Como nossos pais

Quando eu tinha uns treze, catorze anos, meu pai vivia me botando para ouvir as músicas de que ele gostava. Maria Bethânia. Gal Costa. Nara Leão. Elis Regina. Chico Buarque.

Eu detestava. Principalmente Chico Buarque. “Com essa voz, como esse cara pode ser cantor?” , cheguei a perguntar uma vez, do alto da minha indignação de treze, catorze anos. Meu pai ficava horrorizado. “Ouça mais uma vez”, pedia. “Preste atenção à letra”. Eu resmungava, mas obedecia. Era particularmente sofrível ouvir Elis Regina cantando “Romaria” e “Como nossos pais”. Eu quase dormia logo nos primeiros versos. Então, quando acabava aquele martírio, eu fazia pouco do mau gosto musical do meu pai. E ia para o meu quarto ouvir Kid Abelha, Legião Urbana, Engenheiros, Paralamas: aquilo que era bom.

Fui crescendo, meu pai foi desistindo de me converter musicalmente, e segui ouvindo “Infinita Highway” e “Eu tive um sonho”. Estudei num colégio em que todo mundo ouvia as mesmas coisas, com exceção de um ou outro que gostava de heavy metal e da menina romântica que suspirava com a Marisa Monte cantando “Beija eu”. O axé estava começando e, pelo menos no meu colégio, não pegou. Diversidade musical não fazia muito o estilo de uma escola em que todo mundo ia para a aula com uma mochila Company. Ai de quem fosse com uma mochila de outra marca! Tive uma Company rosa, uma roxa e uma preta – esta era o meu orgulho: só os mais subversivos usavam.

Só no primeiro semestre da faculdade fui descobrir que nem eu, nem meus colegas tínhamos inventado o bom e o mau gosto musical. Para minha surpresa, as músicas que eu ouvia eram ruins, e as do meu pai, boas. “Mas você gosta de Chico Buarque?”, perguntei uma vez a uma colega. “Eu não gosto tanto, mas sei que ele é bom”. Tá certo.

Peguei antipatia. Não podia ver alguém ouvindo Elis Regina ou Chico Buarque, que achava que a pessoa queria se exibir. Não acreditava que ela gostasse genuinamente daquilo, mas só que queria fazer parte do grupinho do tal bom gosto. O grupinho que ouve MPB de qualidade. Eu, não. Eu me recusava a entrar nessa. E seguia ouvindo Kid Abelha, Legião, Engenheiros, Paralamas, e, agora, Skank, Titãs.

Por isso, quando comecei a namorar um cara que adorava Chico Buarque e também todos que iam surgindo e sendo abraçados por esse grupinho – Maria Rita, Céu, Mariana Aydar, Thalma de Freitas, Teresa Cristina… –, logo pensei: “Que arrogante!”. Ele tentou me catequizar no início, como meu pai. Dizia: é impossível não gostar de “Noite dos Mascarados”. Mas eu desdenhava. Sempre seguindo com minhas músicas, que agora incluíam Capital Inicial à exaustão – meu Deus, como ouvi aquele acústico!

Até que, um dia, fui tomar banho na casa desse meu (agora ex) namorado. Ele não estava lá, e, com vontade de tomar banho ouvindo música, decidi pegar um dos seus cds chatos. Bati o olho num do Chico Buarque. Li no verso da caixa: “Noite dos Mascarados”. E, meio fazendo pouco, meio curiosa, botei o cd no aparelho de som, nessa faixa, e fui para o banho.

Naquela tarde, ouvi “Noite dos Mascarados” pelo menos cinco vezes.

Depois disso, percebi que “Samba do Grande Amor” dizia tudo o que eu queria ter dito quando me separei.

Notei que “João e Maria” me fazia arrepiar como nenhuma música tinha feito.

E cheguei a chorar com “Romaria”, de Elis Regina, e também com “Como nossos pais”.

