesar de que lá não havia muitas crianças para me aceitarem. Eram só algumas garotas três ou quatro anos mais novas do que eu, e três ou quatro anos para uma criança são muita coisa. Aliás, meu irmão é quatro anos mais velho, o que significa que, em casa, quando eu era sua única companhia, ele brincava bastante comigo – mas, lá fora, ele tinha a turma dele. Nos prédios onde meu pai morava, nunca tinha criança. Definitivamente, metros quadrados e localização contam mais na hora de seus pais escolherem um apartamento do que a presença de crianças.

Até que meu pai se mudou para aquela rua.

Lembro direitinho do primeiro fim de semana lá. A rua era calma, só de casas. Não tinha muito carro e meu pai me deixou brincar lá fora. Dois minutos depois, chegou a primeira criança para conversar comigo. Ela tinha a minha idade. Dois minutos depois chegou outra criança, e mais outra, e mais outra. De repente, eu me via dentro de um grupo de dez, doze crianças, todas vizinhas. Meu Deus! Minha alegria era tanta que parecia que eu tinha sido transportada para uma terra longínqua. Não era uma nova rua, era um novo universo paralelo, eu tinha certeza.

Tinha a Joana, que fazia picolés para a gente vender nas casas. Tinha a Patrícia, prima dela, que tinha dois gatos. Um dia, um dos gatos sumiu e passamos o dia inteiro na rua, procurando por ele, com direito a lanterna, corda, bússola! Tinha a Ju, que sempre nos chamava para tomar café na casa dela à tardinha – como era bom sentir o cheiro do biscoito de queijo que a mãe dela fazia, e mais ainda, fazer parte daquele bando alegre de crianças que ia lá comer os biscoitos de queijo, e tomar suco de uva, e depois voltar alegre para a rua! Tinha o Daniel, que gostava de mim. Eu mal podia acreditar: tinha o Daniel, que gostava de mim! Ele era um ano mais velho, usava óculos e isso é tudo que me lembro dele, além do fato de que… Deus, ele gostava de mim, e todas as crianças daquela rua sabiam disso, e como isso me deixava feliz.

Lembro de como era bom, à noite, ficar sentada com todos aqueles amigos na calçada. Da rua, eu via as luzes dos filmes a que meu pai assistia na televisão, as luzes refletidas nas paredes do sobrado. A gente ficava vendo as luzes e conversando, até que alguém pegava uma bola, até que a gente brincava de mês e telefone sem fio, até que meu pai me chamava para dormir e, no dia seguinte, começava tudo de novo.

Mas é claro que tinha o apartamento. A reforma. O apartamento muito maior e melhor do que aquele sobrado, numa rua melhor e cheia de prédios.

Não participei da mudança. Não me despedi de ninguém. Eu estava na casa da minha mãe, quando meu pai ligou, feliz, dizendo que, no fim de semana seguinte, já estaríamos no novo apartamento.

Então, passei os finais de semana seguintes naquele apartamento gigante, lindo, é verdade, mas num prédio sem crianças. Depois, eu conheceria dois vizinhos, o Gustavo e a Carol, mas isso era depois. Naquele momento, tendo como universo o prédio do meu pai, o prédio da minha mãe e a escola, eu me sentia completamente sozinha.

Não sei por que, mas nunca pedi que meu pai me levasse de novo àquela rua. Criança tem umas coisas. Na minha cabeça, era como se fosse impossível voltar: como se eu tivesse sido arrancada da minha dimensão paralela pelos adultos, e só pudesse voltar se alguma mão mágica me levasse para lá novamente.

O fato é que só vários anos depois, quando eu já estava no último ano do colégio, é que, andando pelo bairro, indo ao supermercado, errei o caminho e fui parar sem querer naquela rua. Levei um tempo para reconhecer o sobrado – o meu sobrado, e depois o da Joana, e depois o do Daniel. Não era possível! Aquela rua, aquela dimensão mágica da minha vida, aquele mundo distante, ficava a apenas cinco quadras do apartamento reformado, onde eu ainda morava. Cinco quadras.

Por algum tempo, fiquei ali parada. Eu não era mais criança, mas, mesmo ocupada com os estudos para o vestibular, imediatamente voltei no tempo e revi com toda força os meus dias naquela rua. Cinco quadras! Eu devia ter voltado. Devia ter pedido ao meu pai, ao meu irmão, eu devia ter gritado! Devia ter contado para eles o que aquela rua representava na minha vida… Devia ter contado que tinha a Joana, os gatos da Patrícia. Tinha o Daniel, e ele gostava de mim. O que o Daniel teria pensado quando percebeu, de um dia para o outro, que eu não morava mais lá?

