Isabela

Começando a colocar algumas crônicas…

Isabela

Quando Isabela soube que Fernando estava dormindo mal e tinha perdido cerca de cinco quilos, sentiu primeiro uma angústia e logo em seguida uma vontade incontrolável de ir à casa dele preparar-lhe uma grande panela de carne com batata e obrigá-lo a comer tudo.

Já fazia três anos que ele havia falado que não a amava mais. Pega de surpresa como sempre somos pegos de surpresa quando alguém diz que não nos ama mais, mesmo que uma parte nossa já saiba há tempos que não é mais amada, Isabela propôs que continuassem se vendo sem compromisso. Ele estava livre para ficar com outras mulheres, desde que ficasse também com ela. E ela estava livre para ficar com outros homens, embora soubesse perfeitamente que não o faria.

Mantiveram por alguns meses uma relação leve, dessas sem cobranças, que fazia Isabela sofrer mais do que qualquer outro tipo de relação.

Como doía passar o dia esperando que Fernando fizesse uma surpresa e aparecesse na casa dela sem avisar, coisa que ele nunca fizera nem quando tinham o que chamavam de compromisso. Como doía passar o dia feliz, na expectativa de o telefone tocar, e ver essa felicidade agonizar pouco a pouco com o passar das horas e morrer no final do dia. Como doía ouvir da família e dos poucos amigos que estava fazendo papel de boba – só doía menos do que os momentos em que ela resolvia que não se envolveria mais com ele; momentos que sucumbiam docemente ao telefone quando este finalmente tocava e aos braços de Fernando quando ele finalmente aparecia.

Mas a vantagem desse tipo de relacionamento, pensava Isabela, era que ela tinha a garantia de que Fernando nunca se cansaria dela. Não é, afinal, o sonho de todo homem poder ficar com a mulher que quiser sem ter que ouvir reclamações da namorada ou esposa? Ciente disso, Isabela não reclamava; pelo contrário, estava sempre sorrindo para Fernando um sorriso tão feliz que mascarava perfeitamente o desespero inútil de quem sabe que não é mais amado.

Até que Fernando se cansou de Isabela.

Ela não podia acreditar. Primeiro ficou calada; depois disse que não se importava e que ele poderia fazer o que bem entendesse de sua vida, e finalmente se jogou de joelhos pedindo insistentemente que ele ao menos tentasse gostar dela por mais um tempo. Não precisava gostar muito, não precisava sequer gostar pouco; bastaria que ele gostasse em quantidade suficiente para suportar a presença dela e, em um ou outro momento de boa disposição, até desejar-lhe fisicamente.

Fernando disse que isso não era possível, porque estava apaixonado por outra mulher.

Isabela teve uma grande dificuldade de assimilar essas palavras. Apaixonado por outra mulher? Ela tinha ouvido, ela poderia até mesmo repetir se alguém lhe pedisse – mas não podia compreender. Outra mulher. Apaixonado. Apaixonado por outra mulher.

Muda, Isabela saiu do apartamento dele, que não disse nada além de “cuide-se” antes de fechar a porta. Jurou para si mesma que nunca mais atenderia nem um telefonema de Fernando – para, no outro dia de manhã, voltar ao apartamento dele, perguntando se ele estava arrependido.

Não estava.

Depois de alguns dias, Isabela voltou, com outra expressão de seu rosto – de mulher apaixonada, passou a mulher independente que estava ali apenas porque queria sexo com um amigo antigo. Uma necessidade do coração e da alma transformada em vontade do corpo.

Assim que Isabela explicou suas novas intenções, Fernando olhou para ela com alguma repulsa e disse apenas: “Não quero”. Pensando que ele não havia entendido a proposta, ela disse claramente: “Não gosto mais de você. Só estou acostumada a fazermos sexo. Se sempre foi tão bom, por que a gente deveria deixar de fazer?”. Fernando novamente olhou para ela, e depois para o relógio, e depois disse que precisava sair e que ela tinha que ir embora.