É, não tinha jeito. Eu havia sido convertida à MPB.

Hoje, quando entro no meu carro, confiro se estou levando meus cds do Chico Buarque e da Maria Rita, os que mais tenho ouvido ultimamente, além de Virgínia Rosa e Mallu Magalhães (adoro a Mallu Magalhães!). Já me emocionei muito em plena Marginal Pinheiros. Se o tempo está parado dentro do carro, você não liga muito para o trânsito parado lá fora.

Mas devo confessar que, no estojo em que guardo meus novos cds, os velhos continuam lá.

Tem Legião, Engenheiros, Capital e Kid Abelha. Até Dani Carlos já passou por lá. E, quando dá vontade, ouço. Continuo teimosa: problema dos que inventaram esses rótulos. O bom e o mau gosto, o cool e o sem personalidade, o hype e o mainstream. No meu som, sempre vai ter espaço para um bom pop.

19 comments to “Como nossos pais”

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  1. Camila Corrêa - 25 de março de 2010 at 14:22 Reply

    Amei esse post musical. Eu por exemplo sou muito eclética. Acredito que a música é sim boa ou ruim, mas de acordo com o seu momento.
    Amo Legião Urbana, mas confesso que mesmo sendo brega, me emociono com algumas músicas do Rei Roberto.
    Deixo aqui minha humilde sugestão de trilha sonora, que ao meu ver se encaixa bem com tudo descrito por você!
    http://www.youtube.com/watch?v=XsQIjoGvDbk

  2. Carol - 25 de março de 2010 at 15:02 Reply

    Haha adorei! ps. amo engenheiros, não deixe de ouví-los! Beijos

  3. Olga - 25 de março de 2010 at 23:51 Reply

    oh Lili.. que bom que seus textos estão de volta.
    Seu blog tá muito, muito, lindo.

    beijos,

  4. luis - 26 de março de 2010 at 0:17 Reply

    Me deu vontade de baixar Elis Regina. E baixei.
    ^^

  5. João Paulo - 26 de março de 2010 at 12:24 Reply

    Liliane voando pelas melodias…

    Elis Regina, Clara Nunes, Zé Ramalho, Secos & Molhados entre outros, são bons cantores mesmo.

    Mas Chico Buarque, como cantor, é excelente compositor.

    Morena de Angola com Clara Nunes é patrimônio cultural brasileiro.

    Abraço e ficou muito legal o site com WordPress.

  6. Brícia Alves - 26 de março de 2010 at 12:37 Reply

    Feliz com esse posts regulares!Hum…não sei o que há, nunca parei pra ouvir MPB. Aliás, difícil eu gostar de alguma música em português…ah, lembrei, eu gosto de ouvir Deborah Blando…principalmente quando ela canta em inglês, oh, céus. Brincadeira, eu gosto da poesia dos artistas brasileiros. Mas em termos de som, eu curto mesmo um pop rock, tipo The Cranberries. Gosto muito da sonoridade dos artistas internacionais, parece um som bem mais elaborado. Bjos, srta. Lili!

  7. Brícia Alves - 26 de março de 2010 at 12:44 Reply

    Ai, acabei de ler “a professora de história”. De partir meu coração. Em pensar que vc e eu já passamos por isso…aiai.

  8. carlinha abreu - 26 de março de 2010 at 20:38 Reply

    engraçado como muita gente gosta do chico, da marisa e outros só porque é cultura!
    eu tinha um gosto muito pop também. quem me apresentou a mpb foi minha irmã, 6 anos mais velha que eu. meus pais são da época bem jovem guarda (roberto carlos, renato e seus blue caps), com o agravante do meu pai ser do interior do interior do ceará.
    também curti muito kid abelha, paralamas, capital inicial, biquini cavadão.
    mas logo curti mpb. minha preferida do chico é “o que será”.
    bjsss

    ah, e o título do post combinou direitinho, né!