Mas não adiantava pensar nessas coisas. O tempo tinha passado e eu tinha uma tarde de estudos pela frente. Então, respirei fundo, fui ao supermercado e voltei para o apartamento – o tal apartamento grande e reformado num prédio sem crianças, mas e daí, agora eu já não era uma delas.

10 comments to “Aquela rua”

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  1. Kirk Patrick - 24 de abril de 2010 at 13:01 Reply

    Minha história é semelhante à sua! Também morei em um sobrado, só que foi por alguns anos. Depois me mudei e quando me tornei adulto, descobri que a rua onde cresci, fiz amizades e que fez parte da minha vida ficava perto do meu novo lar.

    Um trecho de uma música que fala de saudosismo, chamada Melacolia:

    Eu olho pra frente e sinto saudade;
    Do tempo bom da minha mocidade;
    No peito arde uma dor que me invade;
    Contagia tudo e sobe até a mente;
    Se não me cuido até fico doente;
    Neurose deprimente;
    Ontem, hoje e antigamente;
    Conforta saber que não vai para sempre;
    Depois do novo dia, vai ser diferente;

    Cadê meus amigos que andavam do meu lado;
    Edgar, Tinho, Ricardo, primos e amigos que foram sem deixar recado;
    Como não sentir saudade;
    Dos tempos da menor idade, onde tudo era vaidade;
    Tudo o que eu queria era que o sol brilhasse até mais tarde;
    Papai do céu, que os trocados na carteira de meu pai nunca acabem;
    Meu fliperama e meu sorvete;
    Meu falcon e meu pegasus vão durar para sempre;
    Mas o sempre ta sempre lá na frente;
    E a gente sempre cansa na metade;

  2. Miru - 24 de abril de 2010 at 13:31 Reply

    Lili, que texto lindo 🙂

  3. Silvia - 24 de abril de 2010 at 23:29 Reply

    Não cheguei a chorar, mas me identifiquei bastante com o texto. Poxa eu sou feliz por ter tido uma infância repleta de amigos e brincadeiras de rua. Muito legal mesmo. E felizmente, mesmo depois de ter me mudado, aos 11 anos, eu pude voltar sempre (tinha uma tia, que na verdade era a casa onde nós moramos por um tempo) e mantive a amizade, na verdade mantenho, com muitos desses amigos de infância. Alguns deles foram ao meu casamento e hoje meu filho brinca com os filhos de alguns deles. Isso é muito legal.

  4. Luis - 26 de abril de 2010 at 5:54 Reply

    engraçado que as pessoas sempre concordam com quem tem baixa autoestima.

  5. João Paulo - 26 de abril de 2010 at 9:38 Reply

    bom, e o que aconteceu depois? vc voltou a ver seus amigos?
    acho que todo mundo tem uma história parecida pra contar né?

  6. josiany lima - 28 de abril de 2010 at 14:34 Reply

    ai lili…sou sua fã.seustextos são tão lindos e cheios de sentimento que fica fácil gostar deles e de vc…a minha a miga Amanda fez uma enrevista com vc para um trabalho da escola,eu adorei…olha nosso blog para assim ter-mos um olhar critico de alguem,pois sonhamos em ser jornalistas e foi por isso que criamos o blog teentação…somos 4 garotas de 4 lugares diferentes

  7. Patricia Silva - 29 de abril de 2010 at 12:40 Reply

    Lili,

    Gostaria de indicar um filme que assisti a achei lindo:
    ” Mary e Max – uma amizade diferente”

  8. Anamara - 30 de abril de 2010 at 22:11 Reply

    Oi Lili! Tempos que não lia seus textos, nem sabia do seu site, e tá ótimo, adorei… E li todos os textos mais recentes, e adorei também… Esse me lembrou minha infância, que foi bem diferente dessa, tirando o fato de ter uma rua e muitas crianças, e muitas brincadeiras…

    Adoro seus textos!

    Beijos!

  9. Thissi - 8 de maio de 2010 at 14:40 Reply

    Nossa… fiquei com os olhos cheios de lágrimas!!!!

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