Antes de se despedir, Isabela perguntou se poderia passar no apartamento dele quando sentisse sua falta, apenas para conversar. Ele consentiu, desde que ela telefonasse antes. Ela respirou aliviada. Ficaram assim por meses: ela ligava e falava que estava indo, ele concordava e desligava o telefone ou dizia “não, agora estou com visita em casa” – nesse caso, Isabela educadamente compreendia, desligava e chorava.

Quando ele concordava com sua visita, Isabela tratava de não demorar muito para não aborrecê-lo. Ia, conversavam um pouco, ela lhe fazia um café, olhava como estava a geladeira – se não tinha nada, o que não era incomum, dava uma rápida ida ao mercado e comprava leite, pão, algumas frutas –, despedia-se com a certeza de que um dia ele ia acabar gostando dela e ia embora.

No dia em que Fernando disse a Isabela que ia se casar com a outra mulher, Isabela chorou por dois dias seguidos, mas depois enxugou as lágrimas e passou a encarar o casamento como um problema do casal – Fernando e ela. E continuava indo à casa dele, apesar de ele, cada vez mais freqüentemente, recusar suas visitas por telefone.

Quando a mulher de Fernando, Maria Luiza, atendeu a porta do apartamento em que os dois moravam e viu que era Isabela, apenas disse que o marido não estava e fechou a porta. Do lado de fora, Isabela ouviu Maria Luiza, aos gritos, dizendo para Fernando que não admitiria mais que “aquela mulher” o visitasse.

Isabela foi embora, envergonhada – mas também orgulhosa, sabendo que a esposa de Fernando se referia a ela aos gritos e, sobretudo, que se referia a ela como “aquela mulher”. Ela significava alguma coisa para Fernando. Era aquela mulher. Aquelas mulheres merecem os gritos de uma esposa!

Depois desse dia, Isabela passou meses sem contato com Fernando – sem telefonemas, sem visitas; apenas com pensamentos e com o secreto e confortante orgulho de ser aquela mulher.

Até que seu telefone tocou e era Fernando. Surpresa, Isabela ouvia: Maria Luiza tinha saído de casa. Problemas conjugais, brigas, não quis entrar em detalhes. Fernando estava dormindo mal e chegou a perder cerca de cinco quilos. Foi quando Isabela sentiu uma vontade incontrolável de ir à casa dele preparar-lhe uma grande panela de carne com batata e obrigá-lo a comer tudo.

E foi o que fez.

Chegando ao apartamento de Fernando, foi logo para a cozinha. Preparou a comida enquanto ouvia suas quase ininterruptas explicações sobre como estava sofrendo, como estava arrasado, como tinha sido pego de surpresa como sempre somos pegos de surpresa quando alguém diz que não nos ama mais, mesmo que uma parte nossa já saiba há tempos que não é mais amada.

Isabela, atenta a cada detalhe, agora o observava comendo.

Ele devorou tudo. Depois a olhou com gratidão, mais por ter sido ouvido do que por ter comido, e a abraçou. Beijaram-se. Deitaram-se. Amaram-se. Para Isabela, era uma mistura de amor, desejo, saudade, realização e uma cumplicidade que sobreviveria ao tempo que fosse. Para Fernando, era uma mão que carinhosamente tampava um buraco que voltaria a se abrir dentro de alguns instantes.

Vendo Fernando dormir, Isabela sorriu. Para ela, ter sido tão vigorosamente desejada por alguns instantes era a última prova de que precisava para nutrir uma de suas poucas e inseparáveis certezas: um dia, ele voltaria a gostar dela.

