Uma breve reflexão sobre quem pede a mesa, a conta, essas coisas

Anos atrás, numa visita da minha mãe a São Paulo, apresentei a ela um então namorado. Contentes, fomos os três jantar num restaurante. Beleza. O problema é que, chegando lá, o maître nos abordou e eu disse:

Eu: uma mesa para três não-fumantes, por favor.

Se você não viu nenhum problema no que eu disse, obrigada. Porque, assim que voltássemos para casa, minha mãe me daria uma longa bronca. “Não é você que pede a mesa! É o homem! E você ainda pediu a conta… Deus…”, ela falou, arrasada. E, como boa mãe, decretou: “Os homens gostam de proteger as mulheres. Eu sei que você mesma pode pedir a mesa, mas FINJA que precisa dele para fazer essas coisas.”

Os anos se passaram. E, nesse período, toda vez que eu estava acompanhada e pedia a mesa ou a conta, infelizmente me lembrava da minha mãe falando isso. Saco. Uma coisa que era normal em mim estava quase virando uma neura. Mães adoram fazer isso! Ou, pelo menos, a minha.

Mas então era isso? Homens gostam que a gente finja que é desprotegida?

Para abreviar meus anos de pulga atrás da orelha, vamos logo à minha conclusão: concluí que minha mãe tinha uma boa dose de razão. Muitos homens gostam de bancar os protetores e, por conseqüência, gostam que nós banquemos as desprotegidas. Mas também concluí que esses homens não são para mim. Fazer o quê! Me cansa bastante a ideia de fingir que não posso fazer certas coisas que, na verdade, posso fazer. E minha mãe me dá conselhos muito bons, mas não pode estar certa em tudo.

Então, é simples. Prefiro um homem que não se incomode que eu peça a mesa quantas vezes eu quiser.

Em tempo: não é que eu seja uma fanática por pedir a mesa e a conta, ok? Às vezes, peço. Às vezes, não. Talvez meu marido peça mais do que eu, até. E já saí com caras que sim, bem à moda da minha mãe, faziam questão de fazer tudo. E já aconteceu o oposto: eu ter que fazer tudo.

Talvez um grande qualidade de uma relação seja não fazer diferença quem vai pedir a conta e a mesa.

11 comments to “Uma breve reflexão sobre quem pede a mesa, a conta, essas coisas”

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  1. Lori - 23 de março de 2010 at 10:30 Reply

    Engraçado que eu e uma amiga conversávamos com 3 amigos homens sobre o que eles esperam de uma mulher na mesa de jantar,de bar…enfim,em um ambiente em que eles estejam com uma mulher.O que nos pareceu foi isso,esperam que a mulher,principalmente a deles,não tenha divergências em relação ao assunto e pouco se coloque,demonstrando uma própria e uma individualidade,ou seja,fale o que pense. No final da conta, não sei se foi proposital,mas o amigo da ponta que pediu a pediu,concluímos que esses tipos de cara acabam saindo com as meninas “maizena” (com poucas divergências e opiniões), quando encontram com gurias que se posicionam,intuitivas e divergentes acabam se afastando,afinal,essas não precisam de ser protegidas coisa alguma e podem até proteger eles.

  2. Brícia Alves - 23 de março de 2010 at 11:12 Reply

    “Me cansa bastante a ideia de fingir que não posso fazer certas coisas que, na verdade, posso fazer.” Adorei. E frase final também é uma bela verdade. Bjos, srta Lili!

  3. Ana Paula Lou - 23 de março de 2010 at 12:18 Reply

    Verdade, as mães sempre nos lembram que estamos “saidinhas” demais para algumas coisas, mas, concordo plenamente com você quando relaciona essa postura com liberdade, pois, é tão bom quando a gente pode ser do nosso jeito sem se preocupar em seguir determinadas regras, não é mesmo?

  4. Luana Furtado - 23 de março de 2010 at 22:43 Reply

    Nossa… esse texto me fez enxergar tudo de uma maneira diferente! hahaha… É que, confesso, eu me incomodava um pouco por pedir a mesa e a conta quando saía com o meu namorado… eu queria me sentir “protegida”…mas ele não tomava a atitude…até que resolvi pensar como você disse… que não faz diferença quem pede!!! Isso não quer dizer que o relacionamento seja melhor ou pior… cada um tem que fazer o que tem vontade né… essa história do homem ter que fazer tudo, tomar as atitudes até no restaurante, é puro machismo, decorrente da antiguidade. rsss

    Beijos, Lili

  5. Arthur Araujo - 24 de março de 2010 at 20:01 Reply

    Mães e suas idealizações.
    E o machismo imperando na sociedade novamente!
    Isso, Liliane, não seja uma mulher passiva a supremacia masculina e exerça os direitos que as mulheres conseguiram com muita luta e muitos sutiãs queimados.
    A.

  6. Camila F. - 25 de março de 2010 at 12:12 Reply

    Nossa, eu peço a mesa o tempo todo! Nunca tinha pensado nisso. Mas concordo com você: o homem que presta atenção nesse tipo de bobagem não é para mim. Ainda bem que meu marido não é nem remotamente parecido com esse perfil (assustador, cá entre nós)!

  7. Camila F. - 25 de março de 2010 at 12:14 Reply

    E, como assim, você falou com o Gay Talese por telefone? Eu teria tido um ataque fulminante! Rs…

  8. Dany Giorno - 29 de março de 2010 at 19:34 Reply

    Mi, não havia pensado nisso antes. Achei sensacional. Adoro quando você escreve coisas a respeito da sua mami. Sempre aparece um comentário surpreendente. Beijos, Dany

  9. Luis - 1 de abril de 2010 at 15:08 Reply

    Síndrome de Scarlett O’Hara?

  10. Fernando Mello - 24 de maio de 2010 at 9:36 Reply

    Eu concordo que não seja muito importente quem escolhe a mesa ou paga a conta, mas a verdade é que muitas mulheres ainda apreciam essa atitude nos homens, o chamado cavalheirismo. Durante muitos anos a mulher foi considerada um ¨ser frágil¨ , inclusive por elas mesmo. Talvez seja natural que essa forma de pensamento ainda sobreviva nos dias de hoje.

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