Sobre uma coisa muito cara

Ontem eu estava conversando com meu irmão, pelo telefone, quando nos lembramos de uma explicação bizarra que minha mãe me deu quando eu era criança. Como vocês sabem, minha mãe aplicou alguns métodos bem peculiares na educação de seus filhos, como o castigo de manter eu e meu irmão abraçados por uma hora quando a gente brigava, que já contei aqui, ou como esse que vou contar agora, que é…

… sobre uma coisa muito cara
Eu tinha uns seis anos e estava em Sabará, interior de Minas, com minha mãe e meu irmão. Bom. Era carnaval e tinha muita, muita gente na cidade. Passamos numa espécie de feira que estava sendo visitada por uma multidão. Gente passando, gente gritando, quando, de repente, vejo um homem sem os olhos. Só dois buracos, no lugar dos olhos. Fiquei ali hipnotizada, assustadíssima, e falei:
Eu: Mãe! Olha aquele homem!
Mãe: Que hom… nossa.
Eu: Por que ele não tem os olhos, mãe? Por quê?
Mãe: Você não sabe?
Eu: Não, por quêê?
Mãe: Há muitos anos, ele comprou uma coisa muito cara numa loja.
Eu: Hum? Como assim?
Mãe: Ele comprou uma coisa muito cara, filha, uma coisa que custou a ele os olhos da cara. Agora pára de olhar pra ele e vamos.
Fiquei dias pensando o que diabos o homem tinha comprado. Uma mansão? Uma viagem incrível? E o que o vendedor faria com os olhos dele? O vendedor colecionava olhos? Será que o homem tinha se arrependido? A compra tinha valido a pena?

Hoje dou risada lembrando dessa história, mas, ao mesmo tempo, acho um mistério o fato de eu não ter ficado traumatizada. Quer dizer, acho que não fiquei. Senão, eu teria me transformado em uma pessoa extremamente pão-dura, certo? E eu nem sou pão-dura.

Se bem que eu nunca consegui voltar a Sabará.

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