14 comments to “Isabela”

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  1. Camila Corrêa - 29 de março de 2010 at 9:58 Reply

    Isabela é um pouco de cada mulher que não aceita ou não compreende o que é não ser amada. Eu não quero ser Isabela, mas às vezes sou.
    Essa crônica é praticamente tangível, de tão real. Arg! rsrs

  2. Mirella - 29 de março de 2010 at 10:09 Reply

    INFELIZMENTE existem muitas Isabelas pelo mundo afora…
    É triste…
    Completa falta de amor próprio!!!!

  3. Au - 29 de março de 2010 at 19:11 Reply

    Que você escreve inacreditavelmente bem eu já sabia, mas não sabia que suas crônicas eram assim…: tão reais e bem escritas.

    :*

  4. Arthur Araujo - 29 de março de 2010 at 23:38 Reply

    Lindo texto. De uma sensibilidade ímpar. Um louvor ao amor, que não precisa ser necessariamente correspondido. É lindo seu trabalho com as emoções dos personagens.
    Você não precisa deses elogios, mas mesmo assim: parabéns!
    A.

  5. Fernanda - 29 de março de 2010 at 23:40 Reply

    Oi Liliane!
    Gosto muito dos seus textos. Espero que coloque mais crônicas. Isabelas me dão agonia. Triste saber que existem aos montes (pior é que, às vezes, na vida dos nossos Fernandos…hahahaha).

    Sobre seu texto anterior, entendo perfeitamente o que você diz, pois somos da mesma geração. Os adolescentes de hoje em dia, provavelmente, não devem achar nada atrativo ouvir Titãs e Engenheiros. Afinal, existe NX Zero. Espero que um dias eles descubram como Titãs e Engenheiros é legal. E também Chico e Elis.

    Beijos!

  6. Marcio Caparica - 30 de março de 2010 at 12:47 Reply

    A Isabela dentro de mim conseguiu fazer uma ligação lá do fundo do calabouço onde eu tenho enterrado ela nos últimos muitos anos pra dizer que se enxergou muito nessa crônica e que um dia…

    O “novo eu” está aqui tentando empurrar ela de volta, meio constrangido. 🙂

    Anyway, o texto é muito lindo, super bem escrito, com palavras escolhidas a pinça. E o final é excelente, apesar de não ser o que eu gostaria que fosse…

  7. Marcio Caparica - 30 de março de 2010 at 13:01 Reply

    Só um adendo, acho que “Isabela” é um título vago demais e que remete a crianças sendo atiradas pela janela. Existe um sentimento muito verdadeiro nessa crônica que podia levar a algum título mais marcante… deixo pra autora descobrir, ehehehehe.

  8. yarah - 30 de março de 2010 at 18:07 Reply

    Lindo texto,muito tocante 🙂
    amei,assim como os seus livros,me faz ter sede de continuar lendo mesmo quando terminam

  9. Isabella - 30 de março de 2010 at 18:25 Reply

    Você é boa nessa arte, hein, minha amiga! Profundo.

  10. Anne Beatriz - 31 de março de 2010 at 21:39 Reply

    Assim, desse jeito que eu quero ser e escrever. hihi
    Lili, eu estou no primeiro semestre de Jornalismo na UFPA e saiba que você foi uma das pessoas que me fez querer ser jornalista.
    Beijos!

  11. Isabela Camargo - 1 de abril de 2010 at 12:49 Reply

    Oi Lili! Você escreve maravilhosamente bem! Obrigada por nos proporcionar uma boa crônica nos momentos de lazer!
    E principalmente por nos contar (com muito humor!) o que acontece no seu dia a dia.
    Bjoss para vc!!

    • Lili - 1 de abril de 2010 at 14:41 Reply

      Nunca tive tantos comentários de Isabelas no mesmo post! Obrigada, Isa, e obrigada a todo mundo. Bom saber que, agora, além de falar de mim na primeira pessoa, posso escrever textos na terceira pessoa que vcs me apóiam 🙂

  12. Angélica (Isabela) - 2 de abril de 2010 at 0:32 Reply

    Quem te contou a minha história?

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