Rebelião das crianças

Cheguei à escola carregando alegremente o livro O Gato de Botas. Entrei na sala e as crianças quase tiveram uma convulsão de felicidade ao ver que era dia de ouvir histórias. Pensei: ‘Oba, elas estão desejando ardentemente ouvir uma historinha!’ Assim, quando a professora me perguntou se eu me importava de ficar sozinha na sala com as crianças, nem me abalei. Geralmente, a professora fica sentada quando leio. Mas ontem, vendo aqueles olhinhos sedentos por histórias, eu disse: ‘Imagina, pode sair! Vai ser super tranqüilo!’ Ela saiu com ar preocupado e… começou a rebelião.

O cabeça do movimento
R., de seis anos, convocou os coleguinhas para ficarem de pé. Isso quando eu estava na primeira linha do livro e o gato ainda nem usava botas.

A tática de guerrilha
Então, 45 crianças de seis anos se juntaram à minha volta e começaram a fazer cócegas em mim. Eu nunca tinha passado por isso antes. Certamente eu choraria, se eu não sentisse tanta cócega. Então, mesmo desesperada, só me restava rir.

A prisão do inimigo
Finalmente, as crianças conseguiram me jogar no chão e fazer cócegas em todos os lugares. Imobilizada, comecei a abstrair e pensar no que ia almoçar, mas, quando o sagaz R. falou algo sobre pegar água no banheiro, eu retornei das cinzas.

A revanche
Me levantei bruscamente e comecei a fazer cócegas em todos. Descobri que sou uma máquina de fazer cócegas! Nem 45 crianças ganharam de mim. Eu corri atrás delas muito rapidamente e consegui imobilizar R.

O golpe
Aproveitando que meus inimigos estavam dispersos, correndo a esmo pela sala, retomei o poder. Gritei, peguei o livro de histórias e consegui fazer com que todo mundo voltasse para seus lugares, quando J., a sensível, começa a chorar descontroladamente.
Eu: Por que você tá chorando?
J.: Porque o V. me bateu!
Eu: Nossa, que horror!
Fiquei parada, chocada, quando V. percebeu que minha falta de ação havia enfraquecido a legitimidade do meu poder e passou a ser o cabeça do movimento, liderando, dessa vez, uma ida coletiva ao banheiro.
Quando a professora voltou, metade dos alunos estavam no banheiro e uma das crianças estava pendurada no lustre. Fiquei com a cara no chão.
Enfim. Vou botar toda a culpa no livro que escolhi. Eu nunca achei que O Gato de Botas fosse tão legal, mesmo.

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  1. Marianna Ghissoni - 30 de março de 2010 at 19:45 Reply

    Fiquei na duvida, quem tem mais coragem, você ou a professora ?

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