  9. Ana Paula Lou - 27 de março de 2010 at 11:03 Reply

    Gostei muito desse post, principalmente, porque tenho uma relação muito forte com a MPB.
    Engraçado que cada membro da minha família me apresentou alguém, como por exemplo, o meu pai me apresentou Milton Nascimento, Gilberto Gil e aos dezenove anos me apresentou ao Chico e me dedicou ” A Ilha” em plena estação de metrô Paraíso.
    A ex-mulher dele me apresentou Marisa Monte. Minha irmã me apresentou a nova MPB, Elis Regina, Gal Costa e Maria Bethânia. Minha madrinha ao Legião Urbana, Zizi Possi, Sá e Guarabira e minhã mãe (uma eterna romântica e pop ao mesmo tempo eu diria) me apresentou ao Fábio Júnior (juro), Lulu Santos (ouviamos cantando, dançando e chorando as vezes ao vinil – Tudo Azul), Gonzaguinha, Ivan Lins e Roberto Carlos.
    Ah, e aos 23 anos o Ricardo me apresentou para Mônica Salmaso….hehe
    Eu honestamente, assim como você, enloqueci ouvindo Titãs, Capital Inicial, Engenheiros do Havaí, Paralamos do Sucesso e Skank!
    Hoje continuo amando e ouvindo todo mundo que mencionei acima e apaixonada pela Mallu, eu adoro a Mallu, assim como, a Bruna Carãm, Luiza Possi, Ana Cañas, Maria Rita e Céu.
    Enfim, acho que esse comentário ficou um pouco grande….hehe
    Beijos montes,
    Lou

  10. Jéssica Cruz - 28 de março de 2010 at 12:30 Reply

    “Como nossos pais” sempre me arrepia, mas Chico, dependendo da música, às vezes faço esforço para escutar, e acredito que dessa forma, não vale a pena.

  11. Keila Abeid - 2 de abril de 2010 at 1:57 Reply

    Adorei esse post. Muito bom.

    Bjo

  12. Mariana - 11 de abril de 2010 at 0:08 Reply

    Amo o Chico, mas quando ouvia engenheiros, paralamas e legiao, ele era tãometido a besta que não gostava, ele era chato e pronto, um dia, nem sei quando foi, ouvi um cd e me apaixonei, e na época eu morava em república, quando uma das minhas amigas viu que eu que estava escutando ele disse : “Que medita hein?! escutando Chico Buarque”, morri de ri, eu nunca fui metida, mas o Chico, ah ele sim, causava isso!

  13. Ana Guimarães - 14 de julho de 2010 at 19:00 Reply

    Vc é simplesmente maravilhosa!

  14. Marcelo Inácio - 4 de novembro de 2010 at 15:33 Reply

    Gosto não se discute, porém se aprimora. Eu também gostava de Legião Urbana e de quase todas as bandas citadas por você, mas…perto daquele pessoal da MPB, de quem você passou a gostar, não existe paralelo. Eu sou contra rótulo, do tipo:”isto é bom”, isto é ruim”, neste ponto eu concordo com você, MAS acontece que a geração dos festivais da canção a qual você se refere é simplesmente genial. Claro que as pessoas têm o direito de não gostar, mas com certeza estas pessoas não têm gosto apurado para música. Mas, graças a Deus, você passou a perceber a beleza da canção brasileira.
    Parabéns pelo texto tão bem escrito. Se possível, visite o meu site, tenho alguns áudios lá.

    • Lili - 4 de novembro de 2010 at 15:38 Reply

      Obrigada, Marcelo! Realmente, levei um tempo, mas me abri para a beleza da canção brasileira. Também não gosto de rótulos, mas acho difícil entender como alguém pode não gostar dessa geração genial de MPB. Estou indo lá conhecer seu blog. Antes de ouvir os áudios, vou ler alguns posts sobre gramática – assunto que adoro, haha! Sempre bom tirar algumas dúvidas 🙂

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